Uma Geografia. Uma Fotografia: Tapobali

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A oeste de Lamalera, visitei a aldeia de Tapobali – pode encontrar mais aqui – e durante hora e meia caminhei em constante regime de sobe e desce, estive com crianças e tirei-lhes alguns retratos, senti o sossego, o calor abafado e vi a paisagem envolvente: a verde vegetação, o azul do mar, as enseadas e falésias de rocha vulcânica negra e castanha. Já na igreja de Tapobali, senti-me um autêntico alien ao ser observado por aproximadamente vinte pessoas, que estavam  especadas a olhar para mim. Porém, passado esse momento lost in translation, tudo regressou à normalidade, os pedidos de retratos sucederam-se e aprendi a desejar Bom Ano, na língua indonésia – Salamat Tahun Baru.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kuta

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Chegar à ilha de Bali nunca foi um sonho – posso até dizer que quando aterrei, não estava com grandes expetativas, antes curioso com o que iria encontrar. Relativamente à minha experiência pessoal, fiquei com a certeza que quanto mais afastado de Kuta  pode encontrar mais aqui – estive, melhor me senti, uma vez que o seu ambiente gira à volta de animação noturna, bares e álcool, sexo e prostituição e praia… depois de deixar o “inferno” de Kuta, o ambiente da ilha melhorou exponencialmente à medida que me afastava e rumava em direção a norte…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Payakumbuh

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Em redor de Bukittinggi, outro dos locais que visitei, aliás que tentei visitar, foi o vale de Harau, nas imediações da cidade de Payakumbuh – pode encontrar mais aqui. Porém, o que à primeira vista parecia simples, revelou-se uma tarefa “impossível” devido aos múltiplos contratempos que tive com os transportes: bilhetes hiper inflacionados, longas discussões de preços, múltiplas conexões e desconexões, carrinhas/autocarros a cair aos bocados e longuíííííííííííííííííííssimas esperas! Tudo somado resultou num passeio surreal passado em Sumatra, onde a lógica se torna ilógica e o caos passa a comandar as situações do quotidiano. Neste dia esperei e MUITO, irritei-me, praguejei, ri-me e aprendi uma importante lição: em Sumatra há que ter tempo para viajar e uma paciência de Jo.

Artigo Volta ao Mundo

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Em trânsito: Lembata – Timor Oeste. Fantasmas Mentais

Durante a viagem de regresso a Lewoleba, que durou uma eternidade – cerca de cinco horas – o autocarro encheu que nem um ovo, prestes a rebentar e infelizmente ao meu lado calhou-me em rifa, uma senhora e a sua irrequieta “cria”. A viagem foi um martírio: demorada, apertada, a cabeça a bater nas barras laterais, o bebé não parava quieto e de “guinchar”… o cansaço e a falta de paciência não ajudavam e a certa altura já o queria vaporizar, mas depois refleti que também é essa a beleza da viagem. Não temos que “amar” tudo e todos SEMPRE! O melhor de tudo, é que o nosso estado de espírito muda e num segundo e num sorriso passamos a adorar a criança. 🙂 Esta viagem fez-me entender claramente que viajar longamente e de forma contínua é uma montanha russa emocional e os nossos sentimentos transitam entre estados, como tudo ou praticamente tudo, nesta vida.

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Na secaaaaaaaaaaaante capital da ilha, aguardei um dia e meio pela possibilidade de existir um ferry para Kupang, a capital de Timor Oeste, uma vez que a realidade era esta: ninguém tinha certezas e durante esse tempo em que a comunicação com os nativos era feita às quinze pancadas, recebi várias informações contraditórias. 😛 A única certeza que tinha era, caso não existisse esse ferry, existiria um avião no dia seguinte. 🙂

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Felizmente houve ferry e não tive que passar mais tempo na ilha de Lembata, esse paraíso tropical. 😉 Antes de embarcar, tirei fotografias à cor da água de múltiplos azuis e verdes e sorri com a pureza infantil das crianças que nadavam nuas, nas imediações do cais. Quando cheguei ao meu lugar, fiquei bastante satisfeito com o mesmo e durante a viagem escrevi alguns textos para o blog, atualizei o caderno, tirei fotografias à bonita paisagem e ao sereno pôr do sol, continuei a ler a “loucura” de Bukowski, pensei que na manhã seguinte iria estar em Timor e adormeci por volta das 19.00.

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Durante o sono, sonhei que estava num barco que afundava com pessoas que conhecia a bordo, mas das quais não me recordo as feições e de repente num estado de vigília senti o ferry a embater com bastante violência nas ondas, ao mesmo tempo que ouvi pessoas a gritar – pareciam verdadeiramente assustadas. A realidade é que nem sequer abri os olhos, mas lembrei-me que acabara de sonhar que estava num barco que afundava… curioso. Voltei a adormecer pesadamente e quando abri os olhos parecia que tinha dormido uma eternidade, porém eram apenas 23.30. Voltei a adormecer e acordei à 1.16 quando comi qualquer coisa. Às 3.26 acordei novamente, liguei o laptop para tirar o nome de destinos em Timor Oeste e decidi que queria partir de Kupang o mais rapidamente possível, voltei a adormecer. Acordei às 5.20, já era de dia e sentei-me a escrever: “Espero que não falte muito tempo para chegar!” e depois continuei a ler.

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Eram 7.40 quando escrevi: “Estamos três horas atrasados, o dia está cor de prata e eu estou como ele, melancólico”. Pensei na minha inabilidade/habilidade de estar sozinho, de como a internet encurta as distâncias, de como podemos nunca estar sós, sobre o vício de estar “ligado” – blog/facebook… e de como o prazer de viajar não pode/deve depender disso. Pensei nas mesclas de prazer/prisões que o ser humano cria para si mesmo, e de como a liberdade total de tudo e de todos me parece uma quimera – “a nossa vida é uma rede de conexões e ligações e sem elas não temos nada. Há sempre dois lados na moeda, não vejas apenas o negativo – no caso específico, o blog – escrever dá-te prazer! É assim que deves encarar a questão e não como uma prisão/obrigação! Relaxa e deixa-te ir… estás quase em Timor”.        

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Bukittinggi e Arredores

Depois da viagem inesquecível e de aterrar no aeroporto de Padang, apanhei uma carrinha para a cidade de Bukittinggi, onde cheguei já de noite. Depois de arranjar poiso na agradável Hello Guesthouse, conheci Manu, um rapaz espanhol que também estava a viajar a alguns meses na Ásia e com naturalidade começámos a falar sobre pequenos tudos e pequenos nadas, e uma vez que estávamos pela primeira vez no hemisfério sul fizemos uma pequena experiência sobre o efeito de coriolis. A verdade é que nos entendemos tão bem que combinámos ir juntos a um lago – danau Maninjau – e a um vulcão – Gunung Marapi – que ficavam nas imediações da cidade, quando ele regressasse do lago de Singkarak.

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Em Bukittinggi ademais de comer deliciosos martabaks tal como em Berastagi – e pequenos-almoços, fui acordado todas as noites as quatro da manhã com cânticos, não de uma, mas de duas mesquitas! 😛 E passeei na caótica e animada zona do mercado, em Kato Gadang  uma antiga muralha – em Siank Canyon rio entre vales – e no Panorama park, do qual tive uma visão mais elevada sobre verdes vales e montanhas.

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Para além de percorrer a cidade, fui até à vila de Batu Sangkar  a cerca de quarenta quilómetros de distância e coração da etnia matriarcal/patriacal dos Minangkabau – onde visitei o bonito palácio do rei em Pagaruyung, mas principalmente onde tive a oportunidade de conhecer Revi Suhendi, um ojek – condutor de táxi-mota – extremamente amistoso e caloroso que me levou a “passear” em redor da vila. Desse modo, tive a oportunidade de observar a bonita paisagem campestre e muito verde, cheia de plantações, arrozais e afáveis camponeses e no final do nosso pequeno tour, Revi ofereceu-me um refresco e meio maço de tabaco! Na despedida tirámos um retrato juntos e fiquei a saber que amigo, na língua Indonésia se diz SUKA! 😀

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Outra das visitas que fiz, aliás que tentei fazer, foi ir até ao vale de Harau, nas imediações da cidade de Payakumbuh. Porém o que à primeira vista parecia simples, revelou-se uma tarefa impossível devido aos múltiplos problemas que tive com os transportes: bilhetes hiper-inflacionados, longas discussões de preços, múltiplas conexões e desconexões, carrinhas/autocarros a cair aos bocados e longuíííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííííssimas esperas, tudo somado resultou num passeio surreal passado na Indonésia, mais precisamente em Sumatra, onde a lógica se torna ilógica e o caos passa a comandar as situações do quotidiano. Neste dia esperei, irritei-me, praguejei, ri-me e aprendi uma lição: em Sumatra há que ter tempo para viajar e uma paciência de Jo, ou nas palavras mais sábias e perfeitas de Saramago: “Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.

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Em trânsito: Odisseia para Pulau Tanahmasa

Prólogo

Quando estive em Georgetown, fui convidado por Luke a visitá-lo na ilha (pulau) de Tanahmasa. Esta crónica relata a viagem, aliás a odisseia que foi trilhada.


Na ilha de Samosir, o dia acordou prateado e em Tuk-Tuk apanhei um ferry para a tristonha vila de Parapat. Do cais, segui andando de mochila às costas até encontrar a estrada principal e após um pequeno compasso de espera, passou uma carrinha que “supostamente” estava a caminho de Sibolga. Pelas estradas esburacadas de Sumatra, segui empacotado no meio de sacas e caixas, até à pequena vila de Parsea Jaya, onde todos os outros passageiros saíram e daí segui até Siborong-Borong, sozinho com o motorista, qual co-piloto de um carro de ralis. Durante esse “troço”, fizemos sinais de comunicação, fumámos, vi uma frase que é o resumo perfeito da condução Indonésia: “I do my best, God do the rest!” (eu faço o meu melhor, Deus faz o resto) e assisti in-loco à bestialidade da corrupção da polícia quando fomos mandados abrandar e o senhor agente depois de receber em mão uma notinha, lá nos mandou seguir… 😦

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Na cidade de Siborong – Borong a carrinha estancou e fui mandado sair da mesma. Com alguns sinais e poucas palavras, lá consegui perceber que naquele local iria mudar de veículo e passados vinte minutos de espera, seguimos viagem. Durante o trajeto, assisti a mais corrupção “policiana”, mandei uns quantos saltos, fruto da estrada estar completamente partida em alguns troços e voltei a sentir na pele a imaginação laosiana, uma vez que a carrinha que tinha inicialmente capacidade para doze pessoas, chegou ao destino com dezasseis! 😛

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Já em Sibolga e graças ao telemóvel de um rapaz indonésio – Ronald – contactei Beng Beng, um amigo de Luke, que durante o dia se tornou no meu “anjo da guarda” e que para além de me ajudar a comprar o bilhete para o ferry, foi meu condutor na cidade. Depois de me despedir de Beng Beng com um forte abraço e uma hora antes da partida – 20.00 – estava a entrar no ferry para a ilha de Nias, rodeado de crianças que queriam guiar-me até ao meu assento, para depois tentar vender-me comida e água de forma insistente. Nesse momento só queria que me deixassem em paz! E a minha expressão devia transmitir esse sentimento. Depois de colocar a bagagem no meu espaço da plataforma, uma rapariga indonésia que estava ao meu lado sorriu e depois de ouvir algumas crianças a gritar: “Hei Mister! I love you!”, comecei aos poucos a sorrir e a “máscara” da cara séria caiu por terra.

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Durante a viagem noturna, dormitei algumas horas, escrevi no caderno, vi as plataformas encherem de pessoas e bagagens e senti aquele ambiente barulhento, quente e fumarento a tomar conta do espaço. Tal como o Luke me tinha “avisado”, esta viagem só por si, já é uma experiência! 😉 Cheguei à ilha de Nias – cidade de Gunung Sitoli – ainda o dia não tinha nascido e ainda antes de sair do ferry, já tinha arranjado uma carrinha para Teluk Dalam, uma pequena vila piscatória, na parte sul da ilha. A viagem durou cerca de duas horas em ritmo prega fundo e durante a mesma, foram-me oferecidos cigarros pelo motorista e por passageiros, vi centenas de crianças em uniformes a caminho da escola e uma paisagem que misturava selva, plantações e praias e senti-me bastante FELIZ pois naquele momento sabia que iria conseguir apanhar o barco para a ilha de Telo. 🙂

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À semelhança do que aconteceu em Sibolga, em Teluk Dalam tive que esperar pela partida do barco e durante esse tempo a minha prioridade foi tentar avisar o Luke que estava a caminho, uma vez que da ilha de Telo para a ilha de Tanahmasa, não há transportes! E o caminho apenas pode ser feito pequenas embarcações privadas. Tentei ligar-lhe. O telemóvel estava desligado! Tentei ir a um cyber café. Não havia internet! Decidi então, enviar-lhe uma SMS e como uns minutos depois ele acabou por responder, relaxei a “molécula” pois soube que na ilha de Telo, ele estaria lá para me receber. Depois de aproximadamente três horas em waiting mode, estava finalmente de partida e num pequeno barco fiz uma travessia que durou cerca de seis horas. Durante a viagem, dormitei um pouco, escrevi no caderno, tirei fotografias à paisagem e às pessoas, observei os nativos e a pesca de um atum, falei com um rapaz que trabalhava num resort da ilha e pensei várias vezes que estava a chegar, antes de realmente chegar! Pois estava no meio do arquipélago de Batu e não conseguia identificar onde se localizava o meu destino. 😛

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Na chegada, o Luke estava à minha espera e depois de nos abraçarmos, dirigimo-nos para o seu bote a motor. A looooooooooooooooooooonga odisseia  quatro barcos e duas carrinhas – estava a chegar ao seu final e bastou apenas mais meia hora de viagem, através de uma paisagem de manguezais, nuvens e reflexos cor de prata e cinza no oceano, para chegarmos ao nosso destino. Às 18.00, já no lusco-fusco estava a desembarcar na praia, tinha acabado de chegar ao paraíso escondido de Tanahmasa 😀

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P.S. – Contactos de Beng Beng em Sibolga. E-mail: beng2nge@yahoo.co.id; Telemóveis: +62 81361077406; +62 81262265233.

Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato IV – Na Tribo. “Bro… Steady…Slow” e Experiência ZEN

Tawing disse-me então: “Bro. Sit.” E eu sentei-me de costas contra uma parede e senti toda a minha roupa a colar-se ao meu corpo, fruto do suor abundante. Tawing começou então a mexer no cesto de verga e a retirar todos os mantimentos. Depois de o fazer, agradeceu e quando dei por mim já estava a separar o arroz, o açúcar e o café e a entregá-los a duas pessoa que entretanto tinham entrado na casa: Yean (um velhote de cabelos brancos e curtos, bastante magro) e Ngawet (uma senhora de meia idade que trazia com ela duas crianças, uma menina e um rapaz de olhos vivos e curiosos, mas envergonhados).

Feita a divisão e entregues os mantimentos, Yean e Ngawet partiram e eu fiquei novamente a sós com Mao e Tawing, que por esta altura pegou na garrafa de vinho de arroz e me perguntou: “Bro, drink?” e após bebermos dois copos, virou-se para mim e disse: “You…eat.” Durante cerca de meia hora não o vi e apenas ouvi o barulho de utensílios metálicos a baterem na cozinha (fosse o som de um cutelo a atingir a madeira, fosse o som de uma espátula a raspar um wok), nesse tempo Mao continuava impávida e serena, sentada e volta e meia mascava as tais raízes vermelhas, tal como eu presenciara no dia anterior na longhouse. Eu entretanto, tentava esvaziar a mente.

Quando o Tawing voltou, trazia consigo arroz, frango cozinhado de duas maneiras (uma em forma de caldo e a outra guisado) e uma caneca gigante de café preto que tinha uma dose bastante generosa de açúcar. 😛 A comida dava para um batalhão e eu apontei para a comida e para eles os dois e disse-lhes: “Eat.” Tawing acenou que não com a cabeça e respondeu: “Eat, Bro, eat”. Comecei então a comer e a verdade é que estava esfomeado e durante meia hora mantive-me calado e de boca cheia. Comi, comi, comi… e mesmo deixando muita comida, fiquei completamente saciado. Assim que terminei, Tawing começou a arrumar tudo, não me deixando fazer nada e foi então que apontou na direção do rio e disse: “You Bro, swim”.

Sentia-me um bocadinho incomodado com o facto de estar a ser lord, mas como não conseguia comunicar com ele, vesti os calções de banho e de chinelos nos pés e toalha na mão parti para o mesmo. Em menos de dois minutos estava à beira não de um rio, mas sim de um riachozito e neste local tive um momento completamente relaxado, de paz e “iluminação”. 😀 Um momento ZEN de plena comunhão com a natureza! Deitado de costas nas pedras do riacho, sentia a água que corria a refrescar-me o corpo cansado e a retirar o som do ambiente (ouvidos tapados com água), os meus olhos estavam cerrados e a minha mente relativamente apaziguada e eis que surgiu o momento… quando voltei a abrir os olhos e com o corpo na mesma posição, vi nuvens brancas a correrem no céu, veloz e alegremente e os ramos e as folhas das árvores a serem agitados pelo vento e senti que tudo na vida e na natureza estava ligado ao movimento. O rio que corre, as nuvens que desfilam, os ramos e folhas que se agitam. Tudo muda, tudo é mutável, tudo se transforma, adapta, reformula e reinventa. 😀

Ao voltar a casa de Mao e Tawing estava muito mais fresco, sentia-me bem e assim que cheguei aproveitei para me hidratar, primeiro com água e depois com mais um “caneco” de café. Tawing disse-me então: “Friend, steady…slow” e fiquei a vê-lo mascar as famosas raízes vermelhas e tentei manter-me focado naquele momento, mesmo que este fosse um bocado parado demais! 😛 Passado quase uma hora e depois de mais alguns “Friend, steady…slow”, Tawing fez-me sinal para o acompanhar na visita a casa de uns amigos e aí ficámos apenas na zona do alpendre, “quietos e vagarosos” a fumar um cigarro.

Regressámos a casa de Mao, onde permanecemos mais meia hora “quietos e vagarosos” e já depois do lusco-fusco e da noite cair, fomos descalços até casa de Ngawet, onde estivemos quase uma hora. Aí para além de continuar a ouvir o Tawing a pronunciar: “Steady and slow”, vi os hábeis dedos de Ngawet a construírem um “tapete” gigante de verga, com o auxílio da luz bruxuleante de uma candeia rudimentar… e neste ambiente místico e misterioso, fumámos um jacolait (um cigarro enrolado com um tabaco particularmente forte e intenso). 😀 No regresso à casa de Mao, recusei educadamente a refeição, pois ainda me sentia saciado do almoço e pouco mais havendo a fazer, apenas me restou deitar para dormir e repousar o corpo e a mente, após um dia simultaneamente adrenalizante, como “steady and slow”. 😉

Em trânsito: Haikou – Beihai. Atribulações e Bondade

A viagem para Beihai correu de forma atribulada, primeiro de tudo o autocarro que deveria ter partido às 15.30, partiu às 19.30, “apenas” quatro horitas de atraso! 😛 De qualquer modo estou a ser injusto, pois às 16.30 avisaram-nos desta mudança. Merci! 🙂 Durante esse tempo, coloquei músicas no telemóvel, escrevi no caderno e conheci um casal de chineses que se preocuparam comigo e que mesmo sem falarem inglês me ajudaram durante a viagem. 🙂

Quando finalmente apanhámos o autocarro… fizemos uma viagem de cinco minutos, até ao porto onde fomos largado e aí tivemos que esperar, desta feita pelo ferry até às 21.00. Durante a travessia que durou aproximadamente duas horas aproveitei para comer com eles: dois ovos, gelatinas, sementes para mascar, frutos secos, uma maçaroca de milho e uma perna de frango do KFC. 🙂 Às 23.00 e já na China continental entrámos finalmente no autocarro e eu preparei-me para dormir até ao amanhecer, porém… Nova surpresa, o “amanhecer” foi às 3.15 e nessa altura fomos largados em Beihai! Ups! :/

O que valeu foi que eles, bondosamente, não me abandonaram, meteram-se num tuk-tuk comigo e pediram ao motorista para nos conduzir até ao hostel. O problema é que o mesmo… era numa rua “quaternária” 😛 e depois de meia hora às voltas e de um telefonema não atendido, nada de hostel! Por volta das 4.00, voltaram a revelar toda a sua bondade e disseram – linguagem gestual – para não me preocupar, pois ficaria a dormir em casa deles. 😀

Antes de partirmos dei dinheiro ao nosso motorista, pedi-lhe desculpa pelo sucedido e arrancámos a todo o gás até ao KFC mais próximo. Quando aí chegámos, o rapaz saltou primeiro do tuk-tuk e depois um separador central e em menos de nada estava de volta com um saco de papel nas mãos, sorridente e triunfante. Na chegada à casa deles comemos cada um, um belo hambúrguer e depois de um banho, dormimos o merecido sono dos heróis. 😀

Em trânsito: Ping´an – Haikou? Naaaaaaa… Sanya!

A longa viagem começou às 9.30 em Ping´An com a team da noite anterior a apanhar um pequeno autocarro completamente apinhado – tanto de turistas como de camponeses. Assim que chegámos à estrada principal, apanhámos um novo autocarro, desta feita para Guilin, que apesar de bem preenchido ainda tinha lugar para nós – mas mesmo à conta, pois a partir daí só sentados em bancos de plástico! 😛 Na chegada à cidade despedimo-nos, pois os quatro “magníficos” estavam todos de partida para destinos diferentes, e felizmente para mim ainda fui a tempo de comprar o bilhete para HaikouQuando entrei no autocarro, fiquei contente porque o mesmo tinha camas e apesar de ter apanhado vários meios de transporte na China, esta era a primeira – e possivelmente a última – vez que iria viajar deste modo. Antes de entrar tive de descalçar-me e o ambiente era gelado – fruto de um A/C fortíssimo – em contraste com o ar extremamente abafado da rua.

IMG_5147 (FILEminimizer)Durante a viagem aproveitei para escrever no caderno, observar a verde paisagem e dormir três ou quatro horas, pois pensava que o autocarro iria ser conduzido até ao destino final, porém… às duas da manhã estancámos e fomos mandados sair. Neste momento pensei que íamos mudar de autocarro e por gestos pedi ao motorista para abrir a bagageira para tirar a mala, mas nada. Voltei  a apontar e a fazer sinal de bagagem e… nada! Nesta altura comecei a ficar um bocado stressado e voltei a insistir que queria a bagagem. Com cara de caso, lá levantou o cu do seu assento “real” e contrariado lá abriu a bagageira. Tirei a mala, pû-la às costas e nos entretantos o motorista estava a gozar comigo em chinês. :/ Olhei para ele e para os outros passageiros e transmiti corporalmente algo do género: “Ahahahahaha! Realmente uma graça do c@&%#$£!”.

Depois deste acontecimento, um casal de jovens universitários pôs conversa comigo e então lá me explicaram que a bagagem continuava no autocarro porque íamos apanhar um ferry para a ilha de Hainan e depois já na “outra margem” voltaríamos a seguir viagem no mesmo. A espera pelo ferry foi longa e nesta altura estava cansado e sentia os olhos a quererem fechar, mas lá me consegui ir aguentando. A viagem propriamente dita durou apenas uma hora e uns pozinhos e quando chegámos finalmente ao porto de Haikou eram quase seis da manhã. Quando apanhei um autocarro para o hostel, pensei que a história acabava aí, porém… havia um detalhe muito importante! Para sair da ilha de Hainan em direcção a Beihai teria que marcar um ferry com um par de dias de antecedência… e com esse “pequeno” detalhe tudo mudou. Decidi que não queria ficar a “secar” em Haikou  quando voltasse daí a uns dias, marcaria o famoso ferry e visitaria a cidade nessa altura – por isso e ainda no hostel marquei uma cama em Sanya e segui para uma das estações de comboios da cidade. Aí comprei o meu bilhete para o ”TGV” – não havia outro tipo de comboio – e às 10.35 parti qual uma bala, rumo ao extremo sul da ilha, rumo a Sanya.