Uma Geografia. Uma Fotografia: Suaya

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Depois de um dia memorável no universo místico dos Tana Toraja, a chegada a Suaya foi marcada pelo acaso e pela boa sorte, uma vez que que me deparei com um funeral!! À minha frente, encontrei uma multidão vestida de negro e logo de seguida um tendong  búfalo – a ser desmembrado, em frente a um caixão que se encontrava no segundo andar de um palanque. Fiquei estupefacto! Avancei funeral adentro e a primeira coisa que reparei foi na consistência pastosa do sangue que estava espalhado pelo solo. Discretamente, coloquei-me mais afastado do centro, fazendo a partir daí as minhas observações, mas nesse momento um rapaz convidou-me a entrar numa das múltiplas construções de madeira existente. Aí, juntamente com outros jovens, troquei umas palavras em bahasa, bebi um café, oferecemos cigarros uns aos outros e fiquei sentado, até ao momento que houve o sacrifício de outro búfalo, e eles disseram que eu podia tirar fotografias. Enquanto várias pessoas atavam o búfalo com uma corda e o forçavam a deitar no solo, tentei colocar-me o mais próximo possível sem atrapalhar. À minha frente, uma faca afiada penetrou a carne do animal, o pescoço foi cortado e num segundo, a traqueia foi dilacerada, o sangue começou a jorrar aos brobotões, acumulando-se e fazendo espuma. De vez em quando o animal mexia-se silenciosamente, os olhos foram perdendo brilho e luz, a vida foi abandonando o seu corpo e a sua morte serviu para honrar a anciã falecida. Voltei então ao local, onde tinha deixado a minha mala, o rapaz que me tinha convidado a entrar, apresentou-se como Julius e fui informado que ele iria regressar a Rantepao, mas que se eu quisesse assistir ao funeral no dia seguinte, podia ficar a dormir ali mesmo – os funerais tradicionais geralmente duram três dias, o dia seguinte seria o segundo dia de festividades e o mais importante. Perguntei se não atrapalhava, e como ele respondeu negativamente, aceitei o convite. Estava muito feliz, não só tinha encontrado um funeral – a tradição maior dos Tana Toraja – , como sido convidado para assistir ao mesmo! A partir daí, fiquei na companhia da família de Julius, entre eles o simpático Jacobs. As horas foram passando, eu fui comendo, bebendo, falando em bahasa com as pessoas presentes e inglês com o Jacobs; observando o ambiente envolvente: o som de alguns foguetes, os homens envoltos em sarongs negros, a sonoridade profunda do mamodang  cântico fúnebre em honra dos mortos; fumando e apreciando a grande oportunidade que estava a ter para aprender mais sobre aquela tribo…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Rantepao

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No meu primeiro dia em Tana Toraja, uma das tribos mais interessantes e singulares da Indonésia, o meu primeiro passo foi tentar arranjar um mapa da área, para me poder orientar. Em redor da cidade de Rantepao, tive a minha primeira experiência dentro de uma pequena aldeia, onde observei com atenção os famosos telhados em forma de cornos de búfalos – os animais mais sagrados para os Tana Toraja – ou alternativamente de cascos de navios – os antigos antepassados, que segundo a mitologia Toranja se acredita terem vindo do mar – e onde ela primeira vez, encontrei inúmeros cornos de búfalos – vinte e três! – pregados a um poste em frente a uma das casas percebendo que aquela era a casa dominante e do poder. De regresso ao centro da cidade, rumei à colina de Singk donde pude avistar a cidade – mesquitas, igrejas, casas… -, os muitos arrozais que a “cercam”, o rio, as verdes colinas e montanhas em redor, e todo aquele cenário natural, tornaram a área um local muito aprazível e agradável…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kawah Ijen

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Em Kawah Ijen, conheci Mr. Bain, que ao longo da noite revelou ser um dos melhores guias que tive no país e possivelmente em toda a viagem, e me levou a percorrer três quilómetros, sempre a subir em direção à cratera em ritmo Plan Plan”  devagar. Já na zona da cratera e a partir do local onde nos encontrávamos vimos ao longe um fogo azul bruxuleante, fruto da extração do enxofre. Entusiasmado, segui Mr. Bain, cratera abaixo e nessa altura recebi uma máscara, do género “Darth Vader” para suportar o fumo e os gases tóxicos – caso necessário. À medida que nos aproximámos, as chamas eram cada vez maiores e em redor, vi algo único e singular à minha frente… fogo azul a arder, no meio da escuridão! Espetacular! Belo! Na altura, em que observava aquele “fogo de artifício” natural, tive bastante sorte pois o vento estava a soprar o fumo noutra direção, ou será que não foi sorte, mas antes um feitiço de Mr. Bain, o feiticeiro branco do Ijen!? No caminho de regresso ao topo da cratera, vi alguns grupos de turistas a descer qual uma centopeia luminosa e senti-me muito satisfeito pois enquanto os outros grupos estavam a caminho, eu já estava a regressar. De regresso ao topo, fomos para um ponto mais elevado e aí, no silêncio quase absoluto da noite, vimos o progressivo aparecimento da luz do dia, as chamas azuis a arderem, o fumo a sair da cratera, o lago azul a ganhar cor, as estrelas a desaparecerem e o vulcão a passar do negro absoluto para vermelhos e castanhos! Belo! Belíssimo! Grandioso! E se o vulcão Bromo no dia anterior, já tinha sido monumental, o Ijen nesse dia deu “cabazada”. No regresso, o amanhecer estava carregado de cores suaves, e na despedida pude encontrar outros vulcões em redor, entre eles o Gunung Raung, que na primeira vez que estive em Yogyakarta, fez kabuuuuuuum! Obrigando-me a seguir mais cedo do que o previsto para a ilha de Kalimantan. Na despedida de Java posso afirmar que a ilha é de facto abençoada, pelos deuses dos vulcões e o Kawah Ijen um local magnífico. Observar as chamas azuis noturnas, foi sem dúvida, uma das MAIORES experiências que tive na Indonésia e em toda a viagem… e se existe algum lado negro a apontar, só posso referir a face “social” do vulcão e dos homens que carregam cestos de aproximadamente oitenta quilogramas de enxofre aos ombros e costas, mais do que uma vez por dia… recebendo cerca de 0,50€ por cada kg transportado! Trabalho pesadíssimo, que não dá saúde a ninguém…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Monte Bromo

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O meu primeiro primeiro encontro com o Monte Bromo ocorreu por volta das 4.00 no miradouro de Pananjakan – 2706 m – em que na chegada me deparei com uma espessa cortina de nevoeiro que cobria todo a paisagem. De qualquer modo e sem nada poder fazer acabei por não me “irritar” com a situação, afinal a natureza é soberana nos seus tempos. A realidade é que com um cenário inicial tão “negro”, as melhores expectativas foram largamente superadas, uma vez que a visibilidade apesar de imperfeita, permitia ver o imponente Gunung Semaru – 3676 m -, a enorme e larguíssima cratera do Bromo  – 2392 m -, o pico do Gunung Batok – 2440 m -, a bruma a correr velozmente no céu e a paisagem a alterar-se a cada segundo. Misterioso! Belo! A beleza do “mistério”! Depois de deixar o miradouro, parti para as proximidades da enooooooooorme cratera do vulcão Bromo. Quando cheguei ao local, já existiam inúmeros jeep´s estacionados na bela e desolada planície de areia negra, rodeada de montes verdes seco. Em alegre romaria rumei à cratera, juntamente com outros turistas que se deslocavam a pé ou a cavalo e subi os degrau que levavam ao topo. Aí, apesar do vulcão não ser muito elevado, encontrei uma cratera larguíssima e fumegante, e vi múltiplas dunas de areia negra. Os muito turistas que se encontravam em redor, ajudavam a perceber a grandiosidade e a dimensão da paisagem e quando me preparava para subir ao ponto mais elevado da cratera, o vento começou a soprar vapores sulfurosos, obrigando-me a voltar para trás, sendo relembrado pela natureza e pelos deuses do fogo, que um vulcão é isso mesmo… um vulcão! E não um parque de diversões montado, para belo prazer do ser humano.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Surakarta

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Na cidade de Surakarta, visitei o interessante mercado de antiguidades, fiz uma visita “semi guiada” ao Keraton Pura Mangkunegaran, comi deliciosa comida tradicional, abriguei-me várias vezes da chuva insistente e persistente, resolvi alguns assuntos importantes pendentes tais como a marcação do voo para as Filipinas e de dois hostels, o primeiro na ilha de Boracay já nas Filipinas e outro na cidade de Surabaya para a noite anterior à partida -, mas principalmente visitei a agradável e misteriosa paisagem nas encostas do Gunung Luwu, onde à semelhança das Terras Altas do Cameron senti uma temperatura mais fresca e agradável e me deparei com plantações de chá e de vegetais, florestas de pinheiros, nevoeiros a percorrer velozmente a paisagem e os templos de Candi Ceto, onde o destaque foram as múltiplas e engraçadas crianças que por lá se encontravam a fazer uma visita de estudo e o Candi Sukuh, que não achei nada erótico e onde destaco os relevos dos deuses e das deusas, as formas piramidais e a neblina existente que dava uma aura misteriosa ao local.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Gunung Merapi

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O Gunung Merapi foi o único vulcão que teve duas ascensões, uma pela “face errada” e outra pela “face certa”. Cada uma delas teve os seus percalços e momentos belos, cada uma delas iniciou-se de noite e realizou-se em rampas muito inclinadas. Na ascensão pela face certa, não foram necessárias muitas horas para chegar ao pico, mas foi preciso alguma estamina e endurance, principalmente depois de chegarmos ao último posto de controlo de atividade vulcânica e na zona em que a ascensão se fez numa rampa hiper inclinada de areia muito densa, pesada e escorregadia em que o mote era: “dois passos para a frente e um para trás”. Nessa altura, cheguei a pensar se iria conseguir chegar ao topo, mas passo a passo, lá fui avançando até chegarmos a uma zona de rocha firme, onde o caminho se tornou mais acessível. Quando atingimos a zona da cratera eram quase 5.00, e se durante a noite apenas se via o que a lua e as estrelas iluminavam, à medida que os minutos foram passando e o dia vencendo a noite, começámos a ver a plenitude do local. E o mesmo era belo! Muito belo! A cratera, com os seu fumos que corriam no céu azul e se fundiam com algumas das nuvens existentes, as nuvens cheias de cor e densidade – existia uma que se assemelhava a uma explosão atómica, tal a sua densidade – o sol a despontar e banhar a face de dourado, e com isso o castanho e o negro das rochas destacaram-se, os verdes nos vales em nosso redor, a grandiosidade da montanha Merbabu, à nossa frente! Espetacular! E tal como no Rinjani, fiquei com a certeza que adoro vulcões e as suas belas paisagens naturais.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Borobudur

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Em toda a vastíssima e exótica Indonésia, o afamado templo de Borobudur – Património Mundial da Humanidade, construído entre 750 e 850 d.C. durante o reinado da dinastia Śailēndra e maior templo budista do planeta – era um dos locais que mais desejava conhecer. Depois de uma visita culturalmente fascinante à cidade de Yogyakarta, era altura de rumar ao templo. Quando dei os primeiros passos na área do templo, já com um sarong –  à cintura, a luz era dourada e suave, e o céu azul. A aurora estava de facto mágica e o imenso templo, aguardava serenamente por mim. Naquela hora matinal, ainda na companhia de poucos turistas, cirandei em redor do magnífico e imponente templo, construído em pedra de cores: preta, cinzenta e creme. Visto de topo, temos a visão em planta de uma enorme Mandala de base quadrangular – 120 X 120 metros -, visto de frente, encontramos uma estrutura piramidal, com uma escadaria que nos leva ao longo de cinco patamares e em cada um destes, existem incontáveis e serenos Budas a contemplarem-nos. A paisagem em redor está repleta de árvores e vegetação e é possível observar múltiplas colinas e montanhas numa palete de verdes, existindo dois cumes em grande destaque, o Gunung Merapi e o Gunung Merbabu, cada um deles coroado com uma ligeira névoa no cume. Fruto de umas nuvens “fabulásticas” e do imaculado céu azul, este grandioso templo estava particularmente fotogénico, sendo que o melhor momento da visita ocorreu quando no topo me deparei com estupas que tinham no seu interior estátuas de Buda, quais verdadeiros ovos “kinder surpresa”, dispostos em alinhamentos circulares e progressivamente concêntricos em redor da estupa maior e central. Quando os meus passos deixaram o templo, estava verdadeiramente FELIZ por ter tido o privilégio de visitar Borobudur. O maior, mais imponente e impressionante templo budista de todo o mundo. O templo entre cumes e vulcões.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Yogyakarta

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Yogyakarta é o coração da pulsante cultura Javanesa e nos seus arredores pude visitar o templo hindu de Prambanam, ficando a saber que quem faz a exploração deste templo, assim como o budista de Borobudur é uma empresa privada! Diga-se, que esta situação é demonstrativa da corrupção existente no país, uma vez que o património público está a ser explorado em benefício de privados. Uma vergonha! Relativamente ao complexo de templos propriamente dito, o principal deles é de facto impressionante em termos de área e construção “sólida”. Para além da visita, na zona em redor também tive a oportunidade de assistir a um espetáculo de bailado/ballet Ramayana e o mesmo valeu bastante a pena, residindo a sua beleza nos gestos dos bailarinos – ora delicados e precisos, ora mais enérgicos – na iluminação, nos trajes, na voz do narrador em sânscrito e no som dos diferentes instrumentos musicais. No centro da cidade visitei o museu Vredeburg – antigo forte holandês – que na atualidade é o museu da história da Independência da Indonésia -, o bonito Keraton, palácio do sultão, onde voltei a observar um espectáculo de dança javanesa e o agradável museu Sonobudoyo onde assisti pela primeira vez a um espetáculo de marionetas – Wuyang Kulit. Já no interior da sala, a performance destas marionetas e o ambiente envolvente – o som dos instrumentos de percurssão, as vozes femininas e a do narrador, os gestos lentos e delicados do “jogo” de sombras – transportaram-me para um mundo mágico, mítico e mitológico de Deuses e Deusas do Oriente.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Tanjung Puting

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Para visitar o fabuloso parque natural de Tanjung Puting é necessário fazê-lo de barco. Este parque é conhecido por ser um “santuário” de Orangotangos, mas também por albergar outras espécies de primatas tais como probuscius, cauda longa, folha prateada, gibões…; múltiplas espécies de passáros e insectos – tarântulas, centopeias e “ilustres desconhecidos”. Naquele ambiente tropical pude encontrar árvores espinhosas, fungos e cogumelos – azuis, brancos e castanhos -, uma vegetação luxuriante, troncos caídos, plantas carnívoras; tive a oportunidade de ver o nascer do sol dois dias no rio, a neblina matinal, o céu prateado, reflexos na água, observar a água do rio a transitar de uma cor castanha e barrenta para o negro, como se do sangue da Terra se tratasse;  ter verdadeiros momentos National Geographic! Em que tive encontros imediatos com orangotangos no seu verdadeiro habitat; e ao ouvir o som da vida, da selva, pensar que nesta vida, há experiências únicas que valem certos investimentos.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Sintang

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Em Sintang, fiquei hospedado durante um par de dias, na casa de Doni e da sua adorável família. Durante esse tempo, comi muito e bem, fumei como uma chaminé, conversei, repensei na minha rota e no facto de ter de voltar a Jakarta, devido à avaria da máquina fotográfica, fiz mais uma sessão de motivação na escola onde a esposa de Doni era professora, visitei o agradável museu da cidade, continuei a conversar com aquelas pessoas tão simpáticas, calorosas e amáveis.