Uma Geografia. Uma Fotografia: Kupang

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Da  capital de Timor Oeste – pode encontrar mais aqui – não guardo especiais memórias, a não ser os “taxistas” trapaceiros que consegui evitar na chegada ao porto, a viagem numa carrinha coletiva que me levou até ao centro e a “passeata” forçada que fiz durante um par de horas até sair de Kupang, uma vez que a carrinha/autocarro andou às voltas na habitual tentativa de angariar passageiros. A tradição indonésia, ainda continua a ser o que era!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Larantuka

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Depois de uma travessia de aproximadamente três horas, pela acidentada topografia da verdejante ilha das Flores surgiu no horizonte, Larantuka  pode encontrar mais aqui – e as ilhas de Solor e Adonara, que fruto da sua proximidade com a costa faziam com que o mar se assemelhasse a um lago rodeado de montanhas. Nesta cidade, que se localiza no extremo oriental das Flores, tentei informar-me acerca das ligações marítimas com Timor Oeste, porém devido ao mau tempo as mesmas estavam canceladas. Em Larantuka senti uma vez mais, o facto de ser visto “apenas como dinheiro andante” e sem muitas opções, resolvi partir para Pulau Solor, onde em Lahayong encontraria as ruínas de um forte português do século XVII. A fortaleza construída pelos descobridores lusos como entreposto militar, servia de apoio e defesa aos seus barcos que faziam o transporte de madeira de sândalo de Timor para Malaca. Na partida da ilha das Flores e enquanto esperava pelo barco, pensei no desgaste de viajar, na sua beleza, no seu desafio e improviso constantes…

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Ato X – Em trânsito: Regresso a Norte

Depois de uns momentos felizes no “Fim do Mundo”, era altura de voltar a tomar decisões! Sabia que para regressar a Norte teria sempre de passar por Lagos, uma vez que em Sagres apenas existem alternativas durante o Verão. Como ainda me encontrava a seis quilómetros do centro da vila, me sentia cansado e já tendo concluído o meu objetivo – percorrer a pé a Rota Vicentina entre Porto Covo e o Cabo de São Vicente – aproveitei a presença de alguns turistas estrangeiros para lhes pedir boleia. Desse modo, foi a bordo de um Audi A6 novinho em folha e na companhia de uma prestável família espanhola que percorri a estrada até ao centro. 😉

Na chegada, ao falar com uma jovem nativa, confirmei onde se apanhavam os autocarros regionais para Lagos e recebi uma dica de um local abrigado onde poderia passar a noite. Porém, ao dirigir-me à paragem para confirmar os horários da manhã seguinte, reparei que apesar de já serem 19.30, daí a poucos minutos ainda iria haver um autocarro para Lagos. Nesse momento, quase sem bateria e saldo, consegui falar com a M. recebendo a informação que em Lagos existia um expresso que partiria à 1.30. Rapidamente e sem margem para indecisões, resolvi embarcar.

A travessia para Lagos realizou-se já de noite e o único momento que vale a pena relatar foi a conversa que tive com o motorista, na qual recebi a informação que a bilheteira em Lagos já estaria fechada e que na rede de expressos só poderia embarcar caso tivesse bilhete válido! :/ Não havendo a possibilidade de comprar o bilhete “físico”, não tendo computador e internet, perguntei-lhe se existiam alternativas, ao que ele respondeu que podia sempre ligar o 707 22 33 44 e comprar o bilhete via telefónica. Pareceu-me uma boa ideia, aliás não havia outra opção. 😛 O pequeeeeeeeeeeeno problema era que não tinha: saldo, bateria e o número supostamente estaria ativo até às 21.00 – nessa altura eram 20.40!

Na chegada ao pequeno e pouco convidativo terminal rodoviário, apontei o número de telefone e parti em busca de um local onde pudesse pôr o telemóvel a carregar. Felizmente, a cerca de 300 metros da estação encontrei um pequeno café que ainda estava aberto. Perguntei à dona se podia deixar o telemóvel a carregar, larguei o monstrinho e estuguei o passo até uma caixa MB. Já com saldo, regressei rapidamente ao café, liguei o telemóvel e comecei a ligar – eram 21.05! Pensei: “Vá lááááááááááá! Funciona!”. Depois de marcar os dígitos para falar com uma operadora, alguém me atendeu. Ufff! Em menos de um minuto, estava a receber uma mensagem com informações para o pagamento por multibanco. Apontei os dados num papel e voltei a sair do café. Novamente na caixa MB, paguei. Quando regressei ao café já tinha duas mensagens no telemóvel, uma delas era o bilhete! “CONSEGUI”! 😀

Eram 21.15, quando finalmente me sentei tranquilo à mesa com uma bica à frente. Nessa altura, sabia que o café poderia fechar a qualquer momento, mas como na esplanada ainda se encontrava um trio de Ucranianos a beber aguardentes de penalty e a brindar, fiquei mais descansado. 😉 Enquanto lia, chegou uma grande família e posteriormente um senhor que me pareceu cliente habitual. “Nada mau! Parece que me vou manter aqui sossegado, por mais uns tempinhos”. 🙂 A realidade é que apenas me despedi da simpática dona, quase há meia noite, isto depois dela negar pela décima vez, bebida ao trio “Odemira”. “Há profissões, em que se precisa uma paciência de Jo!”

Regressado ao terminal, aproveitei finalmente para comer e depois de mais um compasso de espera, embarquei finalmente no expresso para Lisboa. Na viagem, calhou-me em sorte um motorista realmente simpático e apesar do cansaço que sentia e enquanto não estava mais ninguém a bordo, aproveitámos para falar durante cerca de uma hora. A partir das 2.30 os meus olhos começaram-se a fechar e só os voltei a abrir, já na chegada ao terminal de Sete Rios – 5.50 – onde voltei a aguardar na companhia do meu livro, até embarcar no expresso para Rio Maior – 7.00.

Na chegada à minha cidade natal, resolvi passar por casa de um grande amigo para falar com ele sobre esta magnífica travessia. 🙂 Depois de uma hora de conversa animada e de um pequeno almoço reconfortante, ele ofereceu-me boleia para casa, e foi aí, mesmo à porta que… ao sair do carro, deixei cair a máquina fotográfica e ganhei como “prenda” um filtro completamente estilhaçado. :/ Tudo fora perfeito, até esse momento! Sendo caricato que foi precisamente na chegada, que o verdadeiro percalço desta viagem aconteceu – mais uma evidência que controlamos muito pouco na nossa vida.                  IMG_9247 (FILEminimizer)

Rota SW

Ato IX – Um Dia Vou Construir um Castelo

À noite, ao falar com a M. percebi que a minha futura saída da vila de Sagres poderia vir a tornar-se problemática. Desse modo, o objetivo para o sétimo dia de caminhada – oitavo desde que chegara a Porto Covo – passou a ser… tentar aproximar-me o mais possível do Cabo de São Vicente. Depois de uma noite semi-ventosa no poeirento telheiro, acordei mais cedo do que o habitual e por volta das 7.25 estava de partida da aldeia da Carrapateira, sendo o meu primeiro objetivo, chegar à Vila do Bispo. 

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Ao contrário do dia anterior, o céu estava bastante carregado sendo a despedida desta bela costa coroada por nuvens escuríssimas e pela pálida luz. À medida que caminhava rumo à aldeia da Vilarinha, o sol foi despontando e o céu progressivamente tornou-se mais azul. 🙂 Assim que passei a aldeia, tive de fazer alguns atravessamentos nas ribeiras da Carrapateira e Sinceira, mas devido aos seus reduzidos caudais, as travessias não se revelaram problemáticas – no Inverno a situação pode alterar-se e tornar-se necessário efetuar um percurso alternativo.

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No percurso para a aldeia da Pedralva, a variedade “clorofiliana” era grande. Junto às ribeiras encontrei salgueiros, freixos e carvalhos; nas encostas mais secas, sobreiros, pinheiros e oliveiras; e nas encostas mais afastadas do trilho, um denso matagal onde abundavam medronheiros, urzes, estevas, tojos… um autêntico festival. 🙂 Quando passei pela Pedralva, fiquei desiludido! :/ A mesma, não passa de uma aldeia fantasma totalmente recuperada para o turismo rural, porém entre esta opção e deixá-la ao abandono à espera que as casas ruíssem, acho que prefiro a primeira.

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A partir daí, o trilho tornou-se menos plano e mais seco, sendo possível avistar em redor serras e montes de múltiplos verdes. Junto ao parque eólico, para além do ruído constante das pás a girar, encontrei alguns charcos que segundo o site da Rota Vicentina: ” (…) São talvez o habitat mais rico em biodiversidade do SW de Portugal (…) parte dos anfíbios da nossa fauna (…) livres de predadores de ovos e girinos (…) para além dos milhares de girinos, os charcos são povoados por aves, cágados, mamíferos e plantas”. Isto foi o que li. Quanto ao que encontrei, a história foi outra! Biodiversidade? Só de mosquitos! Isso sim, havia em abundância. Quanto ao resto… 😛

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A oito quilómetros e meio da Vila do Bispo, o trilho voltou a mudar. Primeiro, estive rodeado de densos arbustos em caminhos serpenteantes de terra batida e posteriormente percorri trilhos arenosos de serenos pinhais. A partir das 11.30, apesar da agradável paisagem, comecei a “sonhar” com a minha chegada e com uma refeição de frango assado, sentado a uma mesa. 🙂 – Em determinados estágios de cansaço/fome a nossa mente/imaginação é mesmo incrível! Conseguindo levar-nos a “viajar” para mundos muuuuuuuuuuuuuito distantes. Naquele momento, o meu “mundo” nem estava assim tão longínquo, talvez a sete quilómetros. 😛

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Volvidos noventa minutos de muita salivação, a etapa estava oficialmente terminada, restando-me desse modo, encontrar um poiso para matar o desejo. Não longe da igreja Matriz, encontrei a Tasca do Careca e durante uma horinha, posso dizer que estive realmente feliz. 😉 Terminado o repasto que me soube pela vida, voltei a passar pela igreja que estava então de portas abertas e aproveitei para visitar o seu fresco e bonito interior.

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Às 14.25, estando a catorze quilómetros do Cabo de São Vicente e meu objetivo derradeiro, decidi continuar a caminhar e ver como o corpo iria reagir à distância que faltava percorrer. Os primeiros quatro quilómetros junto à estrada de alcatrão, foram bastante desinteressantes, porém e à medida que me fui aproximando de zonas mais naturais e despovoadas, trilhos mais desertos e comecei a avistar Sagres, o oceano e o farol no horizonte, comecei a animar-me. Estava perto…

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Na encruzilhada do circuito histórico e do trilho dos pescadores, optei por acabar junto à costa e fazer o circuito da Praia do Telheiro. Estava a sete quilómetros da Finisterra Lusa. À medida que caminhava, a costa foi-se aproximando, as arribas ganharam dimensão, cor e variedade, e a vegetação tornou-se cada vez mais rasteira. Nas imediações da extraordinária praia do Telheiro, onde se encontra a discordância – transição brusquíssima de idades entre formações rochosas – mais espetacular da Península Ibérica, tive de descer o pequeno barranco das Quebradas por uma escada de madeira. 🙂 Continuando a caminhar, os meus olhos foram-se apaixonando pela paisagem e pela sua enoooooooorme riqueza de cores: os brancos da espuma das ondas e dos calcários; os vermelhos dos arenitos; os cremes, cinzentos, negros e laranjas de outras rochas; os verdes da vegetação; os azuis do céu e do mar… BELO! 😀

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A partir do barranco da praia do Telheiro, o trilho começou a ser marcado por mariolas  montes de pedras – e os derradeiros três quilómetros transformaram-se num verdadeiro “jogo” de escondidas. 😛 Nesta altura, caminhar requeria uma atenção redobrada não só pela localização das mariolas, mas também pelo transformação progressiva do trillho num terreno duro e pedregoso. Na última meia hora de caminhada, para além de observar a aproximação do farol com alegria, vi bonitas e altas falésias brancas, mas principalmente… lembrei-me de Fernado Pessoa e da “sua” frase: “Pedras no caminho? Guardo-as todas. Um dia vou construir um castelo.” – posteriormente descobri que a mesma não é da sua autoria, mas sim de um blogger brasileiro Nemo Nox! – e ri-me ao imaginar que naquele local, seria preciso não apenas o mestre, mas sim o mestre na companhia de todos os seus heterónimos, a cavarem e a discutirem durante milhares de anos, para construírem o “senhor” dos castelos! 😀

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Já na estrada de alcatrão, sem mais pedras no caminho e com o farol/cabo à minha frente, fui sorrindo à medida que percorri os metros finais que me separavam do meu derradeiro destino. Quando cheguei ao Cabo de São Vicente, estava verdadeiramente feliz e um pouco cansado. O esforço físico tinha realmente compensado. Sorri novamente. O objetivo tinha sido alcançado. Tinha acabado de chegar ao antigo FIM do MUNDO… 😀 

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Ato VIII – Reencontro no Pontal

Por volta das 4.00, com o amainar do “louco alquimista”, os pinheiros e a tela de nylon diminuiram finalmente o seu frenético e incessável oscilar, concedendo-me uma doce trégua. Já ao amanhecer, depois da arrumar o estaminé e tomar o pequeno almoço, tirei a selfie da praxe e rumei à praia do Canal onde pude observar a famosa pedra da Agulha mais de perto e o mar derramando-se sobre antigas falésias rumo a sul. Ao longo do trilho encontrei eucaliptais, serras intocadas, matos coloridos e aromáticos, serenos bosques de sobreiros, zambujeiros e carvalhos, várzeas cultivadas… a Primavera em ebulição. 🙂

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Cinco horas e meia depois de me ter posto ao caminho, estava na pequena aldeia da Bordeira e a cinco quilómetros da Carrapateira. A última fase do trilho, foi um autêntico carrossel levando-me por longas descidas e subidas no meio de serras e mato, até regressar à costa e finalmente poder contemplar toda aquela grandiosa paisagem: os múltiplos verdes da serra, os diferentes azuis do céu e do mar, os amarelos do gigantesco areal da praia da Bordeira. Fabuloso! Na chegada ao centro da vila, dirigi-me ao “Mini-Mercado Irene” para comprar mantimentos e informar-me onde poderia pernoitar. Prontamente, a simpática dona disse que podia dormir no telheiro da escola primária, mas que apenas para confirmação iria ligar ao Presidente da Junta. 😉 Com a chegada da “benção” oficial, ficou definido o local de dormida e quando finalizei o abastecimento, perguntei à senhora Irene se me podia guardar o monstrinho, enquanto percorria o circuito do Pontal da Carrapateira.

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Foi assim, que pela primeira vez fiz um trilho da Rota Vicentina aliviado do peso da “carapaça” extra. 🙂 Sendo com uma energia e alegria redobradas que trilhei aqueles fantásticos dez quilómetros! Na praia da Bordeira pude apreciar como o mar e o vento esculpiram harmoniosamente as dunas que estão em constante mutação e a exuberante vegetação  tomilho, perpétua, alecrim, rosmaninho, esteva… no pontal pude ver o contraste entre as nuvens cinzentas que cobriam a serra a Este e o céu azul que dominava a costa, e simultaneamente observar a NortePonta da Atalaia e a Sul o Cabo de São Vicente. ESPETACULAR! 😀

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À medida que caminhava para Sul em direção à praia do Amado, as falésias e arribas começaram a ganhar novas formas, uma vez que pela primeira vez apareceram rochas calcárias – buracos, cavernas, arcos e colunas – que contrastavam com os depósitos rubros de argilas vermelhas. Toda a paisagem era uma palete rica e variada, uma verdadeira explosão de cores: azuis – do céu e do mar; verdes – das serras e da vegetação; ocres – das argilas; castanhos e brancos – do solo; alaranjados, pretos, cinzentos e brancos – das falésias e arribas; roxos, amarelos, rosas – das flores. Que beleza! 😀 Quando estava a chegar à praia do Amado, passou por mim uma carrinha azul escura e de relance, pareceu-me conhecer a cara da condutora. Instantaneamente olhei para trás, vendo o veículo parado na estrada, o Freddy a correr na minha direção, e a Merriake e a Anette a sorrir! 😀 Foi deste modo, que no pontal, voltei a reencontrar a simpática família alemã, que conhecera no parque de campismo do Serrão! O Mundo é mesmo uma ervilha! 😉 Depois de alguns minutos de conversa animada, voltámos a despedir-nos com amizade e seguimos em direções opostas.

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Na última parte deste circuito, o trilho afastou-se ligeiramente da fantástica costa e everedou por uma verde paisagem de  montes, colinas, arbustos, flores e árvores até avistar no horizonte a alva aldeia, recortada no azul do céu e do mar. Um final em beleza para este loooooooongo dia, no qual percorri trinta e dois quilómetros entre a serra e o mar, me despedi de um viçoso pinhal nas imediações da praia da Arrifana e “atraquei” bem no centro da aldeia da Carrapateira.

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Ato VII – Esse Louco Alquimista da Natureza

Após o inesperado e bem vindo dia de descanso, era altura de regressar à estrada, porém antes de partir, passei pela última vez pela caravana de Freddy e da sua simpática família. Depois de mais um dedo de conversa e de um café simples, abraçamo-nos calorosamente e despedimo-nos com amizade. 🙂 Apesar do vento forte que se fazia sentir, o dia estava solarengo e poucos minutos depois de ter iniciado a caminhada, parei num pequeno pinhal para tomar o pequeno-almoço.

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Terminada a breve paragem, recomecei a andar, sendo o meu primeiro ponto de passagem a vila de Aljezur, porém e ao contrário do dia anterior, naquela manhã o céu estava azulíssimo e o sol radioso. Progressivamente, o trilho levou-me por estradas alcatroadas e de terra batida, pastagens, eucaliptais e pela urbanização do Vale da Telha. Assim que entrei numa zona mais descampada, tomando a direção da costa e da praia de Monte Clérigos, o vento fez-se sentir com uma intensidade redobrada, sendo os meus passos muito dificultados pela sua ação.

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Nas imediações da bonita praia e das suas múltiplas formações rochosas, esse “louco alquimista da natureza” estava completamente fora de controlo, sendo o trilho até à Ponta da Atalaia varrido constantemente por fortíssimas rajadas salgadas. Aqui e à semelhança de outros locais da rota vicentina, encontrei múltiplos arbustos aromáticos – tomilho, perpétua, alecrim, murta, rosmaninho… – e várias plantas medicinais e comestíveis – espargos bravos, roselha, maios, camarinhas… – depois de uma “luta” titânica que me era impossível vencer, virei costas ao grande oceano e ao “louco alquimista”, seguindo rodeado por estevas, arbustos e pinheiros até chegar à povoação da Arrifana.

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Na chegada, ao falar com uma residente sobre mercearias locais, percebi que na aldeia não existiam opções e que para me abastecer teria de regressar à urbanização do Vale da Telha, a cerca de três quilómetros de distância. :/ Como a senhora estava de partida para esse local e talvez porque tenha percebido o meu cansaço e desapontamento, ofereceu-se para me transportar em ambos os sentidos. 🙂 Graças à sua graaaaaaaande ajuda, em vinte minutos resolvi a questão do abastecimento e novamente na aldeia, dirigi-me para a costa. Estava oficialmente na presença da bonita baía da Arrifana, das suas ondas constantes e das suas “focas” marinhas. 😛

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Acenando um adeus à baía, voltei ao trilho e iniciei a etapa da Carrapateira. Nesse momento, o objetivo era apenas sair do centro da aldeia e assim que encontrasse um local agradável, parar e montar abrigo. Com o vento pelas costas e à medida que os meus passos me afastavam da costa e se dirigiam para Este, os meus olhos depararam-se com o que procurava… um pinhal no topo de uma colina. Perfeito! Sorri. Estava encontrado o local. Agora tinha de lá chegar. Depois de caminhar aproximadamente quinze minutos e no meio de uma pinhal bastante agradável, larguei o monstrinho e comecei a montar o estaminé. Como o local era bastante “aberto” e o vento não dava tréguas, tive que improvisar um abrigo bastante rasteirinho. 🙂 Terminada essa tarefa, era altura de finalmente descansar e me deliciar com o meu repasto: rissol de leitão, pão, queijo, chouriço, banana, sumo e água. Depois de reler um pouco a arte da viagem, os meus olhos começaram a fechar-se, só me restando nesse momento, deitar-me e adormecer embalado pelo assobiar do vento, esse “louco alquimista” da natureza.

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Rota SW

Ato VI – A Família e o “Dia Santo”

Quatro da manhã. “Lá ao longe”, começo a sentir algo húmido a bater-me levemente na cara. Lentamente, volto à realidade e começo a ouvir um barulho intenso. Estava a chover torrencialmente! O vento fortíssimo que anteriormente se fizera sentir, tinha de um modo improvável, acabado de salvar-me do encharcamento total. 🙂 Rapidamente, coloquei a manta de sobrevivência em cima da mochila como proteção e deixei-me ficar, afinal o meu poiso estava protegido. Entre as 4.00 e as 7.30 dormi de forma intermitente, até finalmente me decidir sair do casulo quentinho. O dia estava cinzento, chuvoso e muito ventoso, e depois de ir recolher a roupa ensopada e a tela de nylon molhada comecei a empacotar tudo.

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Nessa altura, voltou a passar por mim um senhor alto com ar simpático, que na noite anterior já tinha metido conversa comigo porque achara curioso o facto de eu ir dormir ao relento, e que me convidou a tomar um chá na sua caravana antes de partir. Já com tudo arrumado, de mochila às costas e com um saco na mão, onde tinha os poucos mantimentos que me restavam – tâmaras, nozes, mel e pão… – dirigi-me à sua moradia. Na zona do toldo, Freddy apresentou-me a sua esposa, Anette e uma das suas filhas, Merriake e depois de me perguntarem o que queria beber, ficámos a conversar durante algum tempo. Quando olhei para o telemóvel, fiquei admirado porque já tinham passado um par de horas e a conversa não dava sinais de abrandamento. Nessa altura, como não me apetecia partir, perguntei-lhes se tinham planos e como estes eram inexistentes, resolvi prolongar um pouco a estadia no parque de campismo do Serrão. Foi assim, que após quatro dias de caminhada intensa, tive um dia santo de descanso. 🙂

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Com essa resolução tomada, aproveitei o forte vento que se fazia sentir para colocar a roupa, a tela de nylon e a manta de sobrevivência a secar, e continuámos a conversar até às 15.00. Nesse tempo, fiquei a saber que: eram alemães; tinham três filhos; desde que começaram a criar a família – vinte e tal anos -, estavam a ter pela primeira vez, um período de descanso mais prolongado, estando na ponta final de oito meses de “sabática”; Freddy era pastor da igreja Prostestante e Anette assistente social; no regresso à Alemanha iriam mudar-se de Frankfurt para Berlim… e abordámos inúmeros temas: sociedade, deus/religião/espiritualismo, viagens, história, trabalho/emprego, ser humano…

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Depois de tantas horas de conversa contínua e construtiva, e de um almoço saboroso que até teve direito a oração, enquanto eles ficaram a dormir a sesta, aproveitei para ir a Aljezur renovar o stock de mantimentos. Com os pés cobertos de compeed, visitei a zona antiga da vila, principalmente o bonito castelo, donde avistei toda a branca povoação, os campos férteis, as várzeas e os montes em redor. Do topo, segui até ao Intermarché onde me voltei a abastecer e terminadas as compras, regressei ao parque de campismo, desta feita por uma estrada de alcatrão serpenteante, sempre em sentido ascendente. Quando estava quase, quase a chegar, o suave sol que iluminou aquele fim de tarde, estava claramente em rota descendente.

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Já de regresso à “mansão”, Anette informou-me que um avião da Germanwings que ligava Barcelona e Düsseldorf se tinha despenhado nos Alpes, sendo altamente improvável que existissem sobreviventes. Mais um desastre aéreo – este viria a saber mais tarde, “poderia” ter sido evitado! :/ Passado uma hora e pouco, Freddy e Merriake reapareceram, sendo o jantar servido pouco depois. Apesar da fatídica notícia, à refeição e ao serão ninguém referiu o assunto, e continuámos a nossa animadíssima conversa, que foi sendo regada com vinho tinto e quase no final, um calicezinho de brandy. 😉 À saída da caravana, Freddy convidou-me para beber um café na manhã seguinte antes de nos despedirmos. Bastante mole e indolente, regressei à zona dos balneários onde voltei a dormir, desta feita com o corpo mais repousado, com a alma mais cheia e o sono mais profundo. 😛

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Rota SW

Ato V – No Arame

Depois de uma noite tranquila e antes de partir da Azenha do Mar, tirei algumas fotografias à zona do porto e à aldeia. Percorrendo verdes e floridas dunas, segui junto àquele mar azul numa manhã realmente primaveril. 🙂 Como sempre a primeira hora da caminhada passou rapidamente e às 8.30 já estava no topo da Ponta Branca, a observar a bonita e enooooorme praia de Odeceixe, onde bandos de gaivotas se banhavam alegremente. Daí e até ao centro da vila tive de percorrer quatro quilómetros de uma entediante estrada alcatroada, sendo a parte mais simbólica a travessia da ponte que une o Alentejo ao Algarve. Quatro etapas da Rota Vicentina concluídas, setenta e cinco quilómetros percorridos. 🙂

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Na pequena vila, aproveitei para comprar mais reservas alimentares e hídricas, e continuei a viagem. Os primeiros três quilómetros, já em solo algarvio, foram pouco interessantes, mas quando cheguei novamente à zona costeira, o circuito da Praia de Odeceixe tornou-se realmente agradável. Já na companhia de um céu cinzento, continuei para sul e entrei pela primeira vez numa etapa do caminho histórico. A verdade é que durante a tarde fui sentindo a falta da paisagem costeira e apesar do trilho seguir junto a um canal de rega bastante singular, os pés e a mochila estavam a matar-me lentamente. 😛 Durante o caminho passei por alguns campos de cultivo, pela povoação do Rogil e algumas zonas de eucaliptos e pinheiros. 

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Quando cheguei ao cruzamento onde começava o circuito da Praia da Amoreira, já tinha andado vinte e sete quilómetros, mas apesar do cansaço que já se fazia sentir e porque o dia estava novamente solarengo, resolvi continuar. Durante o trilho, pensei n vezes em montar abrigo naquele imenso pinhal e deitar-me a descansar, mas como as baterias da máquina fotográfica estavam esgotadas e eu não tomava um banho desde que começara a caminhada em Porto Covo, o lado racional foi vencendo lentamente a vontade imediata. Ao longo do circuito pude observar uma variação bem vincada entre os imensos pinhais e as dunas, onde encontrei muita vegetação e coloridas flores.

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Na chegada à bonita praia da Amoreira, uma vez que o vento soprava de oeste com muitaaaaaaaa intensidade e não existia nenhuma zona abrigada, não me demorei muito. Virando costas ao vento e ao mar, continuei o circuito agora por uma estrada de terra batida, penetrando por uma zona de verdes campos e montes. Quase no final deste longuíssimo dia, fruto de uma subida serpenteante e da qual não via o fim, a minha energia estava praticamente esgotada. No último par de quilómetros, até chegar ao parque de campismo do Serrão, senti-me fisicamente mais no arame, do que no dia em que escalei os 4095 m da Montanha Kinabalu, no Bornéu. Nessa altura, em que a mente puxou o corpo, o pensamento de um banho quente, fez-me continuar a caminhar, até chegar ao meu destino.

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Finalmente, já no parque de campismo, sem a mochila às costas e de havainas nos pés, reparei que pela primeira vez em quatro dias as botas estavam finalmente secas! Huuuuuuuuuuuuuuuuu! Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! 😀 E que me tinha aparecido mais bolha – a terceira. Antes de poder relaxar totalmente, e apesar do cansaço, tive de cumprir algumas tarefas: montar abrigo – mas como estava tanto, tantooo, tantoooooooooo vento acabei a dormir encostado à parede dos balneários; colocar todas as baterias a carregar – à vez; lavar e estender roupa; tomar banho 🙂 ; comer; dormir que nem um anjinho, fruto dos trinta e quatro quilómetros percorridos. 😉

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Ato IV – Missão? Paparoca!

Felizmente, na segunda noite o efeito de estufa foi inexistente, porém o calor excessivo manteve-se – ainda não fora desta, que acertera em cheio na quantidade de roupa. O reinício da caminhada, ficou marcado por uma luz matinal cinzenta e mortiça, belos pinhais e pelo regresso à zona costeira onde pude observar maravilhosas falésias xistosas, a funda praia do Cavaleiro e do outro lado da Ponta da Carraça, o monumental Cabo Sardão. 🙂 Como neste local não é possível seguir junto à costa, tive de caminhar para o interior até à aldeia do Cavaleiro e daí continuar o trilho.

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Na zona do Cabo Sardão deambulei durante aproximadamente meia hora e nesse período, observei um simpático rebanho de cabras, graciosas cegonhas nos seus ninhos ou em voo, imponentes falésias, a força do oceano. À medida que o cabo foi ficando para trás, as enseadas e baías não concederam tréguas, continuando a manifestar toda a sua riqueza e variedade de formas e cores, principalmente na zona da praia do Tonel, onde coloridas flores deram um maior brilho à paisagem. 🙂 A descida para o porto de pesca da Entrada da Barca foi realizada com especial cuidado, uma vez que o declive era bastante acentuado e daí até à vila de Zambujeira do Mar, segui pela entediante estrada de alcatrão, até regressar à costa nas imediações da praia da Nossa Senhora.

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À uma da tarde em ponto, estava junto à capela da Nossa Senhora do Mar já descalço a observar os pés e a verificar que me tinha aparecido mais uma bolha, desta feita junto aos dedos do pé direito. Depois de colocar o segundo compeed, “lavei” as mãos com uma toalhita e almocei com apetite. 🙂 Terminada a refeição, voltei a calçar-me, arrumei a mala e agora com um sol radioso, continuei viagem. Estava a caminho de Odeceixe, mas a minha “missão” era outra… paparoca! 😀 De qualquer modo e até esse momento chegar, segui por um dos pedaços de costa mais fascinantes de todo o Sudoeste Alentejano, encontrando falésias estratificadas de múltiplas cores – amareladas, alaranjadas, cinzentas, negras… -, pinhais, florestas de acácias e progressivamente as praias dos Alteirinhos, Carvalhal, Machados e Amália, onde pude observar no topo da falésia um rio a correr para o bravo mar! 🙂 Um verdadeiro festival natural, em que existem passagens por túneis de clorofila e múltiplos momentos de sobe e desce. À medida que me ia aproximando do meu objetivo, o dia progressivamente voltou à sua luz inicial e o meu corpo começou a sentir-se cansado. Nesta altura, a cada passo e ao imaginar o manjar que me esperava, a minha boca salivava abundantemente. Eram cinco e pouco da tarde, quando cheguei à aldeia da Azenha do Mar.

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Ao chegar ao abençoado restaurante, pedi para colocar o telemóvel a carregar e livrei-me do monstrinho17.37: meia salada de polvo à minha frente e uma mini no bucho, quase de penalty. 18.07: a sapateira acabara de chegar e a terceira mini estava bem encaminhada. 19.05: o manjar terminou, o bucho completamente recheado e a conta paga. 19.12: depois de falar com os donos do restaurante, fui colocar a mochila numa casinha onde passei a noite. 19.20: à espera que o telemóvel carregasse e quase a dormir em frente à televisão, onde os Lagartos goleavam o Vitória de Guimarães. 20.05: “os meus olhos não aguentam, mais! Vou-me deitar”. 20.30: Ferradíssimo a dormir.         

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Ato III – La Première

Fruto de uma gestão do frio e da humidade – a colocação da manta de sobrevivência em cima do saco-cama, resultou numa enoooooorme condensação, transpiração e calor – e da incapacidade de me conseguir mover – o arbusto ficava a poucos centímetros da minha cara – a primeira noite em pleno parque natural, de idílica teve pouco, ou nada. 😛 Ao contrário do dia anterior, o sol despontou no horizonte, e à primeira luz matinal já estava a tomar o pequeno-almoço e a arrumar a mochila – o que ainda demorou uma horinha bem redonda.

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Pelo topo de arribas xistosas continuei quase sempre junto àquele mar azul e verde carregados, até ao momento em que me enganei no trilho e perdi cerca de vinte minutos a voltar a encontrá-lo. A verdade, é que mesmo com este pequeno contratempo em menos de hora e meia estava no Porto das Barcas e daí até ao centro de Vila Nova de Mil Fontes, o caminho foi completamente desinteressante mas célere. Estava terminada a primeira etapa da rota Vicentina. 🙂 Junto ao forte de São Clemente e enquanto fotograva a bonita aberta onde o rio Mira encontra o mar, encontrei o simpático Sr. Augusto, com quem estive a conversar um pouco e que me disse: “sempre gostei muito da Natureza, você faz parte do meu grupo de crentes”. No centro da vila, parei numa mercearia para comprar mais mantimentos e segui para sul, rumo à vila de Almograve. Depois de cruzar a ponte sobre o rio, entrei numa agradável herdade cheia de sobreiros, dirigindo-me para a praia das Furnas, onde acabei por almoçar.

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Durante os onze quilómetros que faltavam, o que mais me surprendeu foi encontrar verdes campos cobertos de flores, um enoooooorme relvado que parecia o local ideal para piquenicar, campos de cultivo e infelizmente, florestas de agressivas acácias que estrangulam e eliminam toda a vegetação autóctone. :/ À medida que andava, a sola do meu pé esquerdo começou aos poucos a ressentir-se e quando cheguei à praia de Almograve, ao descalçar-me encontrei o que já suspeitava… la première… a famosa… bolha, estava oficialmente formada. 😛

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Nesta altura, como ainda era cedo – 16.00 – e a terceira etapa era longa – vinte e dois quilómetros – resolvi continuar a andar. O início do trilho para Zambujeira do Mar, revelou-se fascinante e à medida que Almograve ficava para trás, as dunas foram-se modificando e os arenitos passaram de cores suaves e alaranjadas para tons fortes e avermelhados. Espetacular! 😀 A partir do porto de pesca da Lapa das Pombas, onde pude observar rochas xistosas a formarem um quebra-mar natural, a paisagem modificou-se, as falésias tornaram-se imponentes e escarpadas e as dunas cheias de uma vegetação colorida. 🙂 Nesta altura sentia-me cansado, mas sabendo que nas imediações da Entrada do Pau iria encontrar um pinhal, forcei-me a andar mais um par de quilómetros. Para além disso, este pedaço de costa que era realmente fascinante, ajudou a atenuar um pouco o cansaço. 🙂

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Assim que encontrei o pinhal, larguei o monstrinho e escolhi um terreno cheio de caruma fofa onde montei abrigo. Perfeito! Melhor mesmo, só quando passados poucos minutos começou a chover e a tela de nylon se revelou impermeável! 😉 Era altura de finalmente repousar mas ao contrário da noite anterior, o local era realmente agradável. Depois de um repasto reconfortante, aproveitei para ler um pouco e às 20.00 já estava deitado, pronto para dormir o tranquilo sono dos andarilhos.

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