Rota SW

Ato VI – A Família e o “Dia Santo”

Quatro da manhã. “Lá ao longe”, começo a sentir algo húmido a bater-me levemente na cara. Lentamente, volto à realidade e começo a ouvir um barulho intenso. Estava a chover torrencialmente! O vento fortíssimo que anteriormente se fizera sentir, tinha de um modo improvável, acabado de salvar-me do encharcamento total. 🙂 Rapidamente, coloquei a manta de sobrevivência em cima da mochila como proteção e deixei-me ficar, afinal o meu poiso estava protegido. Entre as 4.00 e as 7.30 dormi de forma intermitente, até finalmente me decidir sair do casulo quentinho. O dia estava cinzento, chuvoso e muito ventoso, e depois de ir recolher a roupa ensopada e a tela de nylon molhada comecei a empacotar tudo.

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Nessa altura, voltou a passar por mim um senhor alto com ar simpático, que na noite anterior já tinha metido conversa comigo porque achara curioso o facto de eu ir dormir ao relento, e que me convidou a tomar um chá na sua caravana antes de partir. Já com tudo arrumado, de mochila às costas e com um saco na mão, onde tinha os poucos mantimentos que me restavam – tâmaras, nozes, mel e pão… – dirigi-me à sua moradia. Na zona do toldo, Freddy apresentou-me a sua esposa, Anette e uma das suas filhas, Merriake e depois de me perguntarem o que queria beber, ficámos a conversar durante algum tempo. Quando olhei para o telemóvel, fiquei admirado porque já tinham passado um par de horas e a conversa não dava sinais de abrandamento. Nessa altura, como não me apetecia partir, perguntei-lhes se tinham planos e como estes eram inexistentes, resolvi prolongar um pouco a estadia no parque de campismo do Serrão. Foi assim, que após quatro dias de caminhada intensa, tive um dia santo de descanso. 🙂

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Com essa resolução tomada, aproveitei o forte vento que se fazia sentir para colocar a roupa, a tela de nylon e a manta de sobrevivência a secar, e continuámos a conversar até às 15.00. Nesse tempo, fiquei a saber que: eram alemães; tinham três filhos; desde que começaram a criar a família – vinte e tal anos -, estavam a ter pela primeira vez, um período de descanso mais prolongado, estando na ponta final de oito meses de “sabática”; Freddy era pastor da igreja Prostestante e Anette assistente social; no regresso à Alemanha iriam mudar-se de Frankfurt para Berlim… e abordámos inúmeros temas: sociedade, deus/religião/espiritualismo, viagens, história, trabalho/emprego, ser humano…

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Depois de tantas horas de conversa contínua e construtiva, e de um almoço saboroso que até teve direito a oração, enquanto eles ficaram a dormir a sesta, aproveitei para ir a Aljezur renovar o stock de mantimentos. Com os pés cobertos de compeed, visitei a zona antiga da vila, principalmente o bonito castelo, donde avistei toda a branca povoação, os campos férteis, as várzeas e os montes em redor. Do topo, segui até ao Intermarché onde me voltei a abastecer e terminadas as compras, regressei ao parque de campismo, desta feita por uma estrada de alcatrão serpenteante, sempre em sentido ascendente. Quando estava quase, quase a chegar, o suave sol que iluminou aquele fim de tarde, estava claramente em rota descendente.

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Já de regresso à “mansão”, Anette informou-me que um avião da Germanwings que ligava Barcelona e Düsseldorf se tinha despenhado nos Alpes, sendo altamente improvável que existissem sobreviventes. Mais um desastre aéreo – este viria a saber mais tarde, “poderia” ter sido evitado! :/ Passado uma hora e pouco, Freddy e Merriake reapareceram, sendo o jantar servido pouco depois. Apesar da fatídica notícia, à refeição e ao serão ninguém referiu o assunto, e continuámos a nossa animadíssima conversa, que foi sendo regada com vinho tinto e quase no final, um calicezinho de brandy. 😉 À saída da caravana, Freddy convidou-me para beber um café na manhã seguinte antes de nos despedirmos. Bastante mole e indolente, regressei à zona dos balneários onde voltei a dormir, desta feita com o corpo mais repousado, com a alma mais cheia e o sono mais profundo. 😛

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