Uma Geografia. Uma Fotografia: Coron

Coron

Nos arredores da ilha de Coron, tive dois dias de mergulho intenso num ambiente pesado e sombrio de navios japoneses afundados durante a Segunda Guerra Mundial e aí senti um nervoso acrescido por ter entrado pela primeira vez debaixo de água, em espaços realmente confinados. Neste mundo submerso, senti o lado “negro” do mergulho, principalmente no navio Irako onde atingi a minha profundidade máxima -trinta e oito metros e meio. Porém, mesmo naquele mundo de trevas, existia luz e sempre que esta penetrava pelas frinchas e buracos existentes naquelas estruturas de aço gigantes, parecia que estava numa catedral sub-aquática! Fenomenal! Inesquecível! Para além disso, observar “algo” feito pelo homem, onde se pode ver vestígios da sua presença – as cargas inalteradas dos navios afundados – e onde ainda existem componentes que funcionam, tais como válvulas e torneiras, é algo de inolvidável. Na ilha, para além desses mergulhos míticos, tive serões animados, regados a rum e cola, na companhia dos meus companheiros de viagem e de dois engenheiros Irlandeses; vi procissões noturnas onde as velas dos fiéis iluminavam e espalhavam uma luz mortiça pelas ruas escuras da vila; visitei de barco uma praia de sonho, rodeada de rochas mágicas, negras como o breu e repleta de águas cristalinas e transparentes que brilhavam como safiras e esmeraldas; tive um delicioso jantar festivo onde o caranguejo e o camarão foram reis e senhores; e tive um reencontro com o passado… Numa daquelas noites festivas, ao sair dum bar na companhia de Arnold  gerente de um resort que trabalhava na ilha – encontrámos um nativo, que o conhecia e que nos convidou a ir até ao cemitério, para fazer uma homenagem fúnebre. Arnold imediatamente e de uma forma rude, declarou que não ia, mas eu naquele momento senti algo que me impeliu a acompanhar o nativo. Comprei umas velas, ele umas cervejas, montámos um tuk-tuk e quando estávamos prestes a partir, o Arnold acabou por se dignar a acompanhar-nos. Na escuridão da noite, seguimos estrada fora e depois de uma viagem que não sei precisar quanto demorou chegámos à entrada do cemitério. Aí, passo a passo e silenciosamente, penetrámos naquele espaço vasto, negro e sereno, até chegarmos à campa. Assim que chegámos, Arnold deitou-se na campa do lado e adormeceu pesadamente. O seu ressonar competia em decibéis, com a pirosa música de discoteca que era projetada pelo seu telemóvel. Como estátuas de mármore e alheios a esse facto, acendemos uns cigarros e as velas, abrimos as cervejas e fizemos uma homenagem fúnebre e sentida à sua esposa e ao seu filho – que tinham falecido há um ano. Depois desse momento, dentro de mim, algo se quebrou. Repentinamente, lembrei-me do meu pai e das saudades que sentia dele. Longe de Portugal, longe de todas as pessoas que conhecia, um pouco tocado pelos copos bebidos e sem filtros e barreiras de espécie alguma, comecei a chorar… De joelhos agarrado àquela campa, larguei um peso que carreguei durante quase dezassete anos. Chorei, chorei, chorei. Chorei baba e ranho. Chorei durante largos minutos e não houve nenhum travão que parasse as lágrimas. Apenas quando senti uma leveza a ressoar dentro de mim, parei. Nesse momento, passei as mãos pelos olhos, desajoelhei-me e abracei o nativo. Naquele cemitério perdido das Filipinas, dois “orfãos” de lados opostos do nosso planeta, foram irmãos durante momentos. Juntos partilharam uma dor comum. A dor da perda e juntos reencontraram um calor e uma luz humana, que aqueceu e iluminou a escuridão da noite e o frio da morte…

Uma Geografia. Uma Fotografia: El Nido

El-Nido

Depois da visita ao rio subterrâneo de “Puerto Princesa”, continuei para Norte, em direção a El Nido, onde depois duma viagem de aproximadamente seis horas, numa estrada bastante esburacada me deparei com calor… bastante calor. Um calor, abafado e pesado que se colava ao corpo. Nesse primeira tarde em El Nido, visitei a agradável praia de Las Cabañas – onde comecei a observar melhor, a beleza daquela paisagem natural. No dia seguinte, realizei um tour pelas múltiplas ilhas que ficam ao largo de El Nido e apesar do preço do tour (combinação dos tours A + C), não poder ser considerado uma bagatela, posso afirmar que valeu cada cêntimo investido e algumas das paisagens que tive a felicidade de observar, ficarão para sempre como um dos grandes momentos desta viagem! Em El Nido, tal como nas Phi Phi, ihas calcárias emergem do mar, mas aqui o seu número para além de mais elevado é mais dramático, uma vez que existem ilhas de faces completamente escarpadas, formações bizarras e zonas que recordam os famosos pináculos de Mulu, mas com rochas negras como o breu! Durante o dia, naveguei de ilha em ilha, fazendo snorkeling  peixe-leão bebé, muitos peixes coloridos, algum coral e muitas, muitas alforrecas que provocavam desconforto e sensações de picadas na pele; visitando praias de sonho: escondida – baía escondida no oceano, rodeada de rochas belas e surreais; da estrela ; secreta – para encontrar a mesma tivemos de nadar em pleno mar, penetrar numa abertura na rocha e aí deparámo-nos com areal que estava completamente rodeado a 360º por rochas negras e afiadas e que apenas podia ser vista do ar. Monumental! Arrebatador! E nadando em lagoas de infinitos azuis e verdes no meio do oceano?! Ao terceiro dia eu, o Denis, o Yannick e o Steow, pegámos numa melancia, alugámos uns caiaques e partimos à descoberta. Numa massa negra, vasta e serena remámos durante uma hora até à ilha de Cadlao que fica em frente à vila de El Nido e aí visitámos duas praias, a praia do paraíso – onde tudo em nosso redor era verde e selvagem e a praia “inominável” – na qual estivemos deitados dentro de água enquanto chovia torrencialmente. Nessa altura senti uma felicidade pura, fruto da comunhão com a natureza! No regresso, eu e o Denis conseguimos virar o caiaque um par de vezes em pleno oceano, rir-nos da nossa falta de perícia e quando chegámos a terra observámos que o meu dry bag, afinal não era assim tão dry! – valendo que no seu interior, não havia nada de realmente importante. El Nido, foi um local especial! Foi associar uma belezanatural estonteante e inebriante, ao convívio com um grupo de boas pessoas. Foi com um enorme prazer que partilhei o meu tempo com elas, num local que conserva um certa pureza – talvez o que as ilhas Phi Phi foram há vinte anos.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Sabang

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Depois da longa e memorável travessia para Sabang, este era o dia em que visitaríamos o famoso rio subterrâneo de Puerto Princesa – apesar de estarmos em Sabang, esse é nome oficial – e para mim o mesmo começou bem cedo, uma vez que acordei antes do nascer do sol, tendo a oportunidade de ver o dia clarear. O dia estava solarengo e de banca, partimos para as imediações do rio subterrâneo. À medida que nos afastávamos da vila, pude apreciar a beleza da costa: as colinas e montanhas, a vegetação, o mar de múltiplos azuis e  verdes, as rochas negras, semelhantes ao que vira anteriormente em Mulu. Devido a esta paisagem natural, a viagem foi de facto fascinante. Quando chegámos à costa, desembarcámos num bonito areal e depois de dois ou três minutos a andar num trilho rodeado de uma vegetação densa e luxuriante, apanhámos um novo barco, desta feita um pequeno bote de madeira. Desde o local onde se embarca nesse barquito, até à entrada da caverna, a água é super cristalina e tem uma cor espetacular, uma mescla de verdes esmeralda e azuis. O rio tem uma extensão de oito quilómetros, mas nestes passeios turísticos nem sequer se chega a percorrer metade do mesmo e apesar do passeio ter sido engraçado, graças ao nosso guia, politicamente incorrecto, não posso dizer que tenha sido mágico. Bonito e divertido, sim, mas não mais do que isso. Inclusivamente, posso afirmar que depois do regresso à vila/aldeia de Sabang, o melhor desta visita foram mesmo as travessias de banca naquele lindíssima paisagem. Durante a tarde fizemos um trekking até à nascente do rio subterrâneo. No início da caminhada, vimos verdes campos, colinas de rocha a emergir do solo e agradáveis montanhas. Depois, embrenhámo-nos por uma selva, não demasiado densa, mas muito bonita, repleta de árvores com formas bastante originais, riachos e formações rochosas. Até que chegámos a um local que se assemelhava a uma colina, e com cuidado começámos a trepar, pois a mesma era bastante íngreme e as rochas muito afiadas. Quando chegámos ao topo, estanquei maravilhado, estávamos numa entrada de uma gruta que parecia saída dum mundo perdido e primitivo! No ar podia-se observar uma ligeira névoa, fruto do ar saturadíssimo e da humidade reinante e tal como em Mulu quase acreditei que os  dinossauros podiam ter regressado à vida. Depois de uns minutos de contemplação e fruto do piso bastante escorregadio, descemos com cuidado até ao interior da gruta donde pudemos observar toda a beleza da entrada e todas as rochas e plantas que aí habitavam. Espetacular! Memorável! Novamente, pé ante pé subimos até à entrada e voltamos a descer a íngreme colina. Regressámos a Sabang, com os olhos, o coração e alma cheios e com um estado de espírito leve e alegre. Já na vila, demos um mergulho naquele mar de múltiplos azuis, que mais parecia uma sopa e deitado a flutuar naquele líquido quente, vi o dia a desfilar na minha mente qual uma película perfeita. De manhã a foz, à tarde a nascente. Em Sabang, o dia do rio.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Ilhas Cuyo

Solitário

Depois dos dias passados em Boracay, tentei seguir para a ilha de Coron, porém e como apenas existia barco para dali a três dias, improvisei um plano alternativo partindo para a ilha de Palawan. Na longa travessia marítima que separou Iloilo e Puerto Princesa, acabei por realizar uma agradável paragem na bonita e tranquila ilha de Cuyo, que psicologicamente fez uma enorme diferença, pois permitiu aliviar todo aquele tempo passado a bordo…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Makassar

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Makassar aparece nesta Geografia como ponto de ligação entre as ilhas de Java e Sulawesi e se na primeira cheguei via aérea, desta feita iria partir via marítima. Às 5.30 já estava na zona do porto e durante horas fui escrevendo no caderno até embarcar às 11.30, sendo o único momento de pausa, a compra de mantimentos. O barco era gigantesco e inicialmente não consegui perceber onde era o meu poiso, pois andava à procura de um camarote de segunda classe, quando afinal o que tinha era um bilhete para a classe económica! Como não era isso que esperava, fiquei chocado com a “suite” que encontrei – uma cama nas profundezas do navio – e rapidamente, depois de largar a bagagem, pus-me a mexer daquele cafunfo quente e escuro! Sem grandes dúvidas, tomei a decisão de tentar encontrar um local agradável para passar as minhas próximas vinte e quatro horas… e felizmente no topo do navio, encontrei um cafezito agradável que passou a ser a minha casa e por aí fiquei a escrever durante horas a fio. Apenas voltei à masmorra do dragão, para ir buscar comida e dormir por volta das 21.00. Quando me deitei, estava um calooooooor dos diabos e nesse momento, não pude deixar de pensar “que m$%#& de sítio!”  Apesar do colchão não ser mau de todo, o calooooooooor era… sufocaaaaaaante! Uma autêntica sauna! Mas de borla! Levantei-me às 5.15, acordado pelos cânticos da mesquita do barco, mas depois percebi que devido à diferença horária entre a ilhas de Sulawesi e Java, eram afinal 4.15! “Ora bolas!” De qualquer modo, como estar deitado no “cafunfo/masmorra/sala de tortura” não me fascinava, aproveitei para regressar ao meu porto de abrigo, o “abençoado” cafezito. À semelhança do dia anterior, permaneci no local horas a fio e aí vi o nascer do dia, tomei o pequeno almoço e continuei a escrever até acabar de atualizar o caderno. Quando acabei essa “tarefa”, o sol brilhava no céu azul e até chegar a Surabaya estive sem fazer nada de especial, descendo ao cafunfo para recolher a bagagem. Nesta viagem, até o desembarque que eu aguardava ansiosamente, foi MAU! Assim que as portas abriram, começaram a entrar pelo barco adentro pessoas a correr desalmadamente e nós, as pessoas que queríamos sair, tivemos que esperar que aquela torrente abrandasse! Enfim o pandemónio! E eu que já estava satisfeitíssimo com toda aquela viagem “paradisíaca”, quando sai do barco e pisei o solo da ilha de Java estava com um “sorriso estampado nos lábios”. Esta foi de looooooooooooonge a pior viagem de toda a Viagem!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Jakarta

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A minha estadia em Timor Leste, estava quase, quase a terminar e depois de regressar da “via sacra” à montanha Ramelau fiquei em Dili mais um par de dias, onde fiz uma festa de despedida especial com a familia Nicolau. De Díli para Jakarta, tive a odisseia derradeira, depois de mais de quarenta horas de viagem consecutivas e quatro dias seguidos a dormir em autocarros. Aqueles dias em Jakarta, foram dias para resolução de assuntos pendentes – arranjar a máquina fotográfica e aplicar o visto das Filipinas. Jakarta não é conhecida por ser uma cidade turística, aliás até existem pessoas que detestam a cidade, porém e sem nada poder fazer para acelerar o tempo, aproveitei para conhecer um pouco melhor aquela megalópolis. O coração do turismo situa-se à volta da praça Fatahilah e da antiga zona de Kota, onde nos arredores se encontram edifícios antigos parcialmente destruídos, degradados e abandonados, um canal de águas sujíssimas, ruas cheias de lixo, pessoas pobres mas dignas, um tráfego caótico, uma poluição sonora e atmosférica bastante incómodas. Tudo somado resulta numa cidade “bruta” e realíssima, como poucas vezes presenciei na vida, tal como em Haikou e Semporna. Na capital, também passei nas imediações da gigantesca e branca Masjid Iqtal, visitei o monumento nacional MONAS e o Museu Nacional. Na cidade comi a deliciosa e baratíssima comida local e no dia previamente acordado fui buscar o passaporte e a objetiva, despedi-me de Jakarta e parti para Pontianak, a aventura no Bornéu Indonésio – Kalimantan -, estava prestes a começar.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Oecussi

Oecussi_BlogO enclave de Oecussi – pode encontrar mais aqui – foi o meu primeiro destino em solo Timorense. No posto fronteiriço, ao falar com os polícias em português, emocionei-me por ouvir a nossa língua passados tantos meses e comecei a chorar de emoção. Foi como sentir-me em casa, sem realmente estar em casa! Oecussi revelou-se uma povoação envolta por uma paisagem natural bela e serena – entre o mar azul e colinas/montes verdejantes, muitas vezes cobertos de nuvens nos topos. Na vila e arredores, passeei à beira-mar encontrando praias com distintos areais, zonas de arvoredo, manguezais, campos de cultivo, cabras, vacas e galinhas; cumprimentei muitas pessoas e crianças, sentindo uma energia super-positiva e contagiante; vi muitas crianças a banharem-se no mar nuas com uma pureza cristalina; visitei Linfau e o local onde os portugueses desembarcaram há 500 anos; no bonito e tranquilo café das irmãs Dominicanas, bebi sumos extraordinários; fui até à colina de Fatusaba, onde encontrei vestígios de um antigo forte e donde pude observar Oecussi do topo; estive na longa praia de Mahata; percebi que o país é bastante mais dispendioso que outros no Sudeste asiático e que existe um aumento generalizado de preços – comida, alojamento, transportes, etc… – mas que tal facto é natural, uma vez que tudo ou quase tudo é importado; tive um serão na “cavacada” a beber tuasabo  vinho timorense, feito de palma – e a esfumaçar com timorenses, entre os quais Benny e senti na pele algo que nunca tinha sentido antes… uma corrupção gritante, mostrada à vista de todos…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kefa

Kefa_Blog

Na cidade de Kefa – pode encontrar mais aqui – conheci o Sr. Jorge, um senhor muito sereno, que era simultaneamente tradutor e guia turístico. Depois de uma conversa profícua, acordámos que ele me transportaria até à fronteira com Timor Leste junto ao enclave de Oecussi, ajudar-me-ia a arranjar dólares e durante a minha estadia na cidade seria simultaneamente meu guia e ojek.  Na manhã seguinte, na sua companhia rumei à pequena aldeia de Bitauni, onde visitei uma gruta/santuário, que albergava uma estátua de Cristo. Na gruta, a escuridão não era total pois existia luz natural que penetrava por algumas frinchas, existiam morcegos a voar e no ar sentia-se um odor pesado às suas fezes. Em frente à estátua da Nossa Senhora e do Redentor, o Sr. Jorge acendeu umas velas e rezou durante alguns momentos, enquanto eu observava silenciosamente.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kupang

Kupang_Blog

Da  capital de Timor Oeste – pode encontrar mais aqui – não guardo especiais memórias, a não ser os “taxistas” trapaceiros que consegui evitar na chegada ao porto, a viagem numa carrinha coletiva que me levou até ao centro e a “passeata” forçada que fiz durante um par de horas até sair de Kupang, uma vez que a carrinha/autocarro andou às voltas na habitual tentativa de angariar passageiros. A tradição indonésia, ainda continua a ser o que era!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Pulau Lembata

Lembata_Blog

Na partida da ilha de Lembata – pode encontrar mais aqui  esse paraíso tropical, antes de embarcar num ferry, tirei fotografias à cor da água de múltiplos azuis e verdes e sorri com a pureza infantil das crianças que nadavam nuas, nas imediações do cais. Durante a travessia escrevi alguns textos para o blog, atualizei o caderno, tirei fotografias à bonita paisagem e ao sereno pôr do sol, continuei a ler a “loucura” de Bukowski e pensei que na manhã seguinte iria estar na ilha Timor