Uma “Geografia”. Uma Fotografia: Pingyao

Pingyao_Blog

A cidade antiga de Pingyao  pode encontrar mais aqui – é possivelmente a cidade muralhada mais bem preservada de toda a China e enquanto passeei e pedalei no seu interior, fiquei com a sensação de ter recuado aos tempos da China Imperial. No templo taoista de Qing Xu, tive o privilégio de encontrar dois monges a jogar uma partida de Xiàngqí (xadrez chinês).

Em trânsito: Pingyao – Xi´an. O Passageiro Fantasma

Depois de Pingyao o meu próximo destino seria Xi´an na província de Shănxī, antiga capital do Império do Meio e casa dos famosos soldados de terracota. A minha viagem começa às 8.30, quando um táxi/motoreta (já incluído no preço do bilhete de autocarro) me vem buscar ao hostel. Iniciámos então um curto mas ruidoso périplo, pelas ruas da cidade nova (neste momento estou maravilhado pela novidade do meio de transporte) e sou largado na entrada da auto-estrada, nas portagens! O meu taxista faz-me sinal para esperar e parte ruidosamente de volta à cidade. Fico então sozinho a olhar para a estrada, com um sentimento misto de surpresa, nervosismo e ansiedade. Tudo é novo! Tudo é novidade! E sinto-me uma criança a aprender as regras básicas do “jogo”.

Passados uns vinte minutos, vejo um autocarro a sair da auto-estrada e a dar a volta logo ali nas imediações da portagem. Regras de trânsito? No pasa nada! 😛 O autocarro pára, apanha-me e segue viagem. Neste momento e como ninguém me deu bilhete, posso afirmar que sou um passageiro fantasma e o único ocidental a bordo. Durante a viagem aproveitei para actualizar o meu diário (escrever sobre os dias em Pingyao) e aproveitei para registar factos: território seco; algumas montanhas e topografia mais acentuada; meias a secar. O autocarro volta e meia pára na berma da auto-estrada para largar e apanhar passageiros; 396 km para Xi´an e a terra continua seca; fábricas e centrais de energia; buzinadelas em algumas ultrapassagens; atravessar de uma ponte de tirantes… A província de Shănxī dá as boas vindas com indústria e fumo (o ar parece poluído), atravessamos uma zona de socalcos super demarcados e a terra seca é intercalada com terra verde. No andar da “carruagem” colei todos os bilhetes no diário; comi dumplings frios e simultaneamente observei uma placa a indicar Xi´an: 87 km. Algumas ultrapassagens manhosas na auto-estrada, fizeram o motorista travar com intensidade, que lá está a escarrar novamente (RRRRRRRRRPU…). Na berma da auto-estrada pessoas com cartazes em chinês possivelmente com o destino escrito, esperam boleia. E pensei para mim: “Por vezes dou por mim a olhar para a paisagem ou para as coisas e não parece que estou na China, parece que podia estar em qualquer lado (sentimento de alienação), mas não! Cá estou eu, a chegar a Xi´an. Até já!”

              Primeiro Autocarro

Hostel de Sonho

O hostel onde tive a felicidade de ficar alojado em Pingyao (Yamen hostel) foi possivelmente o melhor de sempre desde que comecei a viajar (e não falo apenas desta viagem).

             

staff é prestável, simpático e está lá para nos ajudar a resolver as nossas dúvidas ou questões. Fica super bem localizado, mesmo no centro da cidade antiga, junto à Torre de Tingyu e o ambiente é excelente! 🙂 O local, era a antiga residência do governador (na altura da dinastia Ming) e desenvolve-se num complexo de múltiplos pátios que desembocam noutros pátios (à semelhança do que se passa em toda a cidade). Os quartos localizam-se nesses espaços e funcionam como unidades separadas, uma vez que têm casas de banho interiores individuais. Na zona da receção, que é simultaneamente sala de jogos (mesa de snooker e jogos de tabuleiros), café e sala de estar, as almofadas em tons vermelho-vivo, as bandeirinhas penduradas, a madeira do tecto e mobiliário, as fotografias nas paredes, conferem um estilo próprio ao lugar, tornando a envolvente acolhedora e bastante confortável para nos sentarmos calmamente a ver o movimento de uma das rua principais. E tudo isto ao preço da chuva: 20Y (cerca de 2,50€)! Por todos estes factores a experiência no Yamen foi ótima e memorável. Xiè Xiè! (Obrigado)

              

Pedalando em Pingyao

Ato III – Regresso a Pingyao

Depois da visita ao templo, chegou a hora de regressar à cidade e desta vez não houve cá odisseias. Apenas um pedalar relaxado e um caminho pacífico até ao portão Este e ao meu restaurante de eleição. 🙂 Findado o repasto, resolvi deslocar-me ao longo do perímetro exterior da muralha e assim conhecer as diferentes facetas da mesma. Montei a minha “bicla” e passeei calmamente a olhar o espaço envolvente sentindo-me bem… feliz. 😀

No perímetro exteriorAtualmente esta zona ainda está em obras de requalificação existindo terra, pó, areia e algumas barreiras físicas de vez em quando, sendo necessário fazer o ritual: desmontar da bicicleta, passar a bicicleta e depois a nós próprios, mas este facto não impede ou retira interesse a este belo passeio. Antes de devolver e despedir-me da minha “querida” ainda pedalei sem destino por zonas tranquilas da “cidade velha”, sendo a minha despedida de Pingyao abençoada pelo signo da serenidade. 😉

Pedalando em Pingyao

Ato II – O Templo

Em oposição aos exteriores desmaiados do templo, neste caso, seria no interior que residia o seu valor maior. O bilhete não foi propriamente barato (40Y), mas eu queria realmente entrar. Tendo em conta que este espaço (Shuanglin) foi construído há 1500 anos, e que no seu interior estão albergadas mais de 2000 estátuas Budistas em terracota e madeira (dinastias Song, Yuan, Ming e Qing), grande parte delas pintadas, com as cores delicadas originais preservadas e ainda vivas, até um leigo como eu em cultura chinesa percebe que está na presença de algo muito raro. 😀

Buda (4)         Buda

Pedalando em Pingyao

Ao terceiro e último dia na cidade resolvi alugar uma verdadeira “bomba chinesa” com direito a cestinho e tudo. 😉

Me and my RideAto I – Odisseia até ao Templo de Shuanglin

Sai da cidade muralhada pronto a enfrentar o trânsito meio-louco da parte nova da cidade: motas, motoretas, bicicletas, carros e camiões. Porém quando digo enfrentar, quero dizer, seguir o meu caminho com cuidados redobrados e tentar manter as distâncias ao máximo para não levar com nenhum bólide “em cima”.

Chegar ao templo de Shuanglin foi uma verdadeira odisseia e se em condições normais o templo dista a sete quilómetros da cidade (apenas tinha umas vagas luzes sobre a direção e distância), eu devo ter conseguido (arredondando as contas quilométricas por alto) percorrer mais do dobro. 😛 Pior que a inexistência de indicações!! Foi a falsa informação providenciada por uma placa de trânsito, sendo necessária muita resilência e abegnação para não desistir a meio do caminho, pois até as tentativas de esclarecimento dadas pelas pessoas, eram imprecisas e vagas.

Perdido e na companhia da minha “bicla”, numa rotunda encontrei finalmente um menino que me escreveu os caracteres do local. Sim! Novamente um papel a salvar o dia. 🙂 Munido do papel lá consegui comunicar com duas pessoas que me confirmaram que estava no  rumo certo e levei o meu propósito a bom porto, concluindo a odisseia ao atingir os  muros do templo que desejava conhecer. 😀

Percorrendo a Muralha

No segundo dia em Pingyao, decidi percorrer todo o perímetro da muralha, qualquer coisa como seis quilómetros. No portão Norte subi as escadas de acesso, comecei a “deliciar-me” com as panorâmicas, tanto interiores (“cidade velha”) como exteriores, fui andando com “dranquilidade” e aproveitei para tirar umas fotografias.

          

          

Quando cheguei ao portão Sul comecei a ver uns cartazes (claro que incompreensíveis para mim) mas segui adiante até dar de caras com…uma vedação! Aí confirmei o motivo de tanta algazarra sinalética, uma vez que na China, quando se vê tal “fenómeno” geralmente não é bom pronúncio. 😛 A muralha a partir daquele ponto estava fechada. Desci até ao nível do solo, mas estava insatisfeito. Apenas tinha percorrido meio caminho, queria mais.

           

Decidi por isso continuar o percurso o mais colado à fortificação que conseguisse até dar a volta completa, mas houve uma ou duas zonas em que tal foi impossível, devido a obras de requalificação. Nesta segunda meia volta, e agora ao nível da base, vi bairros menos clean e mais autênticos e a partir desse momento baptizei Pingyao como “A Cidade das Texturas”.  Aqui as paredes das casas estão cheias de profundidade, o que dá às ruas um aspecto verdadeiro e não “mumificado”. Aqui junto à muralha, cheira a real, não cheira a turístico, e os habitantes dão a vida necessária ao quadro. Aqui, “A Cidade das Texturas” revela-se, ao contrário de outras paragens que não são mais que naturezas mortas.

Pôr-do-Sol

Características enquanto Povo

Quando os chineses nos enganam e se forem “encostados à parede”, não existe tendência para a mentira ou para o confronto.


Quando paguei o bilhete turístico global, entreguei 200Y mas como estava distraído, não me apercebi que a senhora não me deu o troco (50Y). Quase no final da visita ao templo de Confúcio, comecei a remexer na carteira e dei conta que me faltava o dinheiro. Nesse momento, pensei que mesmo que ficasse sem ele (e nesta situação as percentagens estavam claramente contra mim), pelo menos a senhora da bilheteira ia perceber que eu sabia que ela me tinha enganado e que fora desonesta. Qual não foi o meu espanto, quando ao bater ao vidro e lhe mostrar o bilhete ela automaticamente abriu uma gaveta e tirou de lá o troco, abriu a janela e entregou-mo sem dizer uma palavra.

O Primeiro Dia em Pingyao

Que cidade é esta? Pelas descrições que fui lendo, Pingyao é possivelmente a cidade muralhada mais bem preservada do país, está classificada como Património Mundial pela UNESCO e localiza-se na província de Shānxī, a 800 km de Pequim e aproximadamente a 500 km de Xi´an. Esta foi a parte teórica, agora vamos à prática.

À chegada e quando o relógio marcava as 7.30, fui recebido por um frio de rachar. Sem mapa para me orientar e com umas indicações manhosas (providenciadas pela internet), aproveitei a “boleia” de um rebanho de franceses que iam na mesma direção e após dois dedos de conversa percebi que se deslocavam para o meu hostel. Ora cá está: o Zé tuga volta a ter sorte! 🙂 Depois de uma deambulação de quinze/vinte minutos lá o encontrámos. Depois de efectuado o check-in e de ter largado a bagagem na minha “suite” (onde ninguém dormiria naquela noite a não ser eu) parti à descoberta da cidade.

       

Ao percorrer as ruelas do burgo a caminho da residência da família Jin, fico com a sensação de ter recuado até aos tempos da China Imperial, com as suas casas com paredes de tijolo ou terra, caminhos cobertos de pó, pequenas lojas de ofícios e uma atmosfera silenciosa. 😀 Após a visita, dirigi-me ao magnífico Templo de Confúcio e na entrada, comprei um bilhete global, válido por três dias e com o qual se pode entrar em quase todos os locais turísticos. Segui junto à muralha até à zona do Portão Este e nas proximidades vi uma igreja católica e o Templo de Cheng Huang, outro local extasiante.

      

Só ao percorrer a Rua Sul é que comecei a perceber quão turística Pingyao pode ser: inúmeras lojas de quinquilharia barata a fazer-se passar por antiguidades; restaurantes com preços altamente inflacionados; hotéis; cafés e bares com “boa-pinta”. Nesta rua, visitei a torre do mercado onde acabei por ter uma visão mais panorâmica da cidade e algumas das inúmeras casas museu com os seus pátios espectaculares. Na Rua Este, continuei a visita às casas museu e nas imediações da muralha visitei o Templo de Qing Xu, que segundo as indicações na entrada é o único templo taoísta do mundo aberto ao público e onde vi a minha primeira partida de Xiang Qi (xadrez chinês).

Torre do Mercado      

Já no fim da tarde e após ser brindado com o laranja intenso do pôr-do-sol, havia que terminar o dia, e para terminar em beleza, nada como terminá-lo à mesa. O problema, vá, o ligeiro problema, é que o prato que me saiu em sorte no “jogo da roleta russa” foi de comer pouco e chorar muito…Era picante, picante, picante! O repasto consistia em rins de porco e couves que boiavam num líquido cor de sangue acompanhados por um mar de malaguetas vermelhas e de grãos de pimenta preta. Um espectáculo estrondoso, que tornou o primeiro dia em Pingyao num dia de extremos e me fez passar do gelo da manhã, para o intenso fogo da noite. 😛

Em trânsito: Pequim- Pingyao. Escola em Movimento

O meu primeiro comboio noturno foi uma autêntica sala de aulas em diversos aspetos. Primeiro que tudo aprendi a ler um bilhete de comboio na China. Seguidamente, e de muito mais importância, foi a autêntica aula prática em que participei ao falar com um rapaz chinês, na qual comecei a tentar perceber melhor o país em que me irei mover:

– Lições sobre Economia real (salário bruto 4000Y – salário líquido 3300Y; Valores mensais para o aluguer de casas, algures entre 1500-2000Y);

– Lições sobre Sociedade e Trabalho (“Existem leis criadas pelo governo relativamente ao descanso dos trabalhadores –  dois dias por semana, mas as empresas não cumprem a lei e o governo não quer saber”“Se num mês descansar dois ou três dias já é uma sorte“; “No primeiro ano, ninguém ousa falar de férias ao patrão” “O mercado Chinês é extremamente competitivo! Não queres? Salta! Há  quem queira”);

– Lições sobre China clássica e Medicina (Os 5 elementos: Ouro – Água – Madeira –Fogo – Solo relacionam-se com a medicina tradicional chinesa que é uma Medicina de prevenção).

Para além disso experienciei (refira-se que com bastante prazer), escrever à luz do PC. A ilusão “absoluta” do movimento relativo (o meu comboio estava parado e ao ver o outro comboio a mover-se, tive a sensação que me estava a mover) lembrou-me uma citação de Theroux sobre de como os movimentos dos comboios ajudaram a criar o Jazz e, adormeci embalado pelo Tum, Tum…Tum, Tum.

No dia seguinte bem cedo percebi o seguinte: os comboios noturnos têm um método para os passageiros saírem nas estações certas (acho que tal facto ocorre para evitar borlas e não por “samaritanismo”), que consiste em fazer as pessoas entregar o bilhete no início da viagem (ficamos com um cartão magnético) e na devolução do mesmo por um funcionário quando estamos a passar na estação de destino. Para um leigo, como eu que não percebe nada de chinês isto é espectacular! 😉