Uma “Geografia”. Uma Fotografia: Lú gū hú

Luguhu_Blog

No grande lago de Lú gū hú – pode encontrar mais aqui para além de observar uma bonita e tranquila paisagem, tive a felicidade de encontrar e retratar esta bela e serena barqueira.

Em trânsito: Lú gū hú – Lijiang. Por entre curvas, pinheiros e cantorias

Antes de partirmos, tivemos uma hora à espera que o autocarro acabasse de ficar lotado e só então seguimos viagem. Durante a mesma aproveitei para escrever no meu diário na medida do possível, pois a estrada estava em obras e serpenteava por vales e montanhas de terra seca onde despontavam pinheiros, muitos pinheiros…incontáveis. Na entrada a província de Yúnnán parecia o país dos pinheiros. 🙂

IMG_5418 (FILEminimizer)Para “adoçar” a viagem passámos nas imediações do rio Jinshan e a paisagem revelou-se deslumbrante, uma vez que no meio das áridas montanhas podíamos observar agora um misto e um novo contraste de verdes e azuis. Para terminar o relato da viagem, refiro apenas que houve interpretações a bordo, sendo todas as pessoas “obrigadas” a cantar e a desafinar, e eu vi-me “forçado” a cantar o Homem do Leme e a deixar os chineses de ouvidos em bico. 😛

IMG_5428 (FILEminimizer)     IMG_5437 (FILEminimizer)

O Magnífico Lú gū hú

Ato VI – Incompreensões

Assim que chegámos ao centro da vila, começámos a indagar os preços e os horários para partirmos para Lijiang, porém como não encontrámos nenhuma proposta que nos interessou, fomos andando pela rua principal, quando… reencontrámos o motorista que não tinha esperado por nós! O Xiaoling dirigiu-se a ele, começaram a falar e passado um minuto estavam a andar na mesma direção. Perguntei-lhe o que se passava e ele respondeu-me que o motorista não sabia que tinha de esperar por nós e que este autocarro era o melhor meio para chegarmos ao nosso destino: “It is cheap”. Nesta altura só pensava, “como que ele não está f$#%£§ com o motorista!?” e resolvi por uma pedra no meu orgulho e no assunto, uma vez que estou num país diferente e do qual desconheço a cultura e os códigos de conduta. Durante o pequeno-almoço e antes de embarcarmos, tentei explicar-lhe que tinha de falar comigo e que era importante para mim perceber um pouco os seus planos. Ao que ele escreveu no seu telemóvel: “Tu não percebes, a maneira de pensar chinesa.” Pois não my friend, grande verdade! E contigo a sonegar informação, ainda menos! Xièxie (謝謝)! :/

Reflexão: O que é inaceitável num país, pode ser perfeitamente aceitável noutro. Tal como as pessoas são todas diferente e têm diferentes características, o mesmo se passa com os países.

O Magnífico Lú gū hú

Ato V – Saturação!?

Inicialmente estávamos para ver o nascer do dia, mas quando acordámos o tempo estava completamente encoberto e depressa decidimos ficar a dormir até às 8.00, ou melhor tentar… uma vez que as escarradelas do dono do hostel, os passos no piso de cima e o som de orações que me soavam a muçulmanas mas que depois percebi serem budistas, tiveram o condão de me manter acordado. 😛

Já na saída do hostel tivemos um imenso golpe de sorte. Do nada, apanhámos um autocarro que ía para Lijiang e os autocarros para este destino partem sempre de Luòshui que fica na outra margem do lago, a mais de quarenta quilómetros de Xiaoluoshui, onde pernoitámos. 🙂 Como tínhamos os monstrinhos a dormir em Lǐgé, falámos com o motorista para ele aí fazer uma paragem, ao que ele respondeu que não havia problema nenhum, uma vez que a vila já estava agendada para uma breve mirada turística. Assim que autocarro parou, aproveitámos e seguimos colina abaixo até ao posto de turismo, onde recolhemos a nossa “cruz” e subimos a colina das urzes, não não era o monte das oliveiras, mas quando chegámos ao “cume” tivemos a nossa “crucificação”. Quando estávamos mesmo, mesmo a chegar ao topo da colina vimos o autocarro a arrancar. Depois de todo o esforço dispendido na descida e ascensão, morremos na praia e nesta história não houve ressurreição. :/

Fiquei chocado! E só conseguia articular a palavra “M#$%&”/@£§*+!” Nesta altura, o Xiaoling também estava um bocado atarantado, mas entretanto dirigiu-se a uns turistas com os quais encetou uma breve conversação e num ápice já estávamos dentro de um carro em perseguição ao autocarro. Porém… foi sol de pouca dura, no cruzamento para  Lǐgé o carro estancou e nós tivemos que seguir a pé, estrada acima. E percebi, que afinal a “perseguição” que eu idealizara era apenas uma quimera dourada e que a realidade era bem distinta. Estávamos nas imediações de Lǐgé, a mais de trinta quilómetros de Luòshui, carregados como jumentos e topograficamente tínhamos de continuar a subir, durante pelo menos mais um par de quilómetros. Esta era a nossa realidade!

Metemos os pés à estrada e antes de conseguirmos apanhar uma nova boleia, que nos levou diretamente até ao centro de Luòshui e terra prometida para seguirmos para Lijiang, ainda tivemos de andar mais de quarenta minutos. Durante esse breve período, ainda deu para ter o meu terceiro momento Lost in Translation do fim-de-semana com o Xiaoling. Aqui a situação resume-se comigo a dizer-lhe a minha ideia (escrevermos o nosso cartaz com os caracteres Lijiang, uma vez que já estávamos em andamento e podíamos aproveitar para ir pedindo boleia) e a perguntar-lhe qual o seu plano várias vezes e com ele mudo como um rochedo! Pior que não ouvir nada, foi nem sequer ver um esboço, uma tentativa. Nesta altura estava f#$&@£! E só pensava: “Nunca mais chegamos a Kunming (local da nossa separação)! Estou farto, fartinho de ti e dos teus silêncios…Saturas-me!”

O Magnífico Lú gū hú

Ato IV – Danças, Fogueiras e Hipnotismos

Eu e o Xiaoling chegámos no dia do Jia Cefo Ti, que é  uma  mistura de conto e dança protagonizada pelos jovens Musuo e ao que parece esta é a sua pérola de arte folclórica. A assistência numerosa, estava atenta e pronto a disparar os seus flashes a cada movimento, a cada gesto, a cada olhar.

IMG_5293 (FILEminimizer)      IMG_5284 (FILEminimizer)

Os elementos fundamentais eram o fogo, a dança, os cantos, o movimento acelerado e frenético, os trajes tradicionais, a confraternização latente entre os perfomers e entre estes e a audiência. O ambiente era quente, envolvente, hipnotizante… 🙂

IMG_5372 (FILEminimizer)

Bem como hipnotizante e luminosa era a face de uma das raparigas Musuo. Nunca na China vira nada assim, a sua beleza era clássica e intemporal e bastariam mais uns momentos de contemplação e jurararia que olhava para uma estátua de mármore, perdida nas rotas do Oriente. 😀

IMG_5297 (FILEminimizer)

O Magnífico Lú gū hú

Ato III – Fugindo de Lǐgé

Quando fomos largados pelo nosso jarbas não estávamos no centro da vila, mas sim num miradouro donde podíamos abarcar toda a enseada, a sua água azul petróleo e prateada, e observar as montanhas das redondezas a agigantarem-se e a tornarem-se negras. Do miradouro até ao centro da vila demorámos dez minutos colina abaixo, por trilhos de terra no meio da vegetação e quando chegámos a Lǐgé chovia com intensidade. Antes de começarmos a andar à toa com os monstrinhos às costas, decidimos que eu ficaria debaixo de um telheiro a guardar as mochilas e o Xiaoling iria procurar um local para pernoitarmos. Vinte minutos volvidos ele voltou, mas a sua cara dizia tudo, nada! Pelo menos até ao momento. No meio da chuvada e já com as capas impermeáveis postas, fomos andando pela vila e continuámos a indagar preços. Porém…

IMG_5186 (FILEminimizer)

O nosso plano de dormir na vila saiu gorado pelos preços exorbitantes aí praticados. E relativamente a isso posso afirmar que a vila tem uma localização bonita, sim! Mas calma… não é nenhuma obra de arte quando comparada com outros locais que estivemos em Lú gū hú. Antes de sairmos de Lǐgé, tive o meu segundo momento Lost in Translation do dia com o Xiaoling, porque ele não me conseguia explicar qual o nosso próximo destino.

IMG_5203 (FILEminimizer)      IMG_5210 (FILEminimizer)

Partimos então em direção a Lise, já sem a companhia dos monstrinhos, uma vez que durante a procura de poiso, estes acabaram por ser largados e ficar guardados no posto de turismo da vila. O caminho foi feito em corta mato e só posso declarar: “Ainda bem que não ficámos em Lǐgé!”. Apartir desse momento vimos as paisagens mais belas de todo o Lú gū hú, enseadas e baías de água azul escura e verde, casas de madeira, plantações já colhidas mas ainda douradas, muita vegetação e a montanha Deusgemu (3755 m) a agigantar-se. 😀 Em Lise voltámos a não ter fortuna e daqui seguimos para Xiaoluoshui, desta feita pela estrada de alcatrão pois a topografia e a vegetação não permitiam veleidades. Uma vez mais, azar numa face da moeda, sorte na outra… 🙂 o tempo continuou a “abrir” e quando chegámos ao templo no topo do monte imediatamente antes de Xiaoluoshui, fomos presenteados com uma panorâmica magnífica, o lago, as colinas e os verdes vales, as bandeiras coloridas do templo, as árvores e a luz dourada do entardecer. 🙂

IMG_5241 (FILEminimizer)      IMG_5261 (FILEminimizer)

Quando chegámos à vila tivemos finalmente a nossa recompensa e ficámos hospedados no hostel Pig Through Inn, um antigo matadouro que foi transformado numa quinta com quartos em madeira, espaçosos, camas grandes e fofas e com uma casa de banho que graças ao bom gosto e funcionalidade ficou na retina como a melhor que vi na China, porém… sem água quente. 😛 Tirando esse detalhe estávamos no local perfeito, no momento perfeito… 🙂

IMG_5269 (FILEminimizer)

O Magnífico Lú gū hú

Ato II – No Rebanho

IMG_4971 (FILEminimizer)      IMG_4978 (FILEminimizer)

No meio de não termos local para pôr a bagagem, a estória do dia continuou quando apareceu uma carrinha turística com um condutor e três raparigas a bordo, que estava a dar a volta ao lago e a parar nos pontos mais cénicos. Quando saíram da carrinha, o Xiaoling foi falar com elas e como queríamos ir para Lǐgé, e podíamos em qualquer momento mandar parar a carrinha, aceitámos o “convite” que elas nos endereçaram e seguimos viagem – as carrinhas que andam à volta de Lú gū hú em passeios turísticos têm a tarifa fixa de 200Y e quanto mais cheia a carrinha estiver, menos paga cada ocupante – ou seja, o “convite” das raparigas não foi genuíno, tratou-se sim de uma forma de baixar o preço a pagar por cada uma delas. 😛 Poucos quilómetros depois de sairmos de Luowu, apanhámos mais duas ocupantes, o preço da viagem continuou a baixar – nesse momento, o valor já se cifrava em 28Y por pessoa – e a quantidade do rebanho a aumentar. 😉

IMG_4995 (FILEminimizer)      IMG_5012 (FILEminimizer)

Partímos então em direção a Zhawoluo e durante a curta viagem vi uma zona do lago de águas mais paradas e rasas, que davam a noção da existência de pequenas ilhas. Quando chegámos à aldeia, esta era completamente dominada pelo turismo: passeios a cavalo e de pónei, vendedores de postais e de imitações baratas de artesanato, bancas de comida com preços inflacionadíssimos, enfim nada de interessante. Porém e felizmente, bastava sairmos vinte/trinta metros do trilho para observar uma face mais rural com campos de cultivo, barcos a recolher vegetação, árvores, flores delicadas e camponeses nos seus afazeres. 🙂 No final da aldeia cruzámos a ponte do matrimónio e na outra margem do lago voltámos a dar de caras com bancas de comida, desta feita com “manjares” exóticos, sendo o sapo  pronto para virar churrasco – uma das iguarias. 😛

IMG_5025 (FILEminimizer)        IMG_5037 (FILEminimizer)

Daí rumámos a Shekua, onde entrámos oficialmente na província de Yúnnán e sem grandes delongas seguimos para Sanjia. Aqui, fizemos uma paragem mais prolongada para dar um “tradicional” passeio de barco em que os remadores de serviço eram maioritariamente mulheres e que vestiam trajes aparentemente tradicionais. Do cais partimos em direção à ilha de Liwubi (tartaruga) e durante o trajeto pudemos ver pássaros brancos que “atacavam” ao primeiro sinal de comida na água e o imenso lago azul petróleo a transformar-se progressivamente em verde azeitona e nas margens a ficar transparente. 🙂 Quando desembarcámos na ilha, recebemos a indicação que tínhamos aproximadamente trinta minutos para a visita e desse modo aproveitámos o pouco tempo disponível para ver a pequena ilha, mas principalmente o seu bonito templo budista. Quando findou esse tempo, voltámos ao barco e fomos conduzidos de regresso a Sanjia onde o nosso “jarbas” nos aguardava.

IMG_5144 (FILEminimizer)     IMG_5087 (FILEminimizer)

Em Luòshui, a refeição degustada em rebanho e graças às nossas companheiras de viagem que comiam como piscos, eu e o Xiaoling pudemos comer mais à vontade. 🙂 Esta aldeia revelou ser maior que as anteriores e aqui verificámos que o autocarro para Lijiang – nosso próximo destino – partia a múltiplas horas com particular incidência na manhã. Até Lǐgé, foi um pulinho e nesse trajeto em que fizemos três paragens bastante rápidas, fruto dos aguaceiros intensos, pude observar as profundas mudanças no lago. A topografia do terreno alterou-se radicalmente e passámos de planícies para montes e vales, a cor do água também mudou e os azuis e verdes ficaram ora  mais esbatidos ora mais profundos. Na chegada a Lǐgé pagámos ao nosso “jarbas” e balímos a despedida. 😀

O Magnífico Lú gū hú

Mas afinal o que é Lú gū hú? Lú gū hú é um grande lago que se localiza e separa as províncias de Sìchuān e Yúnnán. Dois terços da sua vasta área localizam-se em Sìchuān e o restante terço em Yúnnán. Este lago é a casa de múltiplas vilas de diferentes etnias: Tibetana, Yi e Mosu (a última sociedade matriacal praticante do mundo). 😀


Ato I – O Nascer do Dia e da Discórdia

Na pequena vila de Luowu onde dormimos, acordámos muito cedo para ver o despontar do novo dia e este maravilhou. 🙂 O lago como espelho perfeito das nuvens e da cor do céu, as montanhas recortadas no horizonte, a cor em transição, desde os azuis, cinzentos e pratas até aos desmaiados rosas e dourados vivos, os barcos, a vegetação circundante, a neblina suave, os “nativos” nas suas rotinas piscatórias.

IMG_4886 (FILEminimizer)      IMG_4921 (FILEminimizer)

Entretanto o Xiaoling voltou ao quarto para dormir mais um pouco e eu aproveitei para ler algumas coisas sobre o país, fazer a barba e re-arrumar a mala. Quando voltou a acordar disse que íamos mudar de hostel com o argumento: “Aqui não há pessoas”, fiquei confuso mas acabei de empacotar a mala e fizemos o nosso check-out. Junto ao lago e porque não percebia as suas intenções e ele também não as conseguia explicar (o Xiaoling tinha um inglês praticamente inexistente e a nossa conversação era feita 99% das vezes com recurso à tradução de mensagens no seu smartphone) estava bastante irritado com a situação por ele criada. Naquele momento, estávamos os dois na rua de “monstrinho” às costas e sem um plano, pelo menos era isso que sentia. :/ Com muitas dificuldades na comunicação e vinte minutos volvidos, lá nos conseguimos entender e finalmente percebi que a sua ideia era dormir em Lǐgé, aldeia que se localizava na outra margem do lago e que ficava “apenas”, a mais de quarenta quilómetros de distância.

     IMG_4945 (FILEminimizer)      IMG_4955 (FILEminimizer)