Uma “Geografia”. Uma Fotografia: Niubeishan

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Chegar ao cume da montanha de Niubeishan (牛背山) – pode encontrar mais aqui – foi uma verdadeira e longa aventura. Passando por uma viagem de autocarro até ao interior da China profunda, uma travessia adrenalizante num táxi mota e um trekking até ao topo, tudo valeu a pena… para chegar ao anfiteatro das montanhas e me deparar com uma extraordinária valsa celestial.  

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato VII – O Caminho de Regresso

Depois da recompensa e das despedidas, a nossa atenção voltou-se para o regresso a Lin Qi ou a Yujin e o nosso primeiro passo foi falar com Johny para saber se ele nos arranjava boleia. Apesar de inicialmente ele se ter mostrado muito renitente – questões de seguros, caso acontecesse alguma coisa de mal – lá o conseguimos convencer. A primeira parte do caminho foi um corta-mato feito a pé entre o pico de Niubeishan (牛背山) e a casa onde almoçáramos três dias atrás, onde o Johnny tinha deixado o seu SUV. Incrivelmente, esta foi a parte mais tranquila.

A segunda parte consistiu na descida entre este local e outra casa semelhante, mas localizada a uma cota inferior. O caminho estava cheio de lama, buracos, curvas apertadas e por isso a velocidade era muito reduzida: 10-15 km/h. Em certo momento o Johny pediu-nos sair do carro e irmos um bocado a pé devido à insegurança da descida. Fruto de um corta-mato que fizemos dentro da floresta, da lama e da neve, desencontrámo-nos dele e tivemos de voltar para trás à boleia numa carrinha de caixa aberta alta. Nessa curta viagem tive uma bela oportunidade para de experienciar novamente o medo, ao ver os precipícios do meu lado da estrada. :/

A terceira e última parte do caminho começou nessa segunda casa e apenas terminou em Lin Qi. Nesse último troço, saímos ainda do carro algumas vezes devido aos penhascos assustadores e à ausência total de proteções laterais na estrada. Mesmo assim ainda deu para suar um pouco, pelo menos no início do caminho. 😛 A estrada era toda ela de terra batida e a inexistência de placas e indicações, fez com que nos perdêssemos três vezes em cruzamentos. Apesar de tudo e à medida que íamos progredindo (muito lentamente, 10 km/h) o ambiente foi-se desanuviando e deu para apreciar a paisagem que desfilava ao nosso lado: montanhas, verdes vales e o céu azul. No total a viagem durou aproximadamente sete horas, quase tanto como o trekking de subida, e de certo, com muitos mais sustos e percalços do que este.

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato VI – A Recompensa

Para ir ver o nascer do sol, acordámos por volta das 6.00. Quando saímos da tenda ainda era de noite e havia muitas estrelas no céu. Caminhámos para o ponto mais alto da montanha e aí aguardámos pelo nascer do astro rei, aproveitando para ver o cavalgar do dia perante a noite, e a transformação do céu negro para azul. 🙂

          

Nessa altura tivemos a nossa recompensa. Diga-se, uma recompensa muito aguardada e algo merecida, uma vez que esperámos durante três dias por aquele momento. E o momento não desiludiu, antes pelo contrário! Foi BELO ver o nascer do sol, a multidão que aguardava expectante, a suave neblina nas montanhas da face Este qual uma delicada pintura chinesa, o céu completamente limpo nas montanhas da face Oeste, os reflexos dourados nos grandes picos brancos e nas outras montanhas de faces negras e cinzentas, e claro, ver o pico da Gongga a brilhar em toda a sua majestade e altivez, com uma visibilidade perfeita, perfeita, perfeita! Indescritível! 😀

     

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato V – Nevoeiro e Esperança

Ao terceiro dia, a montanha acordou parcialmente gelada e novamente coberta de um manto de nevoeiro espesso e impenetrável. Nesse momento percebemos que era impossível partir e fazer a descida – pelo menos naquele dia. Em conversa decidimos que no dia seguinte, com ou sem nascer do sol tínhamos de deixar Niubeishan, uma vez que aquela seria a terceira noite e estávamos ali completamente em standby. :/

Durante o dia aproveitei para acabar de pôr o caderno em dia e secar as malfadadas botas que teimavam em gelar.  À  medida que as horas foram passando começaram a chegar pessoas à montanha… mais pessoas… mais pessoas… mais pessoas, parecia uma horda a invadir Niubeishan (牛背山). Curiosamente, à medida que a quantidade de pessoas aumentava o tempo melhorava, e a partir das quatro da tarde as nuvens “abriram” de tal maneira que foi possível voltar a ver a paisagem em nosso redor.  🙂

Crateras e montanhasRumei então a uma zona da montanha que ainda não conhecia e na medida do possível comecei a tirar algumas fotografias, uma vez que por esta altura já andava em contenção de bateria. Foi uma boa surpresa quando encontrei Johny e a “amiga”, um casal que conhecêramos no dia anterior. Aproveitei para passar o resto da tarde com eles e para aprender mais sobre fotografia com o Johny, quando a tarde acabou tinha as mãos completamente geladas. 

Iluminações     

O fim do dia foi um espectáculo extraordinário: as múltiplas nuvens, as cores do pôr do sol, as montanhas, a cor do céu… de tal modo que quando a noite caiu vimos pela primeira vez um céu estreladíssimo. A esperança aumentou exponencialmente para o próximo dia. O dia do tudo ou nada!

      

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato IV – Nevoeiro, Neve e Bondade

Depois do pôr do sol e da sinfonia celestial, o novo dia nasceu nublado e cheio de nevoeiro, e como o Xiaoling fazia questão de ver o nascer do astro rei em Niubeishan (牛背山), decidimos ficar mais um dia. Sem visibilidade e com a temperatura exterior muito baixa, o frio empurrou-nos literalmente para dentro das tendas. Durante a estadia aproveitei para continuar a atualizar o “diário”, a aquecer os pés e as palmilhas das botas – porque tinha o interior das mesmas húmidas e completamente geladas – e aprender mais um pouco de mandarim. 🙂

Se as expetativas para que houvesse nascer do sol no dia seguinte já estavam baixas, ao final do dia desceram para valores negativos, uma vez que começou a nevar intensamente. O momento alto e memorável do dia surgiu então ao serão pela mão do nosso “gerente hoteleiro”, que para além de nos ter oferecido o jantar, ofereceu-me um maço de tabaco, um isqueiro e bebidas. A bondade destas pessoas é incrível e não pude deixar de me sentir comovido e reconfortado com tanta humanidade e calor. 😀

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato III – A Tenda e o Anfiteatro Natural 

Depois de colocar a mochila na tenda e escrever com uma caneta de feltro o meu “feito”, comecei a observar o espaço em redor e reparei que aqui o turismo ainda é bastante rudimentar e primitivo. A estrutura base da montanha é a tenda e tudo gira à volta dela. Tendas “gigantes” a servir de dormitórios, tendas a servir de cozinha, tendas a servir de refeitórios, tendas a servir de latrinas, tendas a servir de central eléctrica… 🙂 Geralmente o dono de uma cozinha é simultaneamente dono de um refeitório e de um dormitório, desta forma podem existir conjuntos que se constituem como unidades separadas, funcionando cada uma dessas unidades como um hotel. 😉

       

Quanto às pessoas que aqui circulam, vêem-se alguns jovens, mas a maioria são homens adultos que sendo ou não profissionais da fotografia o parecem, tal a quantidade e qualidade do material que transportam às costas, nas mãos ou ao pescoço. 😛 O ambiente geral é fascinante, devido à confraternização entre as pessoas e os “fotógrafos”, não se sentindo um ambiente competitivo, mas de partilha. 🙂

      

Passados uns momentos de deambulação na montanha percebe-se o porquê de toda perafernália fotográfica. Esta montanha não tem um pico definido, ou se tem, este é de tal modo largo que mais parece um planalto. Deste modo, ao andarmos pela montanha percebemos que estamos no centro de um anfiteatro totalmente rodeado a 360o de montanhas. 😀 Camada sobre camada, sobre camada, vemos picos, desde os mais próximos – castanhos escuros – aos mais longínquos – brancos… enfim, ESPECTACULAR! 😀 Aqui, se a meteorologia ajudar, pode vislumbrar-se o Paraíso, tal como o momento em que no final do dia vi uma cascata de nuvens a escorrer por entre os picos mais baixos. Belo! Absurdo! Surreal! Uma sinfonia comovente, à qual só faltava mesmo o som. 😀

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato II – Trekking para o Topo

O início do trekkingAcordámos cedo (6.30) para ver nascer o sol e depois de tomarmos um pequeno-almoço reforçado, partimos por volta das 8.00 para o trekking, acompanhados da nossa guia e de um pequeno grupo de cinco jovens chineses.

       A caminho (2)

Deixámos Yujin para trás e fomos percorrendo caminhos em montanha, trilhos junto a riachos (numa passagem entre margens consegui escorregar e cair – mas sem gravidade), passámos por aldeias semi-desertas, campos de cultivo, florestas, terrenos secos, terrenos lamacentos (num desses locais escorreguei e cai de novo de rabo no chão… 😛 ), terrenos gelados e cobertos de neve. À medida que subíamos em direcção à montanha Niubeishan (牛背山) (sem a vermos, contudo) e íamos olhando para trás, o nosso horizonte de picos brancos foi-se alargando progressivamente. O único ponto negativo durante este percurso foi a quantidade de lixo que fui vendo ao longo do caminho (nas questões de ecologia os chineses ainda têm um longo caminho a percorrer). :/

Friends      Kiri e Nubeishan

Por volta das 13.00 chegámos a uma casa à beira da estrada e nessa altura avistámos pela primeira vez o nosso objectivo: o pico da Niubeishan (3666 m). Aí retemperámos forças e almoçámos um belo pitéu. 🙂 Às 14.00 estávamos de volta ao trekking, já sem a nossa guia que entretanto regressou a Yujin, restando-nos apenas escalar a montanha. Aos poucos lá fomos cortando o declive e encontrando o caminho por entre rochas, neve e terra. Houve algumas partes um pouco mais difíceis, mas nada que não se resolvesse com um pouco de tenacidade e preseverança. Atingimos o pico entre as 15.30 e as 16.00 e passado pouco tempo soube que fora o primeiro estrangeiro a atingir tal ponto a pé (informação dada por pessoas que trabalhavam na montanha). Claro que me senti super feliz, nestes momentos o ego é “tramado”. 😛

     

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato I – Em trânsito: Lin Qi – Yujin

Depois do Xiaoling me explicar o seu plano num PC de um cyber-café (escrevia em chinês e a internet traduzia para inglês e eu fazia o processo inverso) e de eu mandar uns e-mails a sossegar a minha família, partimos num táxi-mota montanha acima até Yujin (uma pequena aldeia).

Confesso que em certas alturas do percurso tive um certo medo: a mota estava carregadíssima (três pessoas, duas mochilas de campismo e uma mochila pequena), ninguém tinha capacete, a estrada era cheia de curvas, esburacada e tinha pedregulhos nas bermas. À medida que o caminho foi percorrido começaram a surgir árvores com flores de diferentes cores (brancas, cor-de-rosa, amarelas e verdes) entre as quais se deixava adivinhar o vislumbre das neves longínquas e o medo esse, desapareceu, dando lugar ao maravilhamento. 🙂 A aldeia de Yujin encaixa-se bem no meio da montanha e está rodeada com campos de cultivo. Saudaram-nos os rostos sujos e envergonhados das crianças, as anciãs e anciões de cachimbo na boca, as árvores em flor e os picos brancos como pano de fundo, entre eles o todo-poderoso Gongga (7556 m). 

      

 Fomos recebidos por uma família. Com eles jantámos uma maravilhosa comida caseira, fizemos serão, bebemos vinho chinês (50 ºC), fumou-se um cigarro depois do jantar e ouviu-se um ditado chinês: “Um cigarro depois da refeição, sabe a nozes”. 😛 Vi os rostos felizes das pessoas à nossa volta, e mesmo não falando ou percebendo chinês adorei este momento. Nele percebi a importância que as refeições têm neste país. A comida como sinónimo de partilha e convívio, estreita os laços da família e a família na China é a chave de toda a cultura. 😀

Em trânsito: Chengdu – Lin Qi. Dia D

Este era o dia D, o dia em que me ia encontrar com Xiaoling, embora não soubesse exatamente onde. Quando estava já dentro do autocarro tinha a certeza quase absoluta que tudo ia correr bem, uma vez que o Li pôs o motorista e o Xiaoling ao telefone de forma a combinar o nosso encontro.

A viagem ligou Chengdu a Lin Qi, isto apesar de ter bilhete para Lu Ding. Durante o tempo que durou a viagem (sensivelmente sete horas e meia) aproveitei para escrever no caderno e ao observar a paisagem fui registando o que via: cidades literalmente no meio da vegetação e socalcos de Youcaihua, a planta amarela que está espalhada por toda a província de Sichuan e cujas sementes são utilizadas para fazer óleo de culinária. Quando saímos da auto-estrada a via piorou substancialmente – curvas, buracos, buzinadelas, pessoas a vomitar, o rio e laranjais intermináveis.

Quando cheguei a Lin Qi o Xiaoling entrou dentro do autocarro para me apanhar e eu saí com ele. 🙂 Foi nesse momento que olhei em volta e vi que estava mesmo… numa pequena vila no interior da China profunda.