Uma Geografia. Uma Fotografia: Mayon

Depois da visita a Donsol e ao reino dos simpáticos e dóceis gigantes, era altura de rumar ao norte da iha de Luzon. Bem cedinho rumei até Malabog, onde visitei as ruínas de Cagsawa e encontrei… o bonito, aliás o espetacular e praticamente simétrico cone do vulcão Mayon a dominar a paisagem! Aí, passeei um pouco no meio daquela paisagem rural e escaldante. Os arrozais, os camponeses, os riachos e cursos de água, as vacas e os búfalos, as palmeiras, os verdes campos, os trilhos de areia negra. Tudo isto, com o vulcão como pano de fundo. Perfeito…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Coron

Coron

Nos arredores da ilha de Coron, tive dois dias de mergulho intenso num ambiente pesado e sombrio de navios japoneses afundados durante a Segunda Guerra Mundial e aí senti um nervoso acrescido por ter entrado pela primeira vez debaixo de água, em espaços realmente confinados. Neste mundo submerso, senti o lado “negro” do mergulho, principalmente no navio Irako onde atingi a minha profundidade máxima -trinta e oito metros e meio. Porém, mesmo naquele mundo de trevas, existia luz e sempre que esta penetrava pelas frinchas e buracos existentes naquelas estruturas de aço gigantes, parecia que estava numa catedral sub-aquática! Fenomenal! Inesquecível! Para além disso, observar “algo” feito pelo homem, onde se pode ver vestígios da sua presença – as cargas inalteradas dos navios afundados – e onde ainda existem componentes que funcionam, tais como válvulas e torneiras, é algo de inolvidável. Na ilha, para além desses mergulhos míticos, tive serões animados, regados a rum e cola, na companhia dos meus companheiros de viagem e de dois engenheiros Irlandeses; vi procissões noturnas onde as velas dos fiéis iluminavam e espalhavam uma luz mortiça pelas ruas escuras da vila; visitei de barco uma praia de sonho, rodeada de rochas mágicas, negras como o breu e repleta de águas cristalinas e transparentes que brilhavam como safiras e esmeraldas; tive um delicioso jantar festivo onde o caranguejo e o camarão foram reis e senhores; e tive um reencontro com o passado… Numa daquelas noites festivas, ao sair dum bar na companhia de Arnold  gerente de um resort que trabalhava na ilha – encontrámos um nativo, que o conhecia e que nos convidou a ir até ao cemitério, para fazer uma homenagem fúnebre. Arnold imediatamente e de uma forma rude, declarou que não ia, mas eu naquele momento senti algo que me impeliu a acompanhar o nativo. Comprei umas velas, ele umas cervejas, montámos um tuk-tuk e quando estávamos prestes a partir, o Arnold acabou por se dignar a acompanhar-nos. Na escuridão da noite, seguimos estrada fora e depois de uma viagem que não sei precisar quanto demorou chegámos à entrada do cemitério. Aí, passo a passo e silenciosamente, penetrámos naquele espaço vasto, negro e sereno, até chegarmos à campa. Assim que chegámos, Arnold deitou-se na campa do lado e adormeceu pesadamente. O seu ressonar competia em decibéis, com a pirosa música de discoteca que era projetada pelo seu telemóvel. Como estátuas de mármore e alheios a esse facto, acendemos uns cigarros e as velas, abrimos as cervejas e fizemos uma homenagem fúnebre e sentida à sua esposa e ao seu filho – que tinham falecido há um ano. Depois desse momento, dentro de mim, algo se quebrou. Repentinamente, lembrei-me do meu pai e das saudades que sentia dele. Longe de Portugal, longe de todas as pessoas que conhecia, um pouco tocado pelos copos bebidos e sem filtros e barreiras de espécie alguma, comecei a chorar… De joelhos agarrado àquela campa, larguei um peso que carreguei durante quase dezassete anos. Chorei, chorei, chorei. Chorei baba e ranho. Chorei durante largos minutos e não houve nenhum travão que parasse as lágrimas. Apenas quando senti uma leveza a ressoar dentro de mim, parei. Nesse momento, passei as mãos pelos olhos, desajoelhei-me e abracei o nativo. Naquele cemitério perdido das Filipinas, dois “orfãos” de lados opostos do nosso planeta, foram irmãos durante momentos. Juntos partilharam uma dor comum. A dor da perda e juntos reencontraram um calor e uma luz humana, que aqueceu e iluminou a escuridão da noite e o frio da morte…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Ilhas Cuyo

Solitário

Depois dos dias passados em Boracay, tentei seguir para a ilha de Coron, porém e como apenas existia barco para dali a três dias, improvisei um plano alternativo partindo para a ilha de Palawan. Na longa travessia marítima que separou Iloilo e Puerto Princesa, acabei por realizar uma agradável paragem na bonita e tranquila ilha de Cuyo, que psicologicamente fez uma enorme diferença, pois permitiu aliviar todo aquele tempo passado a bordo…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Makassar

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Makassar aparece nesta Geografia como ponto de ligação entre as ilhas de Java e Sulawesi e se na primeira cheguei via aérea, desta feita iria partir via marítima. Às 5.30 já estava na zona do porto e durante horas fui escrevendo no caderno até embarcar às 11.30, sendo o único momento de pausa, a compra de mantimentos. O barco era gigantesco e inicialmente não consegui perceber onde era o meu poiso, pois andava à procura de um camarote de segunda classe, quando afinal o que tinha era um bilhete para a classe económica! Como não era isso que esperava, fiquei chocado com a “suite” que encontrei – uma cama nas profundezas do navio – e rapidamente, depois de largar a bagagem, pus-me a mexer daquele cafunfo quente e escuro! Sem grandes dúvidas, tomei a decisão de tentar encontrar um local agradável para passar as minhas próximas vinte e quatro horas… e felizmente no topo do navio, encontrei um cafezito agradável que passou a ser a minha casa e por aí fiquei a escrever durante horas a fio. Apenas voltei à masmorra do dragão, para ir buscar comida e dormir por volta das 21.00. Quando me deitei, estava um calooooooor dos diabos e nesse momento, não pude deixar de pensar “que m$%#& de sítio!”  Apesar do colchão não ser mau de todo, o calooooooooor era… sufocaaaaaaante! Uma autêntica sauna! Mas de borla! Levantei-me às 5.15, acordado pelos cânticos da mesquita do barco, mas depois percebi que devido à diferença horária entre a ilhas de Sulawesi e Java, eram afinal 4.15! “Ora bolas!” De qualquer modo, como estar deitado no “cafunfo/masmorra/sala de tortura” não me fascinava, aproveitei para regressar ao meu porto de abrigo, o “abençoado” cafezito. À semelhança do dia anterior, permaneci no local horas a fio e aí vi o nascer do dia, tomei o pequeno almoço e continuei a escrever até acabar de atualizar o caderno. Quando acabei essa “tarefa”, o sol brilhava no céu azul e até chegar a Surabaya estive sem fazer nada de especial, descendo ao cafunfo para recolher a bagagem. Nesta viagem, até o desembarque que eu aguardava ansiosamente, foi MAU! Assim que as portas abriram, começaram a entrar pelo barco adentro pessoas a correr desalmadamente e nós, as pessoas que queríamos sair, tivemos que esperar que aquela torrente abrandasse! Enfim o pandemónio! E eu que já estava satisfeitíssimo com toda aquela viagem “paradisíaca”, quando sai do barco e pisei o solo da ilha de Java estava com um “sorriso estampado nos lábios”. Esta foi de looooooooooooonge a pior viagem de toda a Viagem!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Gunung Merapi

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O Gunung Merapi foi o único vulcão que teve duas ascensões, uma pela “face errada” e outra pela “face certa”. Cada uma delas teve os seus percalços e momentos belos, cada uma delas iniciou-se de noite e realizou-se em rampas muito inclinadas. Na ascensão pela face certa, não foram necessárias muitas horas para chegar ao pico, mas foi preciso alguma estamina e endurance, principalmente depois de chegarmos ao último posto de controlo de atividade vulcânica e na zona em que a ascensão se fez numa rampa hiper inclinada de areia muito densa, pesada e escorregadia em que o mote era: “dois passos para a frente e um para trás”. Nessa altura, cheguei a pensar se iria conseguir chegar ao topo, mas passo a passo, lá fui avançando até chegarmos a uma zona de rocha firme, onde o caminho se tornou mais acessível. Quando atingimos a zona da cratera eram quase 5.00, e se durante a noite apenas se via o que a lua e as estrelas iluminavam, à medida que os minutos foram passando e o dia vencendo a noite, começámos a ver a plenitude do local. E o mesmo era belo! Muito belo! A cratera, com os seu fumos que corriam no céu azul e se fundiam com algumas das nuvens existentes, as nuvens cheias de cor e densidade – existia uma que se assemelhava a uma explosão atómica, tal a sua densidade – o sol a despontar e banhar a face de dourado, e com isso o castanho e o negro das rochas destacaram-se, os verdes nos vales em nosso redor, a grandiosidade da montanha Merbabu, à nossa frente! Espetacular! E tal como no Rinjani, fiquei com a certeza que adoro vulcões e as suas belas paisagens naturais.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Danau Sentarum

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Aquando da minha estadia em Lanjak, tive direito à minha incursão ao Danau Sentarum, sendo esta uma experiência deveras singular, uma vez que nunca tinha andando de mota dentro de um lago! A vastidão daquela paisagem surreal e assombrosa, transportou-me ao cenário de um “deserto” de lama. Na companhia de Safary fiz motocross com uma moto de estrada, aliás, ao longo do dia fizemos “patinagem” na lama. No topo de uma das colinas, da ilha de Semitau pude observar uma panorâmica do lago: as rochas, as zonas secas, as “ilhas” de árvores e fiquei estupefacto por observar o lago em plena época das chuvas, tão seco!! – ainda dizem que não há aquecimento global!? Ainda nesse dia, fizemos uma incursão a uma vila piscatória, onde as casas estavam construídas sobre estruturas de madeira, podendo ser casas flutuantes – como se de barcas se tratassem -, atravessámos riachos barrentos, vimos peixes a secar, outros mortos e em decomposição, nativos a pescar… no dia seguinte, em que a paisagem estava mais realçada fruto do sol e do céu azul, conseguimos chegar à ilha de Malaiu mas para isso, tive que desmontar do nosso “corcel” várias vezes. Nesses momentos, em que andava de pé descalço na lama mole e quente – por vezes enterrado até aos joelhos -, senti-me bem… senti-me feliz e livre! Estava fascinado com aquela paisagem, com aquele enoooooooooooooorme lago sazonal, situado no coração do Bornéu.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Lanjak

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Em Lanjak o denominador comum daqueles dias foi a boa disposição. No primeiro dia, fui até à aldeia de Souah, visitar uns amigos de Doni no meio de um arrozal e no regresso à vila, acabámos de organizar toda a logística necessária para o término do torneio de futebol no qual a equipa de Putussibau acabou por se sagrar campeã. Esse dia, terminou com uma festa noturna no arrozal, bem regada com o tradicional tuak – vinho de arroz – e comigo a conduzir a carrinha no regresso! Em Lanjak tive a oportunidade de conhecer Oscar, um orangotango bebé de nove meses ainda muito frágil e delicado, e de participar noutra festa, onde houve um gigante peixe grelhado e karaoke regados com cerveja a rodos, animação, cantorias e alegria…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Putussibau

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À medida que me aproximava do meu destino, depois de uma maratona de autocarros – praticamente 24 horas em andamento – começou a chover, sentindo-se um intenso odor a terra molhada. O embalo do autocarro fazia-me quase, quase adormecer, até que ao passar por pontes de madeira os solavancos me faziam saltar do lugar – bump, bump! e na paisagem, viam-se pequenas aldeias e povoações, onde a maioria das casas estavam construídas sobre estacas e onde o acesso era feito por passadiços de madeira. O dia em Putissabau, foi um dia lento e de compasso de espera, porém como tinha contactos da ONG, WWF, passei por lá para conhecer os responsáveis daquela delegação – Albertus e Hermas – e saber detalhes acerca das áreas de intervenção…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Singkwang

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Em Singkawang encontrei-me com Supriadi, um professor de inglês e se inicialmente, contava ficar três dias, acabei por ficar uma semana! E quais os motivos que me levaram a ficar? O calor humano, o carinho e a amizade com que fui recebido, por aquelas pessoas maravilhosas. Durante aqueles dias, que vivi verdadeiramente na cidade, recordo especialmente vários momentos: os instrumentos de música tradicional – Dayak – que vi e que ajudei a pintar; os longos serões que passei a jogar PES 2013 e a conversar; as vezes que fui ao mercado com Teti e que cozinhei com ela; os muitos cafés e cappucino´s deliciosos que bebi; mas principalmente, o facto de me ter tornado um “guru da motivação”, quando ao visitar várias escolas, tentei deixar os alunos com vontade de aprenderem inglês. Em Singkawang fui verdadeiramente FELIZ! E aceitei de vez, o facto de visitar poucos locais em Kalimantan, mas ter experiências que valem-se realmente a pena!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Pontianak

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Na chegada ao aeroporto de Pontianak, para evitar os taxistas locais e os seus preços inflacionadíssimos, comecei a caminhar em direção à cidade, acabando por ser bafejado pela sorte, uma vez que apanhei boleia com Surat  um senhor que trabalhava como engenheiro, na manutenção de aviões – para o centro. Para além da boleia, Surat ajudou-me a encontrar um hotel barato e levou-me a tomar o pequeno-almoço no Hajis  um afamado local da cidade, principalmente pelo seu Rujak Juhi. Junto ao rio, a minha boa sorte continuou, uma vez que no cais conheci Theresia e umas amigas, com quem fui até ao Tugu Khatulistiwa  monumento do local, onde fica a linha do equador, tendo nesse momento tido a oportunidade de ter um pé em cada hemisfério do nosso planeta. No regresso ao centro, encontrei-me com Awi, com que visitei uma casa tradicional da tribo Dayak e ao falar sobre Kalimantan comecei a perceber, que o meu plano de cruzar a ilha de costa a costa – Oeste a Este – era demasiado ambicioso. Naquela tarde tranquila, enquanto procurava um local com internet, a sorte e as boas estrelas mantiveram o seu rumo, pois ao conhecer MS. – um simpático rapaz que me deixou usar a sede do seu partido político – ele prontificou-se a ajudar-me a apanhar o autocarro para Singkwang durante a madrugada. Entretanto, como combinado fui jantar com o Awi e fiquei com a certeza que a cidade de Pontianak, pode não ser um destino turístico por excelência, mas que comida deliciosa essa, existe em abundância! Sentindo que para além da sua gastronomia vibrante, a cidade pulsa de vida e movimento…