Entrevista Integral de Quirino Tomás à Revista Digital “A Próxima Viagem”

Bagan

1. Com que idade surgiu o teu gosto pelas viagens? Lembras-te da tua primeira viagem, possivelmente com os teus pais ou outros familiares… Onde foi e com que idade?

Apesar das recordações do tempo de infância serem nebulosas, tenho memórias de um Peugeot 504 azul céu metalizado e tejadilho de abrir e nas deambulações que fiz com a minha família. Tenho a certeza que muito da pessoa que sou hoje, teve origem nos genes que herdei dos meus progenitores e nessas primeiras viagens. Mas mais que essas memórias de infância, o momento chave  foi plantado quando tinha catorze anos de idade. A minha irmã mais velha estava na faculdade e decidiu realizar um InterRail com o namorado. Felizmente, tive a sorte dela ter prometido um dia, que me levaria à Disneyland e fruto dessa oportunidade, acabei por seguir com eles de comboio até Paris, sendo posteriormente recambiado para Portugal de avião, com a semente adormecida dentro de mim.

2. E quando passaste a levar mais a sério esta paixão?

Já nos tempos de faculdade, depois de ter realizado primeiro um “intra-rail”  – viagem de comboio pelo Centro e Norte do país e posteriormente 2 Interrails em geografias diferentes da nossa Europa.

3. Durante 16 meses viveste na Ásia. Foi quando e como surgiu essa ideia? Como correu a experiência? Histórias mais marcantes.

Depois dos Interrails, digamos que mentalmente o passo óbvio era realizar uma Grande Viagem, porém depois de ter concluído a faculdade apesar de desejar loucamente viajar, não tinha dinheiro para um projeto dessa envergadura. Assim trabalhei e poupei durante 3 anos com o objetivo de realizar uma “Odisseia”. A ideia inicial era conhecer a América do Sul e Central, mas depois de me focar no mapa mundo, “percebi” que a chave estava no meu extremo oriental anterior, foi assim que reformulei toda a ideia da Odisseia, iria realizar por terra uma travessia entre Istambul e Pequim. Como no início da travessia Turquia – China iria passar pelo Irão e Paquistão, antes de chegar à Índia e ainda estava muito verde em questões de viagem, e tendo em conta as preocupações maternas acabei por condescender e inverter o percurso, sendo o trajeto final Pequim – Istambul.

 4. Como correu a experiência?

Em poucas palavras, posso afirmar que esse foi até ao momento, o melhor Ano da minha vida, e que foi um período infinitamente transformador, que me fez aprender e crescer imenso. Lembro-me de nesse período dizer muitas vezes à minha família, que se por acaso morresse na altura, morreria um “homem” feliz.

Inle Lake

 5. Histórias mais marcantes.

Podia estar aqui a escrever durante meses, que haveriam infinitas estórias para contar. 🙂 Mas guardo com especial carinho, as dificuldades iniciais de viajar na China, sentindo-me um autêntico analfabeto, que nem sequer tinha a noção na maioria das vezes se estava a viajar na direção “certa” – a total alienação do espaço; uma noite passada numa tenda com humildes construtores, numa das  montanhas sagradas para os taoistas, na China; as múltiplas e extenuantes caminhadas que realizei em montanhas, vulcões, selvas e florestas independentemente da latitude e longitude; presenciar o nascer do astro rei em múltiplas montanhas e vulcões; adormecer embalado pelo som profundo de cânticos budistas num mosteiro perdido numa montanha chinesa; os múltiplos jantares com chineses, indonésios e timorenses; uma noite de “copos” num arrozal no Bornéu Indonésio; mergulhos que pareciam saídos do Mundo da “National Geographic” tal a diversidade de vida marinha; viver durante um mês com uma família timorense; durante uma semana fazer aulas motivacionais com alunos indonésios; subir ao topo da Montanha Kinabulu e descer em 9 horas, e no dia seguinte estar fisicamente de rastos; perder-me na selva do Bórneu; correr sério risco de vida num mergulho no Parque Natural de Komodo ao largo da ilha das Flores; o “desespero” inicial em longas esperas em múltiplos autocarros coletivos e com o passar do tempo a “tranquilidade” adquirida; o riso das crianças, a serenidade dos anciões e a simpatia e honra da grande maioria dos habitantes locais…           

6. Sei que a ideia era chegar da Índia à Turquia. O que aconteceu para a viagem ter ficado a meio?

Aquilo que pode acontecer numa viagem, ter um plano inicial geral que é flexível e que depois se tal fizer sentido, ser alterado. Se a natureza e a vida são flexíveis e estão em constante mutação, como é que uma viagem de longa duração não segue as mesmas “regras”? 🙂 Tens toda a razão quando referes que não cheguei ao “destino final”, Istambul, mas hoje em dia, a sociedade foca-se demasiado na conclusão, no destino e perde o mais importante – a transição, o que se vive pelo meio, no fundo, a viagem…             

7. Perdeste-te na selva da ilha do Bornéu e correste perigo de vida. O que aconteceu e como conseguiste dar a volta?

Estava a caminho de um encontro com uma tribo seminómada e fruto de uma descrição demasiado vaga optei por um determinado caminho. Depois de 15 minutos a caminhar selva adentro percebi que afinal o caminho/trilho que pensava ser o correto estava errado. Claro que nesse momento o choque de adrenalina foi brutal, e durante uns 30 segundos o meu cérebro/mente apenas me “davam ânimo” algo do género: “Vais morrer aqui! Estúpido! Se não tinhas a certeza relativamente ao caminho, porque seguiste em frente!? Vais morrer aqui! Ninguém te vem procurar! Ninguém sabe que estás aqui! Não te vão encontrar! Vais morrer aqui!”. Um mimo, portanto! 🙂 À medida que o meu cérebro em stress estava neste processo destrutivo, o meu lado racional tentava manter a calma e o controlo. Respirei fundo um bom par de vezes e acalmei a mente, no minuto seguinte já estava a olhar para uma bússola (que tinha sempre comigo e que por acaso, e apenas por instinto consultei antes de enveredar pelo trilho que me tinha levado a tal desfecho). Depois, bem… foi o processo “óbvio” se tinha vindo de determinada direção só tinha de caminhar na direção contrária. Claro que falar agora é fácil, o que demorou 15 minutos a caminhar inicialmente demorou cerca de uma hora a percorrer em sentido contrário. Uma vez que só tinha uma “linha imaginária” para seguir, ainda para mais num terreno muito acidentado, cheio de “alçapões e ratoeiras”, plantas espinhosas, uma densidade de vegetação que se assemelhava a uma muralha, árvores, galhos e ramos podres que cediam facilmente e que não ofereciam um apoio seguro, desníveis de terreno que surgiam sem aviso, enfim… fisicamente, mentalmente e emocionalmente desgastante… extenuante. A verdade é que passado esse tempo cheguei a bom porto, acabando por encontrar o trilho inicial, do qual nunca deveria ter saído e de ter conseguido chegar à aldeia da tribo seminómada que tanto desejava encontrar.

Laos

8. Também correste perigo de vida a fazer mergulho na Indonésia. O que aconteceu e como conseguiste “aguentar-te”?

Durante uma aula de um curso de aperfeiçoamento de mergulho,  algures no meu trigésimo – felizmente já com um pouco de experiência – fui apanhado e separado do meu instrutor por uma corrente descendente fortíssima que me arrastou num ápice dos 5 para os 17 metros de profundidade. Felizmente naquele local havia uma parede de coral e apesar de saber que não se devia tocar na mesma (por questões de conservação ambiental) agarrei-me à mesma como uma lapa, uma vez que o meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Nesse momento tive de acalmar-me ao máximo e respirar fundo um par de vezes até a adrenalina baixar um pouco e a racionalidade voltar a imperar, afinal naquele ambiente o ar não é infinito e o cérebro tem de tomar algumas decisões acertadas. A solução encontrada na altura, foi escalar – literalmente – a parede de coral para sair daquele ambiente hostil e demoníaco. Cheguei ao topo com alguns cortes e marcas deixadas pelo veneno de algumas espécies de coral, mas o principal objetivo foi conseguido, sair dali vivo e ileso.      

9. Houve mais alguma situação em que tenhas estado em grande perigo?

Felizmente não, pelo menos nada que se assemelhe às situações descritas anteriormente.                 

 10. Sabes em quantos países já estiveste? Algum país preferido, qual?

Deixei de contar países, talvez entre os 30/40, honestamente não sei. Penso que na nossa sociedade se dá demasiado valor à quantidade. A questão para mim é… as pessoas até podem ter estado em “1000” países e só visitar 2/3 cidades desses mesmos países, será que podem afirmar que conhecem realmente esses locais!? Quanto a um país preferido, não tenho UM país, mas posso dizer que gostei de muitos momentos vividos tanto em Mianmar – pela sua vastíssima e riquíssima cultura, em que cada cidade já foi capital de algum império em dado momento da história; e a genuinidade dos seus habitantes – como na China – onde redescobri o gosto pelas caminhadas e pela natureza – e Indonésia – onde mudar de ilha, era como mudar de país.

11. Algum país que não tenhas gostado nada?

Digamos desta forma, não no seu todo, mas não gostei da experiência no sul da Tailândia. Apesar de algumas praias e ilhas de sonho, foi o local onde realmente me senti apenas “um saco de dinheiro ambulante e andante”.

Crianças em Mianmar

12. Li numa entrevista tua de 2016 que não tinhas smart phone. Continuas igual?

Hoje em dia, já me rendi à “fatalidade” (riso) de um smartphone. O meu trabalho assim o obriga.

 13. Comidas mais estranhas que comeste. Comes de tudo ou tens algum cuidado?

O afamado Balut nas Filipinas e golfinho foram as comidas mais estranhas que comi. E sim tendencialmente como de tudo, mas de preferência comida feita na hora, é sempre mais seguro e existe uma probabilidade mais reduzida de se apanhar “algo”.  

13. Fala-nos por favor do teu projeto Hike Land. Onde operam e quais as vossas principais atividades?

A Hike Land é o meu projeto pessoal mais recente e a minha extensão profissional. Somos uma empresa de animação turística que se dedica à exploração das zonas de Portugal mais desconhecidas e selvagens, sendo a nossa pedra basilar a organização de caminhadas e viagens/atividades que englobem a componente de pedestrianismo e aventura. Neste momento inicial, operamos sobretudo em Portugal Continental e Ilhas, o objetivo para o futuro é realizarmos atividades com uma forte componente de pedestrianismo extra-fronteiras.

14. Tens outra ocupação para além do projeto Hike Land?

Neste momento estou dedicado de forma integral à Hike Land e ao seu crescimento.

Serra da Estrela

15. Qual a viagem de sonho que ainda não fizeste?

A minha viagem de sonho está feita, foram os 16 meses na Ásia. A partir daí e sem pressões quero continuar a viajar ao longo da minha vida, independentemente de ser no estrangeiro, ou em Portugal, este paraíso à beira-mar plantado e tenciono fazê-lo de preferência a Caminhar. Afinal os andarilhos/caminhantes são pessoas de bem com a vida, com a natureza e cujo espírito curioso e benevolente, lhes permite fruir das coisas mais simples e belas: o nascer e o pôr do astro rei, a bruma que voa entre vales e montanhas, os rios que correm, o fragor das cascatas, picos imponentes coroados de luz e sombra, árvores intemporais, aves graciosas que voam nos céus, o som de folhas a restolhar e galhos a quebrar sob o peso dos seus passos e a leveza do seu espírito… os andarilhos são os reis do silêncio e do vazio, chegando onde ninguém consegue chegar e onde os seus passos os levam, percorrendo as distâncias que separam a realidade do sonho.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Mandalay

Mandalay, outra das capitais do reino da antiga Birmânia é mais uma cidade repleta de templos, mosteiros e pequenos detalhes de encher os olhos e a memória. Desde as múltiplas singularidades que existem nos numerosos templos da colina da cidade, e de onde se pode observar a cidade do alto, bem como os seus arredores: os verdes campos, os montes, as árvores, o rio, os templos, as estupas, as pagoda; o Palácio de Mandalay que é mais interessante no exterior, dada a dimensão do perímetro da sua muralha do que propriamente a zona turística interior que é minúscula e pouco interessante; o calor que se sentia nas ruas e que se colava à pele; a torre do relógio e o mercado de Zaycho; o templo de Maha Myat Muni, o mais importante e imponente da cidade, onde pude observar o contraste entre as incontáveis bancas de venda de quinquelharia e a zona dos artesãos que fabricam autênticas peças religiosas; o mosteiro de Shwe In Bin e a sua intricada estrutura exterior em madeira, verdadeiramente bela e singular;  o incessante movimento da cidade; e… o espetáculo semi burlesco e com uma enorme componente política e de resistência ao regime dos Mustache Brothters.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Suaya

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Depois de um dia memorável no universo místico dos Tana Toraja, a chegada a Suaya foi marcada pelo acaso e pela “fortuna”, uma vez que que me deparei com um funeral! À minha frente, encontrei uma vasta multidão vestida de negro e um búfalo a ser desmembrado, em frente a um caixão que se encontrava no segundo andar de um palanque. Fiquei estupefacto! Avancei funeral adentro e a primeira coisa que notei foi a consistência pastosa do sangue que se espalhava pelo solo. Discretamente, coloquei-me afastado do centro, fazendo a partir desse local as minhas observações até ao momento que houve outro sacrifício, e recebi autorização para tirar fotografias. Enquanto várias pessoas atavam o búfalo com uma corda e o forçavam a deitar no solo. À minha frente, uma faca afiada penetrou a carne do animal, o pescoço foi cortado e num segundo, a traqueia foi dilacerada, o sangue começou a jorrar aos brobotões, acumulando-se e fazendo espuma. De vez em quando, o animal mexia-se silenciosamente, os olhos foram perdendo brilho e luz, a vida foi abandonando o seu corpo e a sua morte serviu para honrar o falecido ancião. No decorrer dessa tarde, fui convidado a assistir à continuação do funeral – para os Tana Toraja, os funerais tradicionais duram em regra três dias, e o dia seguinte seria o segundo dia de festividades e também o mais importante. Nesse momento, estava verdadeiramente feliz, não só tinha encontrado um funeral – a tradição maior dos Tana Toraja -, como sido convidado para assistir ao mesmo! A partir desse momento, fiquei na companhia da família do falecido ancião, as horas foram passando e pude observar todo o ambiente envolvente: o som de alguns foguetes, os homens envoltos em sarongs negros, a sonoridade profunda do mamodang  cântico fúnebre em honra dos mortos; fumando e apreciando a grande oportunidade que estava a ter para aprender mais sobre aquela tribo.

Na manhã seguinte foi-me explicado que o búfalo sacrificado no dia anterior tinha-o sido à maneira muçulmana e que aquela não era a forma tradicional. Entretanto, foram aparecendo progressivamente mais pessoas, as crianças envergavam trajes tradicionais – os rapazes listas verticais vermelhas e lenços na cabeça e as raparigas vestidos brancos decorados com rendilhados de missangas. Sem aviso prévio, foram sacrificados mais dois búfalos, desta feita, de modo tradicional – o búfalo assente na suas quatro patas, recebe uma pancada seca com uma faca muito afiada no pescoço, e tal como no dia anterior, sangra até à morte. É sem dúvida uma tradição sangrenta! Mas é cultural e nós nos países ibéricos temos touradas por isso… e tal como em Lamalera, os animais são mortos por motivos perfeitamente válidos. Ao longo da manhã, a cerimónia continuou: música tradicional com flautas, desfiles de pessoas conduzidas pelo mestre de cerimónias, crianças trajadas, pessoas a fumarem, rirem e conversarem. O funeral é uma grande mescla de reunião familiar e romaria popular, sendo o ambiente geral, alegre mas respeitoso. Para além de ter tido a feliz oportunidade de ter presenciado tudo isto e ter continuado a conversar com muitos dos presentes, fui fazer umas pequenas explorações nas imediações, onde encontrei uma caverna cheia de ossadas, caixões e estátuas. Já de regresso à cerimónia fúnebre, subi ao local de honra onde estava o caixão e fiz uma oferta – monetária – à viúva e depois de almoço voltei a Rantepao numa carrinha de transporte de animais, que me pareceu o veículo apropriado… 🙂 mas antes de partir, ainda me consegui despedir da família que me acolheu. Terima Kasih – obrigado -, foi um privilégio e uma honra ter assistido ao funeral do vosso avô. 😀  

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kawah Ijen

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Em Kawah Ijen, conheci Mr. Bain, que ao longo da noite revelou ser um dos melhores guias que tive no país e possivelmente em toda a viagem, e me levou a percorrer três quilómetros, sempre a subir em direção à cratera em ritmo Plan Plan”  devagar. Já na zona da cratera e a partir do local onde nos encontrávamos vimos ao longe um fogo azul bruxuleante, fruto da extração do enxofre. Entusiasmado, segui Mr. Bain, cratera abaixo e nessa altura recebi uma máscara, do género “Darth Vader” para suportar o fumo e os gases tóxicos – caso necessário. À medida que nos aproximámos, as chamas eram cada vez maiores e em redor, vi algo único e singular à minha frente… fogo azul a arder, no meio da escuridão! Espetacular! Belo! Na altura, em que observava aquele “fogo de artifício” natural, tive bastante sorte pois o vento estava a soprar o fumo noutra direção, ou será que não foi sorte, mas antes um feitiço de Mr. Bain, o feiticeiro branco do Ijen!? No caminho de regresso ao topo da cratera, vi alguns grupos de turistas a descer qual uma centopeia luminosa e senti-me muito satisfeito pois enquanto os outros grupos estavam a caminho, eu já estava a regressar. De regresso ao topo, fomos para um ponto mais elevado e aí, no silêncio quase absoluto da noite, vimos o progressivo aparecimento da luz do dia, as chamas azuis a arderem, o fumo a sair da cratera, o lago azul a ganhar cor, as estrelas a desaparecerem e o vulcão a passar do negro absoluto para vermelhos e castanhos! Belo! Belíssimo! Grandioso! E se o vulcão Bromo no dia anterior, já tinha sido monumental, o Ijen nesse dia deu “cabazada”. No regresso, o amanhecer estava carregado de cores suaves, e na despedida pude encontrar outros vulcões em redor, entre eles o Gunung Raung, que na primeira vez que estive em Yogyakarta, fez kabuuuuuuum! Obrigando-me a seguir mais cedo do que o previsto para a ilha de Kalimantan. Na despedida de Java posso afirmar que a ilha é de facto abençoada, pelos deuses dos vulcões e o Kawah Ijen um local magnífico. Observar as chamas azuis noturnas, foi sem dúvida, uma das MAIORES experiências que tive na Indonésia e em toda a viagem… e se existe algum lado negro a apontar, só posso referir a face “social” do vulcão e dos homens que carregam cestos de aproximadamente oitenta quilogramas de enxofre aos ombros e costas, mais do que uma vez por dia… recebendo cerca de 0,50€ por cada kg transportado! Trabalho pesadíssimo, que não dá saúde a ninguém…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Yogyakarta

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Yogyakarta é o coração da pulsante cultura Javanesa e nos seus arredores pude visitar o templo hindu de Prambanam, ficando a saber que quem faz a exploração deste templo, assim como o budista de Borobudur é uma empresa privada! Diga-se, que esta situação é demonstrativa da corrupção existente no país, uma vez que o património público está a ser explorado em benefício de privados. Uma vergonha! Relativamente ao complexo de templos propriamente dito, o principal deles é de facto impressionante em termos de área e construção “sólida”. Para além da visita, na zona em redor também tive a oportunidade de assistir a um espetáculo de bailado/ballet Ramayana e o mesmo valeu bastante a pena, residindo a sua beleza nos gestos dos bailarinos – ora delicados e precisos, ora mais enérgicos – na iluminação, nos trajes, na voz do narrador em sânscrito e no som dos diferentes instrumentos musicais. No centro da cidade visitei o museu Vredeburg – antigo forte holandês – que na atualidade é o museu da história da Independência da Indonésia -, o bonito Keraton, palácio do sultão, onde voltei a observar um espectáculo de dança javanesa e o agradável museu Sonobudoyo onde assisti pela primeira vez a um espetáculo de marionetas – Wuyang Kulit. Já no interior da sala, a performance destas marionetas e o ambiente envolvente – o som dos instrumentos de percurssão, as vozes femininas e a do narrador, os gestos lentos e delicados do “jogo” de sombras – transportaram-me para um mundo mágico, mítico e mitológico de Deuses e Deusas do Oriente.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Singkwang

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Em Singkawang encontrei-me com Supriadi, um professor de inglês e se inicialmente, contava ficar três dias, acabei por ficar uma semana! E quais os motivos que me levaram a ficar? O calor humano, o carinho e a amizade com que fui recebido, por aquelas pessoas maravilhosas. Durante aqueles dias, que vivi verdadeiramente na cidade, recordo especialmente vários momentos: os instrumentos de música tradicional – Dayak – que vi e que ajudei a pintar; os longos serões que passei a jogar PES 2013 e a conversar; as vezes que fui ao mercado com Teti e que cozinhei com ela; os muitos cafés e cappucino´s deliciosos que bebi; mas principalmente, o facto de me ter tornado um “guru da motivação”, quando ao visitar várias escolas, tentei deixar os alunos com vontade de aprenderem inglês. Em Singkawang fui verdadeiramente FELIZ! E aceitei de vez, o facto de visitar poucos locais em Kalimantan, mas ter experiências que valem-se realmente a pena!

Uma Geografia. Uma Fotografia: LaClubar

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Em Baucau reencontrei o Irmão Vitor e com ele segui por uma paisagem muito verde, por entre vales e montanhas até chegarmos à vila de Laclubar. Durante os cinco dias em que estive na pacífica e tranquila Laclubar, senti que estava a fazer uma pausa dentro da viagem e aí, tive a oportunidade de parar um pouco, antes de recomeçar o ciclo do movimento. Tive por isso, a rara oportunidade de estar “fora do mundo, dentro do mundo”. Durante os dias, conheci as diferentes seções que compõem o Centro de Apoio à Saúde e as fantásticas pessoas que por lá “habitam”, tanto o staff como os pacientes; pela primeira vez em longos anos tive contacto com literatura cristã/católica; tive múltiplas conversas interessantes com o Irmão Vitor sobre vários assuntos; caminhei o cénico Monte Maubère, donde pude observar panorâmicas da vila e da paisagem envolvente e visitei o concorrido mercado de Domingo, onde comprei um farri  porquito, neste caso uma porquita – para oferecer ao Irmão Vitor/Centro e retribuir assim um pouco, a generosa e inesquecível hospitalidade que me ofereceram.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Baucau

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Nos arredores de Baucau – pode encontrar mais aqui encontrei Yatua, uma pequena aldeia no meio da serra, rodeada de vegetação e coqueiros, e onde cheguei ao anoitecer. Aí, fui extraordinariamente bem recebido e pude sentir uma vez mais todo o calor, simpatia e grande coração do povo timorense, neste caso da família Nicolau. Na aldeia conheci mais membros da família: os pais do Cirilo – o Sr. Joaquim e a Sra. Joaquina, os pais do Gregório – o Sr. Ricardo e a Sra. Isabel, o avô Júlio e mais tios, tias, sobrinhos e sobrinhas – e com eles tive um jantar, e serão muito animados, conversando sobre os nossos países em bom português. Já no dia seguinte e no regresso ao centro de Baucau, tive a oportunidade de observar as tradicionais e sangrentas lutas de galos. Em Timor Leste, estas lutas estão profundamente enraizadas na cultura do país e no mercado, vi a “loucura” que envolve esta tradição. A multidão frenética, o ruído, as apostas, as regras dos combates – vitória em caso de morte ou fuga -, os prémios – dinheiro e galo do perdedor, vivo ou morto -, a arena, os galos garbosos, as lâminas afiadíssimas presas nas patas, a “dança” mortal, os golpes na carne, o sangue espesso, os olhos dos animais no seu último fôlego e a morte a reclamar a vida dos vencidos…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Dili

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A capital de Timor Leste, Díli – pode encontrar mais aqui – ficará para sempre marcada como a cidade em que vivi na casa de Garey e dos seus primos espetaculares  o Cirilo, a Amélia, a Digani, a Jenny e todos os demais… – e onde conheci os outros membros da sua simpática família… a família Nicolau. Com eles tive a oportunidade de aprender muito, muitíssimo sobre o país ao falarmos sobre muitos assuntos: os fatídicos e negros episódios de 1999 relatados na primeira pessoa pelo Sr. Nicolau e com os quais me emocionei – as perseguições, os assassinatos, as mortes, as fugas para as montanhas/colinas em redor da cidade, a fome existente em 2000… -; os motivos que levaram a Austrália a intervir na invasão – exclusivamente económicos!; a evolução bastante positiva que o país tem tido, apesar das dificuldades existentes – sendo a corrupção generalizada um dos maiores entraves ao desenvolvimento sustentado -; o ensino e as dificuldades da adoção do português como língua oficial – principalmente para a geração de transição, que viveu entre o ensino obrigatório da língua indonésia e da língua portuguesa -; o enorme poder detido pela igreja católica e os sonhos, desejos e anseios destas pessoas tão boas e de coração tão grande. Em Díli vivi dias lentos, mas regra geral tranquilos, tirando os momentos surreais que tive quando me desloquei três vezes para aplicar um novo visto na caóticaburocrática embaixada da Indonésia! Antes de partir do país fizemos uma grande festa de despedida e na hora do adeus fizeram-se brindes, tiraram-se retratos, trocaram-se beijos e abraços. Foi uma despedida FELIZ, uma despedida calorosa e emocionante, uma despedida que me ficará para sempre no coração e na memória. Como últimas palavras, quero dizer que foi uma honra e um privilégio conhecer-vos, quero por isso deixar um agradecimento muito profundo e especial a toda a família Nicolau, a família que me abriu as portas da sua casa, do país e que me fez sentir durante o tempo que estive em Timor Leste, não um mala´e – estrangeiro -, ou um turista, mas sim mais um membro da família Nicolau. BARAK OBRIGADU!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Kefa

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Na cidade de Kefa – pode encontrar mais aqui – conheci o Sr. Jorge, um senhor muito sereno, que era simultaneamente tradutor e guia turístico. Depois de uma conversa profícua, acordámos que ele me transportaria até à fronteira com Timor Leste junto ao enclave de Oecussi, ajudar-me-ia a arranjar dólares e durante a minha estadia na cidade seria simultaneamente meu guia e ojek.  Na manhã seguinte, na sua companhia rumei à pequena aldeia de Bitauni, onde visitei uma gruta/santuário, que albergava uma estátua de Cristo. Na gruta, a escuridão não era total pois existia luz natural que penetrava por algumas frinchas, existiam morcegos a voar e no ar sentia-se um odor pesado às suas fezes. Em frente à estátua da Nossa Senhora e do Redentor, o Sr. Jorge acendeu umas velas e rezou durante alguns momentos, enquanto eu observava silenciosamente.