Uma Geografia. Uma Fotografia: Makassar

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Makassar aparece nesta Geografia como ponto de ligação entre as ilhas de Java e Sulawesi e se na primeira cheguei via aérea, desta feita iria partir via marítima. Às 5.30 já estava na zona do porto e durante horas fui escrevendo no caderno até embarcar às 11.30, sendo o único momento de pausa, a compra de mantimentos. O barco era gigantesco e inicialmente não consegui perceber onde era o meu poiso, pois andava à procura de um camarote de segunda classe, quando afinal o que tinha era um bilhete para a classe económica! Como não era isso que esperava, fiquei chocado com a “suite” que encontrei – uma cama nas profundezas do navio – e rapidamente, depois de largar a bagagem, pus-me a mexer daquele cafunfo quente e escuro! Sem grandes dúvidas, tomei a decisão de tentar encontrar um local agradável para passar as minhas próximas vinte e quatro horas… e felizmente no topo do navio, encontrei um cafezito agradável que passou a ser a minha casa e por aí fiquei a escrever durante horas a fio. Apenas voltei à masmorra do dragão, para ir buscar comida e dormir por volta das 21.00. Quando me deitei, estava um calooooooor dos diabos e nesse momento, não pude deixar de pensar “que m$%#& de sítio!”  Apesar do colchão não ser mau de todo, o calooooooooor era… sufocaaaaaaante! Uma autêntica sauna! Mas de borla! Levantei-me às 5.15, acordado pelos cânticos da mesquita do barco, mas depois percebi que devido à diferença horária entre a ilhas de Sulawesi e Java, eram afinal 4.15! “Ora bolas!” De qualquer modo, como estar deitado no “cafunfo/masmorra/sala de tortura” não me fascinava, aproveitei para regressar ao meu porto de abrigo, o “abençoado” cafezito. À semelhança do dia anterior, permaneci no local horas a fio e aí vi o nascer do dia, tomei o pequeno almoço e continuei a escrever até acabar de atualizar o caderno. Quando acabei essa “tarefa”, o sol brilhava no céu azul e até chegar a Surabaya estive sem fazer nada de especial, descendo ao cafunfo para recolher a bagagem. Nesta viagem, até o desembarque que eu aguardava ansiosamente, foi MAU! Assim que as portas abriram, começaram a entrar pelo barco adentro pessoas a correr desalmadamente e nós, as pessoas que queríamos sair, tivemos que esperar que aquela torrente abrandasse! Enfim o pandemónio! E eu que já estava satisfeitíssimo com toda aquela viagem “paradisíaca”, quando sai do barco e pisei o solo da ilha de Java estava com um “sorriso estampado nos lábios”. Esta foi de looooooooooooonge a pior viagem de toda a Viagem!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Lemo

No último dia passado na presença dos Tana Toraja, estive em Lemo onde ao procurar mais um local de túmulos, encontrei crianças vestidas com trajes tradicionais. Instantaneamente pensei: “outro funeral!?”, mas depois de encontrar dois jeeps ornamentados, respondi-me em pensamento: “Naaaaaaaaaaa… casamento!” Depois de uma visita agradável, aos túmulos e quando regressava à estrada principal, fui convidado por um membro da família a assistir a cerimónia e foi-me dito para me dirigir à igreja/capela da vila. Uma vez mais, e fruto da boa sorte, estava a caminho de um casamento em Tana Toraja! A cerimónia de cariz protestante, foi simples mas bonita e falada em dialeto local. O pastor era uma figura carismática e pôs quase toda a plateia a escutá-lo com atenção, enquanto que nos noivos se podia observar um grande nervosismo mas bastante felicidade. Depois da cerimónia, fui convidado a juntar-me à parte da festa e fiquei admirado com a enorme quantidade de pessoas presentes, parecia que toda a aldeia tinha sido convidada! Aí, vi o desfilar de um loooooooongo cortejo de casamento, e observei o ambiente da festa, as danças e as dançarinas, o bolo a ser cortado pelos noivos – que nessa altura já envergavam trajes tradicionais – os múltiplos retratos com os convidados – iguais em qualquer parte do mundo – e comi uma vez mais a deliciosa, comida tradicional dos Tana Toraja. Assistir a tal momento e ver um casamento por terras do Oriente, fez-me sentir um privilegiado e deixou-me uma vez mais, realmente feliz! Em jeito de súmula, nos cinco dias que estive na presença desta tribo, tive o prazer de confraternizar com pessoas super hospitaleiras e genuínas, tendo o privilégio de observar um pouco as suas tradições. No meio daquela paisagem bela: arrozais, montanhas e vales, florestas de bambu, sol, nevoeiro, chuva, muitas nuvens… encontrei cavernas cheias de túmulos, caixões e ossadas… um funeral com sacrifícios de búfalos e porcos, trajes, música e cânticos tradicionais, um casamento… na despedida, senti-me realmente uma pessoa com sorte! Na Indonésia, ilha de Sulawesi, em “Torajilândia”, fiquei com a certeza que para esta tribo o funeral é o mais importante de todos os rituais. Mais importante que o casamento. Mais importante que o nascimento. Este é o reino, onde os mortos são mais importantes do que os vivos.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Pana

Túmulos para bebés em Pana

Após tantas emoções vividas nos dias anteriores, ao quarto dia de estadia, tive momentos um pouco mais tranquilos, rumando a Norte de Rantepao. Depois de alguns pequenos contratempos, consegui finalmente seguir aos zigue-zagues, montanha acima até Batu Tumanga. No caminho, apesar do espesso nevoeiro existente, foi-me possível observar a bonita paisagem de verdes arrozais em socalcos. Ao chegar ao meu destino, estava um nevoeiro de tal forma intenso que decidi seguir diretamente para Lokkomata, onde pude encontrar múltiplos túmulos dentro da rocha. Aí, fruto da bruma, fiz uma curta visita ao local e na pequena aldeia de Pana deparei-me com mais umas dezenas de  túmulos – desta feita para bebés – cravados numa enorme parede de rocha. Neste local, fruto da mescla perfeita de rocha e vegetação pareceu-me que tinha chegado ao “Mundo Perdido” ou a um cenário digno de uma película de Indiana Jones. Espetacular! Para além desta visita “selvagem”, foi nessa aldeia que conheci o simpático e afável Mr. Papakiki com tive a oportunidade de beber um café e de estar uns momentos em amena cavaqueira.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Suaya

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Depois de um dia memorável no universo místico dos Tana Toraja, a chegada a Suaya foi marcada pelo acaso e pela “fortuna”, uma vez que que me deparei com um funeral! À minha frente, encontrei uma vasta multidão vestida de negro e um búfalo a ser desmembrado, em frente a um caixão que se encontrava no segundo andar de um palanque. Fiquei estupefacto! Avancei funeral adentro e a primeira coisa que notei foi a consistência pastosa do sangue que se espalhava pelo solo. Discretamente, coloquei-me afastado do centro, fazendo a partir desse local as minhas observações até ao momento que houve outro sacrifício, e recebi autorização para tirar fotografias. Enquanto várias pessoas atavam o búfalo com uma corda e o forçavam a deitar no solo. À minha frente, uma faca afiada penetrou a carne do animal, o pescoço foi cortado e num segundo, a traqueia foi dilacerada, o sangue começou a jorrar aos brobotões, acumulando-se e fazendo espuma. De vez em quando, o animal mexia-se silenciosamente, os olhos foram perdendo brilho e luz, a vida foi abandonando o seu corpo e a sua morte serviu para honrar o falecido ancião. No decorrer dessa tarde, fui convidado a assistir à continuação do funeral – para os Tana Toraja, os funerais tradicionais duram em regra três dias, e o dia seguinte seria o segundo dia de festividades e também o mais importante. Nesse momento, estava verdadeiramente feliz, não só tinha encontrado um funeral – a tradição maior dos Tana Toraja -, como sido convidado para assistir ao mesmo! A partir desse momento, fiquei na companhia da família do falecido ancião, as horas foram passando e pude observar todo o ambiente envolvente: o som de alguns foguetes, os homens envoltos em sarongs negros, a sonoridade profunda do mamodang  cântico fúnebre em honra dos mortos; fumando e apreciando a grande oportunidade que estava a ter para aprender mais sobre aquela tribo.

Na manhã seguinte foi-me explicado que o búfalo sacrificado no dia anterior tinha-o sido à maneira muçulmana e que aquela não era a forma tradicional. Entretanto, foram aparecendo progressivamente mais pessoas, as crianças envergavam trajes tradicionais – os rapazes listas verticais vermelhas e lenços na cabeça e as raparigas vestidos brancos decorados com rendilhados de missangas. Sem aviso prévio, foram sacrificados mais dois búfalos, desta feita, de modo tradicional – o búfalo assente na suas quatro patas, recebe uma pancada seca com uma faca muito afiada no pescoço, e tal como no dia anterior, sangra até à morte. É sem dúvida uma tradição sangrenta! Mas é cultural e nós nos países ibéricos temos touradas por isso… e tal como em Lamalera, os animais são mortos por motivos perfeitamente válidos. Ao longo da manhã, a cerimónia continuou: música tradicional com flautas, desfiles de pessoas conduzidas pelo mestre de cerimónias, crianças trajadas, pessoas a fumarem, rirem e conversarem. O funeral é uma grande mescla de reunião familiar e romaria popular, sendo o ambiente geral, alegre mas respeitoso. Para além de ter tido a feliz oportunidade de ter presenciado tudo isto e ter continuado a conversar com muitos dos presentes, fui fazer umas pequenas explorações nas imediações, onde encontrei uma caverna cheia de ossadas, caixões e estátuas. Já de regresso à cerimónia fúnebre, subi ao local de honra onde estava o caixão e fiz uma oferta – monetária – à viúva e depois de almoço voltei a Rantepao numa carrinha de transporte de animais, que me pareceu o veículo apropriado… 🙂 mas antes de partir, ainda me consegui despedir da família que me acolheu. Terima Kasih – obrigado -, foi um privilégio e uma honra ter assistido ao funeral do vosso avô. 😀  

Uma Geografia. Uma Fotografia: Rantepao

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No meu primeiro dia em Tana Toraja, uma das tribos mais interessantes e singulares da Indonésia, o meu primeiro passo foi tentar arranjar um mapa da área, para me poder orientar. Em redor da cidade de Rantepao, tive a minha primeira experiência dentro de uma pequena aldeia, onde observei com atenção os famosos telhados em forma de cornos de búfalos – os animais mais sagrados para os Tana Toraja – ou alternativamente de cascos de navios – os antigos antepassados, que segundo a mitologia Toranja se acredita terem vindo do mar – e onde ela primeira vez, encontrei inúmeros cornos de búfalos – vinte e três! – pregados a um poste em frente a uma das casas percebendo que aquela era a casa dominante e do poder. De regresso ao centro da cidade, rumei à colina de Singk donde pude avistar a cidade – mesquitas, igrejas, casas… -, os muitos arrozais que a “cercam”, o rio, as verdes colinas e montanhas em redor, e todo aquele cenário natural, tornaram a área um local muito aprazível e agradável…

Em trânsito: Rantepao – Surabaya. Boat days? F”$%&@& days!

Depois do casamento e de uma tarde tranquila, às 20.00 apanhei o autocarro de regresso a Makassar e na viagem de oito horas, ferrei-me a dormir. Às 4.00 já estávamos na cidade, porém até desembarcar, andámos uma hora para trás e para a frente a largar passageiros. Típico! 😉 Porém desta feita, fruto da hora noturna, ainda bem! 🙂 Na estação local, apanhei um ojek que me tentou enganar à descarada! Felizmente para mim, reconheci o nome da rua onde estava, conseguindo baixar o preço para menos de um terço do valor inicial e mesmo assim ainda lhe paguei mais do que se calhar devia, mas tudo bem… pelo menos o “sacaninha” era amistoso. 😛

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Às 5.30 já estava na zona do porto e durante horas fui escrevendo no caderno até embarcar às 11.30, sendo o único momento de pausa, a compra de mantimentos (água, bolachas e tabaco). O barco era gigantesco e inicialmente não consegui perceber onde era o meu poiso, pois andava à procura de um camarote de segunda classe, quando afinal o que tinha era um bilhete para a classe económica! Como não era isso que esperava, fiquei chocado com a “suite” que encontrei – uma cama nas profundezas do navio – e depois de largar a bagagem, pus-me a mexer daquele cafunfo quente e escuro!

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Rapidamente, tomei a decisão de tentar encontrar um local agradável para passar as minhas próximas vinte e quatro horas (no mínimo)! Felizmente no topo do navio, na cafetaria DEK VIII, encontrei um cafezito agradável e essa passou a ser a minha casa! Como nessa altura, ainda circulavam vendedores no barco que não iriam fazer a travessia, decidi voltar ao cafunfo por uma questão de segurança da bagagem e aí acabei por comprar alguma comida (dois ovos, dois bolos de arroz com feijão e dois bolos de arroz amarelado) e fiquei a dormitar até às 16.00, hora em que finalmente partimos rumo a Surabaya. Assim que a embarcação se fez ao mar, sai imediatamente em direção ao cafezito, ficando aí a escrever durante horas a fio, enquanto bebia uma coca-cola ou fumava um cigarro extemporaneamente. Apenas voltei à masmorra do dragão, para ir buscar comida e para ir dormir por volta das 21.00. Quando me deitei, estava um calooooooor dos diabos e nesse momento, não pude deixar de pensar “que m$%#& de sítio!”  Apesar do colchão não ser mau de todo, o calooooooooor era… sufocaaaaaaante! Uma autêntica sauna! Mas de borla! 😛

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Levantei-me às 5.15, acordado pelos cânticos da mesquita do barco, mas depois percebi que devido à diferença horária entre a ilhas de Sulawesi e Java, eram afinal 4.15! Ora bolas! De qualquer modo, como estar deitado no cafunfo/masmorra/sala de tortura não me fascinava, aproveitei para ir até ao meu porto de abrigo, o “abençoado” cafezito! 🙂 Onde à semelhança do dia anterior, fiquei durante horas a fio e aí vi o nascer do dia, tomei o pequeno almoço e continuei a escrever até acabar de atualizar o caderno. Quando acabei essa “tarefa”, o sol brilhava no céu azul e passado pouco tempo conheci um rapaz indonésio que se chamava Hulk e que me deu umas dicas de como chegar à guesthouse.

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Até chegar a Surabaya estive sem fazer nada de especial, descendo ao cafunfo para recolher a bagagem. Nesta viagem, até o desembarque que eu aguardava ansiosamente, foi MAU! Assim que as portas abriram, começaram a entrar pelo barco adentro pessoas a correr desalmadamente e nós, as pessoas que queríamos sair, tivemos que esperar que aquela torrente abrandasse! Enfim o pandemónio! E eu que já estava satisfeitíssimo com toda aquela viagem “paradisíaca”, quando sai do barco e pisei o solo de Surabaya estava com um “sorriso nos lábios”. Esta foi de looooooooooooonge a pior viagem de toda a Viagem!

Em “Torajilândia”

Ato VI – Dia de Surpresa? Dia de…

No meu último dia em Tana Toraja, apanhei um bemo para Lemo e enquanto caminhava para o local dos túmulos, encontrei crianças vestidas com trajes tradicionais e instantaneamente pensei: “outro funeral!?”, mas depois de ver dois jeeps enfeitados com flores, respondi automaticamente em pensamento: “Naaaaaaaa… casamento!” Sorri, uma vez que no dia anterior tinha estado a falar sobre o assunto. Tirei um retrato às crianças e segui andando. No local dos túmulos fiz uma visita agradável, mas não vi nada que não tivesse visto anteriormente, “apenas” a uma escala maior. De qualquer modo, a paisagem era realmente bonita e ao abandonar o local senti-me satisfeito. Quando estava a regressar à estrada principal para ir até Landa, voltei a passar pelas crianças e a parar para lhes tirar mais umas fotografias. Nesse momento, fui convidado por um membro da família a assistir ao casamento e foi me dito para dirigir-me à igreja/capela da vila. Do nada, estava a caminho de um casamento em Tana Toraja! 😀

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A cerimónia durou hora e meia e tratou-se de uma cerimónia protestante, simples mas bonita, falada em dialeto local. O padre/pastor era bastante carismático e pôs quase toda a plateia a escutá-lo com atenção, enquanto os noivos estavam bastante felizes mas nervosos. 🙂 Depois da cerimónia, fui convidado a juntar-me à parte dos “comes e bebes” e fiquei admirado com a quantidade de pessoas que estava presente, parecia que toda a aldeia tinha sido convidada! 😉 Aí, vi o desfilar de um loooooooongo cortejo de casamento, o ambiente da festa, as danças e as dançarinas, o bolo a ser cortado pelos noivos – que nessa altura já envergavam trajes tradicionais – os múltiplos retratos com os convidados – iguais em qualquer parte do mundo – e comi uma vez mais a deliciosa, comida tradicional de Tana Toraja. Assistir a tal momento e ver um casamento por terras do Oriente, fez-me sentir um privilegiado e deixou-me realmente feliz! 😀

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Em jeito de súmula, nos cinco dias que estive em Tana Toraja tive o prazer de confraternizar com pessoas super hospitaleiras e genuínas, tendo o privilégio de observar um pouco as suas tradições. No meio daquela paisagem bela: arrozais, montanhas e vales, florestas de bambu, sol, nevoeiro, chuva, muitas nuvens… encontrei cavernas cheias de túmulos, caixões e ossos… um funeral com sacrifícios de búfalos e porcos, trajes, música e cânticos tradicionais, um casamento… na despedida, senti-me realmente uma pessoa com sorte! 😀 Na Indonésia, ilha de Sulawesi, em “Torajilândia”, fiquei com a certeza que nesta tribo o funeral é o mais importante de todos os rituais. Mais importante que o casamento. Mais importante que o nascimento. Este é o reino, onde os mortos são mais importantes do que os vivos.

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Em “Torajilândia”

Ato V – Rumo a Norte e à Bruma

Depois de tantas emoções nos dias anteriores, neste dia parti rumo a Norte. Primeiro, fui a pé até ao terminal de Balu, onde tentei apanhar um bemo (autocarro) para Lempo. Porém, as coisas não correram muito bem uma vez que o motorista informou-me que se quisesse seguir, teria de pagar o veículo todo, pois não havia mais passageiros. Percebi o argumento, mas o valor pareceu-me excessivo, por isso decidi aguardar… no entanto, algum tempo passou e ninguém apareceu. :/

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Comecei a pensar em alternativas, fui a um posto de ojeks perguntar o preço para seguir para Lempo e o valor mais baixo que consegui já era menos de metade, do valor do carro. Ok! A solução, já se começava a avistar. Porém, como ainda não estava satisfeito, fui seguindo a pé com o intuito de pedir boleia. A verdade é que não me sentia muito otimista, mas passados dez minutos, já estava numa carrinha das obras em cima de umas sacas de cimento, a caminho do Norte. 😉 Como o destino final da carrinha era Pallawa, tive que desmontar e ficar à espera num cruzamento, de qualquer modo, neste momento estava bafejado pela sorte e assim, logo de seguida apanhei um bemo montanha acima e aos zigue-zagues até Batu Tumanga. No caminho, apesar do espesso nevoeiro deu para observar uma  bonita paisagem, de verdes arrozais em socalcos.

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Quando cheguei a Batu Tumanga como estava muito, muitooooooooooo nevoeiro, decidi seguir diretamente para Lokkomata e num instante, cheguei ao local onde se podem encontrar túmulos dentro da rocha. Aí, fruto da bruma fiz uma curta visita ao local e quando estava a caminho de Pana apanhei nova boleia, desta feita de mota. Na pequena povoação, visitei mais uns túmulos – para bebés – cravados numa enorme parede de rocha. Este local, fruto da mescla perfeita de rocha e vegetação parecia saído do mundo perdido ou de um Indiana Jones. Espetacular! 🙂 Para além da visita, foi na aldeia que conheci o simpático e afável Mr. Papakiki com quem bebi um café e estive uns momentos a conversar, em amena covaqueira. De Pana, sempre em descida cheguei primeiro à vila de Tikala e finalmente a Rantepao. Ao longo do caminho a viagem foi agradável e por volta das 14.00 já estava de regresso ao centro da cidade, já fora do reino da névoa, num ambiente quente e solarengo.

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Em “Torajilândia”

Ato IV – O Funeral. A Manhã

No dia seguinte, acordei bastante cedo (algures entre as cinco e as seis da manhã) e quase imediatamente bebi café e comi uns bolitos secos. Entretanto apareceu Machin, o irmão mais velho de Julius, com que estive a falar durante um bocado e que me explicou que o búfalo no dia anterior tinha sido sacrificado à maneira muçulmana e que aquela não era a forma tradicional. Entretanto, o tempo foi passado e foram aparecendo progressivamente pessoas, as crianças vestiam trajes tradicionais (os rapazes listas verticais vermelhas e lenços na cabeça e as raparigas vestidos brancos decorados com rendilhados de missangas).

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Quase sem aviso, foram sacrificados mais dois búfalos, desta feita, de modo tradicional. Nesta maneira, o búfalo assente na suas quatro patas, recebe uma pancada seca com uma faca muito afiada no pescoço, e tal como no dia anterior, sangra até à morte. Esta maneira pareceu-me menos “limpa” e eficaz, uma vez que o animal demora mais tempo a morrer. É sem dúvida uma tradição sangrenta! Mas é cultural e nós nos países ibéricos temos touradas por isso… e tal como em Lamalera, os animais são mortos por motivos válidos e são comidos. Não são deixados a apodrecer. Para além dos búfalos, são sacrificados muitos porcos, porém estes não morrem com tanta dignidade, morrendo aos guinchos nas “traseiras” da festa.

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Na altura do sacrifício já lá estavam outros turistas (um italiano, um checo, uma americana e uma austríaca) levados por um guia e eu senti-me um “bocadito cagão” por ter chegado sozinho ao funeral! (Novamente, tal como noutras ocasiões da viagem, o ego humano pode ser tramado! 😛 ) Quando o Julius reapareceu, trouxe-me um sarong preto e eu fiquei muito feliz! De manhã, a cerimónia continuou: música tradicional com flautas, desfiles de pessoas conduzidas pelo mestre de cerimónias, crianças trajadas, pessoas a fumarem, rirem e conversarem. O funeral é uma grande mescla de reunião familiar e romaria popular, onde apenas falta a música de bailarico, sendo o ambiente geral, alegre mas respeitoso.

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Para além de ter assistido a tudo isto e ter passado a manhã a conversar, fui fazer umas explorações nas imediações e nas mesmas, encontrei uma caverna cheia de ossadas, caixões e estátuas, e uma vez mais, fiquei feliz por ter encontrado o local sem a ajuda de terceiros. Já de regresso à cerimónia fúnebre, subi ao local de honra onde estava o caixão e fiz uma oferta – monetária – à viúva e avó de Julius. continuei a falar com os nativos, fumei mais uns cigarros, e comi uma vez mais a deliciosa comida Toraja. Depois de almoço e um pouco de surpresa, voltei a Rantepao numa carrinha de transporte de animais, que me pareceu o veículo apropriado… 🙂 mas antes de partir, ainda me consegui despedir de Julius, a quem dei um abraço apertado de amizade. Terima Kasih (obrigado) meu amigo, foi um privilégio e uma honra ter assistido ao funeral do teu avô. 😀  

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Em “Torajilândia”

Ato III – O Funeral. A Tarde e a Noite 

Pessoas vestidas de preto, logo de seguida um tendong (búfalo) a ser desmembrado e cortado, e no segundo andar de uma construção de madeira, um caixão. Estava num funeral! Fiquei estupefacto. E ao olhar para a minha roupa envergonhado, pois estava vestido com uma t-shirt vermelha. Rapidamente e apesar do calor vesti o meu corta-vento, que apesar de não ser preto, sempre tinha uma cor mais neutra e pus o keffiyeh a tapar as pernas, qual um sarong. Com essa indumentária, avancei funeral adentro e a primeira coisa que reparei foi na consistência pastosa do sangue que estava espalhado pelo solo. Discretamente, tentei colocar-me num local mais afastado do centro, fazendo a partir daí as minhas observações, mas nessa altura um rapaz convidou-me a entrar numa das múltiplas construções de madeira existentes, mais pequenas. Aí, juntamente com outras pessoas jovens, troquei umas palavras em bahasa, bebi um café, oferecemos cigarros uns aos outros e fiquei sentado, até ao momento que houve o sacrifício de outro búfalo, e eles disseram que eu podia tirar fotografias.

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Enquanto várias pessoas atavam o búfalo com uma corda e o fizeram deitar no chão, tentei colocar-me o mais próximo possível sem atrapalhar. À minha frente, uma faca afiada penetrou a carne do animal, o pescoço foi cortado e num segundo, a traqueia foi dilacerada, o sangue começou a jorrar aos brobotões, acumulando-se e fazendo espuma. De vez em quando o animal mexia-se silenciosamente, os olhos foram perdendo brilho e luz, a vida foi abandonando o seu corpo e a sua morte serviu para honrar o ancião falecido.

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Voltei então ao local, onde tinha deixado a minha mala, o rapaz que me tinha convidado a entrar, apresentou-se como Julius e disse-me para segui-lo. No meio de uma alegre e ruidosa multidão segui até ao meio de um arrozal, onde assisti durante uns momentos a uma luta de búfalos. Porém, a verdade é que de luta, houve pouco ou nenhuma, pois os animais, depois de duas ou três cornadas ou paravam, ou um deles fugia! Os búfalos pareciam uns autênticos pacifistas. 🙂 Voltámos então ao recinto central e nessa altura o Julius informou-me que iria regressar a Rantepao, mas que se quisesse assistir ao funeral no dia seguinte, podia ficar a dormir ali mesmo (os funerais tradicionais geralmente duram três dias, o dia seguinte seria o segundo dia de festividades e o mais importante). Perguntei se não atrapalhava, e como ele disse que não, aceitei o convite. Estava muito feliz, não só tinha encontrado um funeral, como sido convidado para assistir ao mesmo! 😀

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Desse modo fiquei na companhia da família de Julius, entre eles o simpático Jacobs. As horas foram passando, eu fui comendo (primeiro arroz com peixe frito, depois arroz com babi (porco) assado dentro de bambo, vegetais e búfalo grelhado – em sabor parecia borrego, mas a carne era mais tenra); bebendo cafés e tua  vinho tradicional indonésio; falando em bahasa com as pessoas presentes e inglês com o Jacobs; observando o ambiente envolvente: o som de alguns foguetes, os homens envoltos em sarongs negros, a sonoridade profunda do mamodang (cântico fúnebre em honra dos mortos); fumando e apreciando a grande oportunidade que estava a ter para aprender mais sobre os Tana Toraja. Cerca das 22.00 deitei-me para dormir bem forrado e com a capa da chuva a servir de “cobertor” (como a capa era praticamente impermeável e não transpirável, o calor concentrava-se), sentindo-me um privilegiado com tanta “fortuna” e boa sorte. 😀

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