Uma Geografia. Uma Fotografia: Suaya

Rantepao2´_Blog

Depois de um dia memorável no universo místico dos Tana Toraja, a chegada a Suaya foi marcada pelo acaso e pela “fortuna”, uma vez que que me deparei com um funeral! À minha frente, encontrei uma vasta multidão vestida de negro e um búfalo a ser desmembrado, em frente a um caixão que se encontrava no segundo andar de um palanque. Fiquei estupefacto! Avancei funeral adentro e a primeira coisa que notei foi a consistência pastosa do sangue que se espalhava pelo solo. Discretamente, coloquei-me afastado do centro, fazendo a partir desse local as minhas observações até ao momento que houve outro sacrifício, e recebi autorização para tirar fotografias. Enquanto várias pessoas atavam o búfalo com uma corda e o forçavam a deitar no solo. À minha frente, uma faca afiada penetrou a carne do animal, o pescoço foi cortado e num segundo, a traqueia foi dilacerada, o sangue começou a jorrar aos brobotões, acumulando-se e fazendo espuma. De vez em quando, o animal mexia-se silenciosamente, os olhos foram perdendo brilho e luz, a vida foi abandonando o seu corpo e a sua morte serviu para honrar o falecido ancião. No decorrer dessa tarde, fui convidado a assistir à continuação do funeral – para os Tana Toraja, os funerais tradicionais duram em regra três dias, e o dia seguinte seria o segundo dia de festividades e também o mais importante. Nesse momento, estava verdadeiramente feliz, não só tinha encontrado um funeral – a tradição maior dos Tana Toraja -, como sido convidado para assistir ao mesmo! A partir desse momento, fiquei na companhia da família do falecido ancião, as horas foram passando e pude observar todo o ambiente envolvente: o som de alguns foguetes, os homens envoltos em sarongs negros, a sonoridade profunda do mamodang  cântico fúnebre em honra dos mortos; fumando e apreciando a grande oportunidade que estava a ter para aprender mais sobre aquela tribo.

Na manhã seguinte foi-me explicado que o búfalo sacrificado no dia anterior tinha-o sido à maneira muçulmana e que aquela não era a forma tradicional. Entretanto, foram aparecendo progressivamente mais pessoas, as crianças envergavam trajes tradicionais – os rapazes listas verticais vermelhas e lenços na cabeça e as raparigas vestidos brancos decorados com rendilhados de missangas. Sem aviso prévio, foram sacrificados mais dois búfalos, desta feita, de modo tradicional – o búfalo assente na suas quatro patas, recebe uma pancada seca com uma faca muito afiada no pescoço, e tal como no dia anterior, sangra até à morte. É sem dúvida uma tradição sangrenta! Mas é cultural e nós nos países ibéricos temos touradas por isso… e tal como em Lamalera, os animais são mortos por motivos perfeitamente válidos. Ao longo da manhã, a cerimónia continuou: música tradicional com flautas, desfiles de pessoas conduzidas pelo mestre de cerimónias, crianças trajadas, pessoas a fumarem, rirem e conversarem. O funeral é uma grande mescla de reunião familiar e romaria popular, sendo o ambiente geral, alegre mas respeitoso. Para além de ter tido a feliz oportunidade de ter presenciado tudo isto e ter continuado a conversar com muitos dos presentes, fui fazer umas pequenas explorações nas imediações, onde encontrei uma caverna cheia de ossadas, caixões e estátuas. Já de regresso à cerimónia fúnebre, subi ao local de honra onde estava o caixão e fiz uma oferta – monetária – à viúva e depois de almoço voltei a Rantepao numa carrinha de transporte de animais, que me pareceu o veículo apropriado… 🙂 mas antes de partir, ainda me consegui despedir da família que me acolheu. Terima Kasih – obrigado -, foi um privilégio e uma honra ter assistido ao funeral do vosso avô. 😀  

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