Rota SW

Ato IX – Um Dia Vou Construir um Castelo

À noite, ao falar com a M. percebi que a minha futura saída da vila de Sagres poderia vir a tornar-se problemática. Desse modo, o objetivo para o sétimo dia de caminhada – oitavo desde que chegara a Porto Covo – passou a ser… tentar aproximar-me o mais possível do Cabo de São Vicente. Depois de uma noite semi-ventosa no poeirento telheiro, acordei mais cedo do que o habitual e por volta das 7.25 estava de partida da aldeia da Carrapateira, sendo o meu primeiro objetivo, chegar à Vila do Bispo. 

IMG_9103 (FILEminimizer)

Ao contrário do dia anterior, o céu estava bastante carregado sendo a despedida desta bela costa coroada por nuvens escuríssimas e pela pálida luz. À medida que caminhava rumo à aldeia da Vilarinha, o sol foi despontando e o céu progressivamente tornou-se mais azul. 🙂 Assim que passei a aldeia, tive de fazer alguns atravessamentos nas ribeiras da Carrapateira e Sinceira, mas devido aos seus reduzidos caudais, as travessias não se revelaram problemáticas – no Inverno a situação pode alterar-se e tornar-se necessário efetuar um percurso alternativo.

IMG_9116 (FILEminimizer)      IMG_9117 (FILEminimizer)

IMG_9119 (FILEminimizer)      IMG_9121 (FILEminimizer)

No percurso para a aldeia da Pedralva, a variedade “clorofiliana” era grande. Junto às ribeiras encontrei salgueiros, freixos e carvalhos; nas encostas mais secas, sobreiros, pinheiros e oliveiras; e nas encostas mais afastadas do trilho, um denso matagal onde abundavam medronheiros, urzes, estevas, tojos… um autêntico festival. 🙂 Quando passei pela Pedralva, fiquei desiludido! :/ A mesma, não passa de uma aldeia fantasma totalmente recuperada para o turismo rural, porém entre esta opção e deixá-la ao abandono à espera que as casas ruíssem, acho que prefiro a primeira.

IMG_9127 (FILEminimizer)     IMG_9133 (FILEminimizer)

IMG_9141 (FILEminimizer)     IMG_9146 (FILEminimizer)

A partir daí, o trilho tornou-se menos plano e mais seco, sendo possível avistar em redor serras e montes de múltiplos verdes. Junto ao parque eólico, para além do ruído constante das pás a girar, encontrei alguns charcos que segundo o site da Rota Vicentina: ” (…) São talvez o habitat mais rico em biodiversidade do SW de Portugal (…) parte dos anfíbios da nossa fauna (…) livres de predadores de ovos e girinos (…) para além dos milhares de girinos, os charcos são povoados por aves, cágados, mamíferos e plantas”. Isto foi o que li. Quanto ao que encontrei, a história foi outra! Biodiversidade? Só de mosquitos! Isso sim, havia em abundância. Quanto ao resto… 😛

IMG_9147 (FILEminimizer)      IMG_9148 (FILEminimizer)

IMG_9151 (FILEminimizer)       IMG_9155 (FILEminimizer)

A oito quilómetros e meio da Vila do Bispo, o trilho voltou a mudar. Primeiro, estive rodeado de densos arbustos em caminhos serpenteantes de terra batida e posteriormente percorri trilhos arenosos de serenos pinhais. A partir das 11.30, apesar da agradável paisagem, comecei a “sonhar” com a minha chegada e com uma refeição de frango assado, sentado a uma mesa. 🙂 – Em determinados estágios de cansaço/fome a nossa mente/imaginação é mesmo incrível! Conseguindo levar-nos a “viajar” para mundos muuuuuuuuuuuuuito distantes. Naquele momento, o meu “mundo” nem estava assim tão longínquo, talvez a sete quilómetros. 😛

IMG_9158 (FILEminimizer)     IMG_9159 (FILEminimizer)

Volvidos noventa minutos de muita salivação, a etapa estava oficialmente terminada, restando-me desse modo, encontrar um poiso para matar o desejo. Não longe da igreja Matriz, encontrei a Tasca do Careca e durante uma horinha, posso dizer que estive realmente feliz. 😉 Terminado o repasto que me soube pela vida, voltei a passar pela igreja que estava então de portas abertas e aproveitei para visitar o seu fresco e bonito interior.

IMG_9168 (FILEminimizer)      IMG_9170 (FILEminimizer)

IMG_9177 (FILEminimizer)

Às 14.25, estando a catorze quilómetros do Cabo de São Vicente e meu objetivo derradeiro, decidi continuar a caminhar e ver como o corpo iria reagir à distância que faltava percorrer. Os primeiros quatro quilómetros junto à estrada de alcatrão, foram bastante desinteressantes, porém e à medida que me fui aproximando de zonas mais naturais e despovoadas, trilhos mais desertos e comecei a avistar Sagres, o oceano e o farol no horizonte, comecei a animar-me. Estava perto…

IMG_9179 (FILEminimizer)      IMG_9180 (FILEminimizer)

IMG_9189 (FILEminimizer)      IMG_9193 (FILEminimizer)

Na encruzilhada do circuito histórico e do trilho dos pescadores, optei por acabar junto à costa e fazer o circuito da Praia do Telheiro. Estava a sete quilómetros da Finisterra Lusa. À medida que caminhava, a costa foi-se aproximando, as arribas ganharam dimensão, cor e variedade, e a vegetação tornou-se cada vez mais rasteira. Nas imediações da extraordinária praia do Telheiro, onde se encontra a discordância – transição brusquíssima de idades entre formações rochosas – mais espetacular da Península Ibérica, tive de descer o pequeno barranco das Quebradas por uma escada de madeira. 🙂 Continuando a caminhar, os meus olhos foram-se apaixonando pela paisagem e pela sua enoooooooorme riqueza de cores: os brancos da espuma das ondas e dos calcários; os vermelhos dos arenitos; os cremes, cinzentos, negros e laranjas de outras rochas; os verdes da vegetação; os azuis do céu e do mar… BELO! 😀

IMG_9196 (FILEminimizer)     IMG_9201 (FILEminimizer)

IMG_9204 (FILEminimizer)

IMG_9205 (FILEminimizer)      IMG_9211 (FILEminimizer)

A partir do barranco da praia do Telheiro, o trilho começou a ser marcado por mariolas  montes de pedras – e os derradeiros três quilómetros transformaram-se num verdadeiro “jogo” de escondidas. 😛 Nesta altura, caminhar requeria uma atenção redobrada não só pela localização das mariolas, mas também pelo transformação progressiva do trillho num terreno duro e pedregoso. Na última meia hora de caminhada, para além de observar a aproximação do farol com alegria, vi bonitas e altas falésias brancas, mas principalmente… lembrei-me de Fernado Pessoa e da “sua” frase: “Pedras no caminho? Guardo-as todas. Um dia vou construir um castelo.” – posteriormente descobri que a mesma não é da sua autoria, mas sim de um blogger brasileiro Nemo Nox! – e ri-me ao imaginar que naquele local, seria preciso não apenas o mestre, mas sim o mestre na companhia de todos os seus heterónimos, a cavarem e a discutirem durante milhares de anos, para construírem o “senhor” dos castelos! 😀

IMG_9218 (FILEminimizer)     IMG_9220 (FILEminimizer)

IMG_9221 (FILEminimizer)     IMG_9225 (FILEminimizer)

IMG_9227 (FILEminimizer)

Já na estrada de alcatrão, sem mais pedras no caminho e com o farol/cabo à minha frente, fui sorrindo à medida que percorri os metros finais que me separavam do meu derradeiro destino. Quando cheguei ao Cabo de São Vicente, estava verdadeiramente feliz e um pouco cansado. O esforço físico tinha realmente compensado. Sorri novamente. O objetivo tinha sido alcançado. Tinha acabado de chegar ao antigo FIM do MUNDO… 😀 

IMG_9232 (FILEminimizer)      IMG_9240 (FILEminimizer)

IMG_9241 (FILEminimizer)      IMG_9243 (FILEminimizer)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s