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Em trânsito: Oecussi – Dili. À Flor da Pele

De manhã acordei às 4.30 para comprar o bilhete de barco para Dili no porto. Depois duma curta boleia, numa carrinha de pedreiros e serventes, e assim que cheguei ao destino, deitei-me em frente da bilheteira no chão, onde dormi durante cerca de uma hora na companhia de outros vultos noturnos. Assim que o dia começou a clarear, as pessoas começaram a despertar e eu sentado aguardei, aguardei, até que…. perto das 7.00 se começaram a vender os bilhetes. A fila que parecia estar criada desapareceu, gerou-se um enorme caos  empurrões, safanões, apertos – e senti que estava no meio de animais a lutarem pela sobrevivência! :/ No meio desse estrafego, conheci Garey  um estudante de Dili – e combinámos que quem chegasse primeiro ao guichet compraria o bilhete do outro. Depois de uma hora de “luta” e já depois de entregarmos o dinheiro e os documentos de identificação, os “diligentes” funcionários chamaram-nos para nos entregarem os bilhetes num guichet lateral.

Ao Garey entregaram-lhe o bilhete e a mim devolveram-me o passaporte, o dinheiro e disseram: “Já não há bilhetes de classe económica” – atenção, nesse momento todas as pessoas que estavam em “luta” na “fila” estavam a comprar esse mesmíssimo bilhete. Passei-me! Já com uma postura física de quem podia cometer uma loucura, de dedo apontado em riste e com a voz meio alterada, disse-lhes: “Há sim senhor! Estas pessoas estão a comprá-lo e o senhor vai vender-mo! Senão faço queixa de si em Dili!”. Nesse momento o Garey agarrou-me o braço, disse para eu ter calma e de dentro da bilheteira disseram para eu não preocupar e aparecer no porto à tarde. Entretanto o Garey ficou a falar com um funcionário, enquanto eu fiquei parado, desolado e a pensar: ” FDP! Eu não acredito que isto me está a acontecer!” Saí do porto revoltado com aquela corrupção gritante! No regresso à cidade combinámos reencontrar-nos ao meio dia para voltarmos ao porto juntos e ele me ajudar a apanhar o barco para Dili.

À hora marcada, na residência dos profissionais de saúde encontrei-me com Garey – Gregório -, Benny – Bendito -, outros médicos e enfermeiros timorenses e contei-lhes a história do porto e o motivo da minha fúria momentânea: “Não é o dinheiro em si que me revolta, mas o falta de princípios destes “tipos”, roubarem impunemente, quando existem pessoas que trabalham arduamente e que não ganham um caracol!”. Depois destas palavras, Benny apenas disse: “Não se preocupa, não Tomás. Fica comigo que tudo vai correr bem.”

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Já no porto, entrámos por um portão lateral e não houve nenhum funcionário “diligente” ou segurança que se atreveu a pedir-nos, “propina”. Durante uma hora e enquanto esperávamos, falei tranquilamente com eles sobre vários assuntos, sendo um deles a possibilidade de ficar na casa da família de Garey em Dili. Até que… soaram as buzinas e se gerou rapidamente um grande aglomerado de pessoas na zona de embarque, que estava rodeada de arame farpado e de um contingente de polícia militar e civil! À medida que íamos andando lentamente – e eu pensava no exagero de tal aparato -, o Benny ia dizendo: “Mantêm-te, junto a mim Tomás” e no controlo de bilhete graças aos seus “conhecimentos” entrámos sem pagar nada. De um momento para o outro e sem esperar, tive a minha recompensa… estava a bordo do barco para Dili, sem pagar bilhete e/ou “propina”. 😀

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Durante as doze horas de viagem para Dili, observei a bonita paisagem na saída do enclave, tirei fotografias, atualizei o caderno, distribui sorrisos, cumprimentei muitas pessoas – e vice-versa – e falei com um rapaz Timorense – Raimundo – sobre vários temas: binómio – Timor/Ásia, Portugal/Europa e os contrastes abissais das sociedades – explosão demográfica Vs. envelhecimento da população; riqueza primária do país – petróleo, gás, minérios, sândalo… e a inexistência de um setor secundário – fábricas e produção; desemprego; emigração. Para além disso, falei com um senhor português – Vitor – que tinha visto anteriormente na Timor Telekom, que fazia parte dos irmãos São João de Deus, que estava em Timor Leste há dez anos, a fazer trabalho na área dos doentes mentais em Laclubar e fui convidado a fazer-lhe uma visita 😀 , continuei a falar com o Benny e o Garey e dormi umas horas deitado no deck, até chegarmos a Dili por volta da uma da manhã. Depois do enclave de Oecussi, estava a desembarcar na capital de Timor Leste. 😀

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Em trânsito: Lembata – Timor Oeste. Fantasmas Mentais

Durante a viagem de regresso a Lewoleba, que durou uma eternidade – cerca de cinco horas – o autocarro encheu que nem um ovo, prestes a rebentar e infelizmente ao meu lado calhou-me em rifa, uma senhora e a sua irrequieta “cria”. A viagem foi um martírio: demorada, apertada, a cabeça a bater nas barras laterais, o bebé não parava quieto e de “guinchar”… o cansaço e a falta de paciência não ajudavam e a certa altura já o queria vaporizar, mas depois refleti que também é essa a beleza da viagem. Não temos que “amar” tudo e todos SEMPRE! O melhor de tudo, é que o nosso estado de espírito muda e num segundo e num sorriso passamos a adorar a criança. 🙂 Esta viagem fez-me entender claramente que viajar longamente e de forma contínua é uma montanha russa emocional e os nossos sentimentos transitam entre estados, como tudo ou praticamente tudo, nesta vida.

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Na secaaaaaaaaaaaante capital da ilha, aguardei um dia e meio pela possibilidade de existir um ferry para Kupang, a capital de Timor Oeste, uma vez que a realidade era esta: ninguém tinha certezas e durante esse tempo em que a comunicação com os nativos era feita às quinze pancadas, recebi várias informações contraditórias. 😛 A única certeza que tinha era, caso não existisse esse ferry, existiria um avião no dia seguinte. 🙂

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Felizmente houve ferry e não tive que passar mais tempo na ilha de Lembata, esse paraíso tropical. 😉 Antes de embarcar, tirei fotografias à cor da água de múltiplos azuis e verdes e sorri com a pureza infantil das crianças que nadavam nuas, nas imediações do cais. Quando cheguei ao meu lugar, fiquei bastante satisfeito com o mesmo e durante a viagem escrevi alguns textos para o blog, atualizei o caderno, tirei fotografias à bonita paisagem e ao sereno pôr do sol, continuei a ler a “loucura” de Bukowski, pensei que na manhã seguinte iria estar em Timor e adormeci por volta das 19.00.

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Durante o sono, sonhei que estava num barco que afundava com pessoas que conhecia a bordo, mas das quais não me recordo as feições e de repente num estado de vigília senti o ferry a embater com bastante violência nas ondas, ao mesmo tempo que ouvi pessoas a gritar – pareciam verdadeiramente assustadas. A realidade é que nem sequer abri os olhos, mas lembrei-me que acabara de sonhar que estava num barco que afundava… curioso. Voltei a adormecer pesadamente e quando abri os olhos parecia que tinha dormido uma eternidade, porém eram apenas 23.30. Voltei a adormecer e acordei à 1.16 quando comi qualquer coisa. Às 3.26 acordei novamente, liguei o laptop para tirar o nome de destinos em Timor Oeste e decidi que queria partir de Kupang o mais rapidamente possível, voltei a adormecer. Acordei às 5.20, já era de dia e sentei-me a escrever: “Espero que não falte muito tempo para chegar!” e depois continuei a ler.

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Eram 7.40 quando escrevi: “Estamos três horas atrasados, o dia está cor de prata e eu estou como ele, melancólico”. Pensei na minha inabilidade/habilidade de estar sozinho, de como a internet encurta as distâncias, de como podemos nunca estar sós, sobre o vício de estar “ligado” – blog/facebook… e de como o prazer de viajar não pode/deve depender disso. Pensei nas mesclas de prazer/prisões que o ser humano cria para si mesmo, e de como a liberdade total de tudo e de todos me parece uma quimera – “a nossa vida é uma rede de conexões e ligações e sem elas não temos nada. Há sempre dois lados na moeda, não vejas apenas o negativo – no caso específico, o blog – escrever dá-te prazer! É assim que deves encarar a questão e não como uma prisão/obrigação! Relaxa e deixa-te ir… estás quase em Timor”.        

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Crónicas Em trânsito Fotografia

Moni & o Vulcão das três Crateras, Kelimutu

Depois de uma enooooooorme viagem de “sobes e desces” constantes pela topografia acidentada da bonita e verde ilha das Flores, e de apanhar três autocarros – o primeiro em Labuan Bajo, o segundo em Ruteng e o último em Ende, onde passei a noite – cheguei à pequena vila de Moni, nas imediações de verdes florestas, arrozais e do vulcão Kelimutu.

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O dia em Moni foi tranquilo e durante o mesmo passeei com um ojek, observei o processo de tecelagem de ikat´s e gostei tanto deles, que cheguei a comprar um, na aldeia de Jopu visitei casas tradicionais – de madeira e palha -, túmulos e campas, vi uma bonita cascata no meio da floresta e tomei um relaxante banho nas hot springs.

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Na madrugada seguinte, acordei como previamente combinado com a dona da minha guesthouse – Maria -, para tentar ver o nascer do sol no topo do vulcão. Porém à hora marcada – 4.00 – o meu ojek não apareceu e pela primeira vez na Indonésia, tive de andar a bater a portas no meio da noite para ver a situação resolvida – “don´t play games with me Maria!” – por volta das 5.00, lá consegui partir e durante a rápida subida – cerca de meia hora -, o dia foi clareando e ganhando cor, mas fruto da elevada densidade de nuvens não houve um nascer de dia exuberante.

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Do parque de estacionamento onde fui largado, até às primeiras duas crateras e lagos, o caminho fez-se num ápice e se o lago verde esmeralda já era bonito, o lago azul turquesa era lindíssimo! A paisagem envolvente estava em constante mutação: o sol, a neblina, as nuvens que eram fiapos esvoaçantes, os jogos luz/sombra, a mescla de verdes e azuis dos lagos e das rochas de várias cores. Belo! Continuei a subir degraus e quando cheguei ao topo, vi a terceira cratera e um lago de águas negras e espessas, as nuvens continuavam a aparecer e a desaparecer velozmente e como consequência a  paisagem alterava-se e renovava-se a cada segundo, a cada instante, a cada olhar.

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Depois de visitar o singular vulcão Kelimitu e as suas três crateras, fiz o serpenteante caminho de regresso a Moni – treze quilómetros – num ritmo tranquilo. Durante o trajeto vi verdes e agradáveis florestas, vales e montanhas, nuvens brancas, um sol radioso… Porém à medida que me aproximava da vila, o tempo foi piorando e progressivamente entrei num mundo de cinzas, chuva, arrozais, campos de cultivo e a última memória que guardo da vila de Moni, é o tempo quente e abafado que se fazia sentir, em contraponto à frescura do Kelimutu.

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Crónicas Em trânsito Fotografia O 1º Dia

Medan. Luz e Escuridão

O meu primeiro destino na Indonésia foi a cidade de Medan, no norte da ilha de Sumatra e na chegada ao aeroporto internacional, este era tão moderno, limpo e eficiente que cheguei a pensar se ainda estaria em Singapura! Porém, quando tive de esperar duas horas pelo comboio para chegar ao centro da cidade, as dúvidas desvaneceram-se, estava mesmo na Indonésia. 😛

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Na saída da estação de comboios, ao ser abordado por uma horda de taxistas que perguntavam: “Hei Mr.! Where you go?”, não pude deixar de pensar: “o mito urbano é verdadeiro! Welcome to the wild”. Felizmente nessa altura, um cidadão indonésio ajudou-me e apanhámos um táxi juntos. Na despedida, deixou a viagem paga e indicações claras para o taxista me levar até ao local que eu estava à procura, o Hotel Zakia, nas imediações da mesquita branca – Masjid Raya – e eu agradeci a sua extrema bondade. 🙂

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Depois de negociar o preço do quarto, visitei a bonita e branca Masjid Raya de sarong posto e a zona do palácio, onde fui pela primeira vez entrevistado na cidade por simpáticas estudantes – quando saí de Medan, tinha sido entrevistado três vezes. 😛

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Durante o tempo que estive na cidade, a mesma revelou ser suja e cinzenta, cheia de tráfego e fumo – motas, motorizadas, autocarros/carrinhas, carros – barulhenta, frenética, caótica, vibrante, autêntica e real, ah!… e cheia de comida deliciosa. 😀

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Ainda em Medan e num pequeno cyber-café senti um lado negro da Ásia que nunca presenciei antes, pois fui abordado por um estranho indivíduo que me ofereceu crianças – tanto do sexo masculino, como feminino, para sexo? – e perguntou-me se queria adotar/comprar um órfão!? Acenei que não, ainda meio aparvalhado, e depois de mandar rapidamente um e-mail, pus-me a milhas daquele ambiente bizarro e pesado, a pensar que o ser humano pode transformar-se numa besta, capaz de tudo. 😦

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O Globo de Perhentian

Na altura que cheguei a Perhentian Kecil o fim de temporada estava ao virar da esquina. Desse modo, encontrei a ilha em processo bastante rápido de encerramento, com a maioria dos restaurantes, escolas de mergulho e até alojamentos fechados. Porém e devido a tal facto, a quantidade de mochileiros era muito mais reduzida e a verdade é que durante o dia e nalgumas pequenas festas de praia acabou por gerar-se um ambiente mais íntimo e familiar. 🙂

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Nesses cinco dias, conheci pessoas de diferentes nacionalidades – alemães, britânicos, americanos… – acabando por criar uma rotina de deliciosos jantares de BBQ, muita conversa e alguma festa; ainda fui a tempo de fazer um mergulho nas águas azuis e cristalinas da ilha; torrei ao sol naquela bonita praia de areia branca; escrevi no caderno e publiquei alguns textos no blog. 🙂

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O único momento que ensombrou aquele simpático lugar, foi quando levei dois chapadões de um nativo que meteu na cabeça que eu lhe tinha roubado uma lata de cerveja, mas felizmente para mim, fiquei tão aparvalhado com o episódio que nem sequer tive reação para ripostar. Pois acredito que se o tivesse feito, tinha sido “comido” instantaneamente por aqueles autóctones… :/

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Na ilha Perhentian o tempo congelou e durante o tempo que lá estive vivi quase sempre no globo de cristal de Charles Forest Kane, um tempo sereno e tranquilo… isolado do “mundo exterior”. 😀

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P.S. – Na Ásia, as pessoas são na maioria das vezes extremanente afáveis e serenas, porém e se há alguma ação que lhe “manche” a honra, elas ficam totalmente em polvorosa e agressivas. :/ E depois deste episódio, a noção que me deu, é que neste continente a vida de uma pessoa pode valer menos que uma lata de cerveja. 😦

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Trilhos de Bako

Para chegar ao parque nacional de Bako, primeiro apanhei um autocarro local para um cais que fica nos arredores de Kuching e seguidamente um barco que seguiu primeiro num rio de águas barrentas e depois no oceano. A viagem durou aproximadamente meia hora e na chegada à praia de Tanjung – local do HQ – vi uma paisagem dramática e surreal de árvores já secas e mortas, mas com a água do mar a submergir grande parte dos seus troncos… Belo! Trágico! Inesquecível! 😀 

Nos dois dias que estive no parque, maravilhei-me com o meu último pedaço de selva do Bornéu e todas as caminhadas que fiz nos múltiplos trilhos mostraram-me diferentes faces da ilha. 🙂 Aliás, em Bako foi fascinante observar como num espaço tão curto, existem tantas variações de paisagem, tanto em termos de vegetação, como de geologia! Na ilha existem florestas tropicais, manguezais, locais que se assemelham a florestas mediterrânicas! Praias desertas e selvagens – Paku, Tajor, Besar e mais bonita de todas, Kecil; enseadas, baías, falésias de rocha negra, formações rochosas que brotam do mar, rochas areníticas: castanhas, cinzentas, brancas, bordôs. 😀

Para além da fantástica paisagem vi muitos tipos diferentes de animais:  macacos – silver leaf, proboscis – a menos de um metro de distância 🙂 , cauda longa; porcos selvagens mas inofensivos; serpentes – uma verde, uma castanha e pequena e outra negra e amarela; pássaros – King Fish; escorpiões; aranhas, peixes; e um sapo minúsculo, mas altamente venenoso; e ao final de cada dia falei com diferentes pessoas, sobre diferentes assuntos. Dias de Bako? Dias muito felizes! 😀


P.S. – O único senão na experiência da ilha de Bako, foi observar a “marosca” legal na venda de bilhetes para o barco, uma vez que no cais somos “forçados” a comprar bilhetes de ida e volta! :/ O ideal mesmo é embarcar com pessoas que voltem no mesmo dia, para se poder dividir a despesa.

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Kaput em Kapit     

No dia seguinte parti com a Valentina para Kapit, uma cidade que fica a meio caminho entre Belaga e Sibu, e ai reencontrámos uma família que Valentina conhecera na sua rota para Belaga. Assim que desembarcámos fomos guardar as mochilas na receção de um pequeno hotel, que Valentina conhecia e depois fomos ao encontro deles. 🙂

Por coincidência nesse dia, estava a decorrer na cidade uma corrida de barcos rápidos e depois de encontrarmos parte da família e de comprarmos alguma comida, partimos para as margens do rio para fazer um piquenique e ver as corridas. 😉 Durante a tarde brincámos com e como crianças, aprendemos malaio, rimos, fumámos, comemos qualquer coisa e fomos bebendo uma bebida tradicional que as senhoras da família diziam ser fraquinhaaaaaaaaa…

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A partir de certo momento senti que estava a ficar “carregado” e a última coisa que me lembro dessa tarde foi de já estar preparado para embarcar. E depois? O vazio… o sonho… a escuridão! Quando acordei eram 3.30, não sabia onde é que estava e quando comecei a tomar consciência, pensava que estava em Portugal! Ao abrir os olhos, não reconheci o local, parecia uma sala e depois de ver a Valentina a dormir ao meu lado, percebi o que acontecera… Tinha apanhado uma “carga” descomunal e não me lembrava das últimas onze horas! Ora, bolas! Antes de voltar a adormecer apenas pensei: “espero não ter feito muitos estragos”… 😛

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No dia seguinte às 6.00 e enquanto bebia um chá, Valentina iluminou-me o espírito sobre o que tinha acontecido e pelos vistos não fiz nada de muito idiota! Ao que parece, consegui embarcar e desembarcar sozinho e sem cair ao rio 😛 ; no acesso à casa da família fui dizendo que não precisava de ajuda, mas acho que alguém me ajudou a subir a imensa escadaria; e já em casa deles, felizmente na varanda, comecei a vomitar e depois de o fazer durante um bocado, puseram-me a dormir… Pela descrição não foi demasiado mau! Mas, não me orgulho e gostaria de ter estado consciente para aproveitar a companhia desta alegre família. Bebida tradicional de Kapit? Kaput!

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Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato II – A Caminho da Tribo. Perdido na Selva

Regressei a Belaga bem cedo, com o Madam e a sua família e assim que chegámos, dirigi-me à guesthouse do Daniel onde me abasteci de produtos alimentares para levar para a tribo. Dentro de um cesto de verga, colocámos uma saca com dez quilogramas de arroz, dois quilogramas de açúcar e uma garrafa de vinho de arroz… e depois de continuarmos a falar, perguntei-lhe o que poderia comprar mais. Ele respondeu que geralmente café e galinhas eram sempre bem aceites e desse modo aproveitei para ir tomar o pequeno-almoço e comprar mais mantimentos. 🙂

Quando regressei, ele entregou-me um papel com algumas palavras básicas escritas em Malay (comer, dormir, beber, andar…), alguns nomes de pessoas da tribo e explicou-me de forma simplificada o caminho para chegar à tribo semi-nómada dos Sian (a mesma ficava a duas horas de Belaga, no interior da selva).

Por volta das 11.00 apanhei um barquito para cruzar o rio e de mochila ao peito e cesto de verga nas costas, parti rumo à outra margem e ao trilho que me levaria a uma nova experiência. 🙂 Assim que comecei a andar vi que tinha de seguir com bastante cuidado, pois o pavimento (um misto de betão, pedras, vegetação e musgo) era muito, muito escorregadio e senti que ao mínimo deslize me poderia magoar, ainda para mais carregado como estava. :/ Pé ante pé lá fui avançando e quando cheguei a um pequeno rio e, me pareceu que era possível atravessá-lo, segui nessa direção (Daniel na sua “explicação” me falou da existência de um rio que deveria ser cruzado).

Antes de começar a andar e por instinto decidi olhar para a bússola. Assim que fiz a travessia, comecei imediatamente a subir por um caminho enlameado e que me parecia bem marcado. Trilho abaixo, trilho acima fui penetrando na selva e comecei a suar abundantemente fruto da elevadíssima humidade e do esforço físico associado a caminhar num terreno tão acidentado. Numa passagem mais enlameada escorreguei e vi a minha garrafa de água rolar vinte metros colina abaixo, ficando numa zona cheia de vegetação. :/ Nessa altura pensei que ir buscá-la não valia o esforço e segui em frente. Dez minutos depois deste pequeno incidente, cheguei a uma zona onde deixei de ver o trilho, percebendo nesse momento que tinha de voltar para trás e que me tinha enganado no caminho. :/ Quando comecei a andar para trás, bastou dar dois ou três passos para ficar desorientado (pois não havia pontos de referência) e percebi imediatamente que estava perdido no meio da selva, carregado e sem água! :/

Instantaneamente o meu cérebro começou a carburar a todo o gás e os pensamentos foram: ”Vais morrer aqui! Estúpido! Por que é que não voltaste atrás para ir buscar a garrafa de água!? Se não tinhas a certeza relativamente ao caminho, porque seguiste em frente!? Vais morrer aqui! Ninguém te vem procurar! Ninguém sabe que estás aqui! Não te vão encontrar! Vais morrer aqui!” À medida que o meu cérebro em stress estava neste processo destrutivo, o meu lado racional tentava manter a calma e o controlo. Num minuto já estava a olhar para a bússola e comecei a andar na direção contrária à qual tinha vindo.

Selva adentro, monte abaixo, monte acima fui desbravando terreno. A vegetação era cerradíssima e muitas vezes agressiva e o ar sufocante. :/ Suava, suava em bica a cada passo, a cada metro que avançava só pensava: “tens de chegar ao rio, tens de chegar ao rio”. Passados mais ou menos quarenta e cinco cheguei ao topo de uma colina mais elevada, mas mesmo daí não conseguia avistar nada! :/ A vegetação parecia uma parede e eu continuei a caminhar e a suar em bica até que encontrei o pequeno rio! 🙂 Nesse momento, fiquei muito FELIZ, sabia que estava no caminho certo, apenas não conseguia perceber se estava a sul ou a norte do ponto onde atravessara mas, decidi continuar a andar em linha recta até chegar ao Rajang.

Claro que pensar é fácil, executar bem mais difícil ainda para mais num terreno tão acidentado, cheio de “alçapões e ratoeiras”, plantas espinhosas, uma densidade de vegetação que se assemelha a uma muralha, árvores, galhos e ramos podres que cedem facilmente e que não oferecem um apoio seguro, desníveis de terreno que surgem sem aviso, enfim… fisicamente, mentalmente e emocionalmente desgastante… extenuante. :/

A partir de certa altura comecei a ouvir o barulho de motores! Aleluia! Estava quase a chegar, porém ainda me faltava descer uma colina mega íngreme, cheia de plantas e árvores espinhosas. A cada passo e cada vez que um espinho se cravava na minha carne, eu gritava: ”Porque é que me magoas, FDP? Porquê?” e depois lá reconsiderava e pensava que não era a selva que me estava a magoar, eu é que me estava a magoar!

Quando finalmente cheguei à margem do rio, respirei de alívio. Estava salvo! Nessa altura vi que estava a cerca de cem / cento e cinquenta metros a norte do local onde tinha sido largado pelo barco. Comecei então a gritar e a acenar, para a margem de Belaga: “Help! Help! Help!” e passados cinco minutos vi finalmente um barco a sair da outra margem e a vir na minha direção! Quando este atracou, estava a sentir-me um farrapo emocional e quando me sentei, soltei duas ou três lágrimas de emoção! O meu “salvador” perguntou-me se queria seguir para Belaga, mas acenei que não e pedi para ele me levar até ao local onde começara o trilho

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Mulu. Back to the Primitive

Ato V – Guiado por Lucas a Caminho das Alturas

Durante a noite acordei múltiplas vezes e às 5.30 já estava a tomar um pequeno-almoço reforçado. A partida para os Pináculos ocorreu às 6.35 e a caminho do topo, andámos no meio de uma selva de rochas e raízes de árvores em que estes dois elementos combatiam entre si pela supremacia da paisagem. 🙂 Aliás, às vezes, sentia que estava mais a observar uma fusão ou uma mescla perfeita entre os elementos, do que uma batalha! Surreal, belo e escorregadio! 😀 Durante a ascensão fui quase sempre a sombra de Lucas, o nosso guia e desse modo pude observar a sua tatuagem na “barriga” da perna direita: “Jesus is the Lord”. Ao imaginar que fui guiado por um “apóstolo” a caminho das alturas, não pude deixar de sorrir. 😛

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O caminho em distância percorrida foi curto, apenas 2400 metros mas em altitude fomos de uma cota quase nula até aos 1200 metros, ou seja o declive era muuuuuuuuuito acentuado e os últimos 400 metros de distância transformaram-se mais num desafio de escalada, com recurso a escadas, cordas e busca de bons apoios para os pés e para as mãos. Neste momento a minha concentração estava no “pico”, pois a rocha que nos rodeava mais parecia um mar de lanças e facas afiadíssimas prontas para ao mínimo descuido nos partir facilmente um osso, ou cortar a pele, a carne, os músculos e os tendões. Aliás nessa altura fui pensando várias vezes: “Como raio vou voltar para baixo!?” :/

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Atingi o pico por volta das 10.40 e a paisagem foi de facto algo de totalmente novo e inesperado. Estávamos num miradouro de onde víamos uma floresta de picos de rocha, a emergir do meio das árvores e suplantarem estas em altura. Ver para crer! A natureza criadora na terra da magia e dos espíritos selvagens. 😀 No topo estivemos cerca de uma hora e durante esse tempo aproveitámos para almoçar, para tirar fotografias (nesta altura o casal de romenos tirou-me alguns retratos) e observar uns esquilos verdes que por lá passeavam.

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Perto do meio-dia iniciei a minha descida e nos primeiros 400 metros a concentração estava novamente elevadíssima e à medida que ia descendo fui procurando os melhores apoios possíveis. Nesta altura, agradeci à boa sorte ter optado por fazer o trekking com os sapatos de borracha, uma vez que os mesmos são muito mais flexíveis e menos largos e escorregadios do que as botas, pois a sola é completamente deformável. Deste modo, consegui encaixar os pés em quase todos os nichos existentes na rocha, a única desvantagem era sentir todas as variações da superfície na planta dos pés, principalmente porque as rochas eram completamente afiadas! :/

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Lentamente, o caminho foi sendo percorrido e aos poucos e poucos os obstáculos e desafios ultrapassados. Quando cheguei ao final da secção dos 400 metros, estava contente pois a parte mais problemática estava ultrapassada. Porém… o São Pedro pregou uma partida ao seu amigo Lucas e respetivo rebanho pois quando estava a chegar à placa que indicava, 1900 metros começou a chover torrencialmente! “Bonito! Agora é que vão ser elas!” E infelizmente não me enganei! :/

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O caminho em condições normais já é escorregadio e como se pode deduzir, a chover tornou-se num ringue de patinagem no gelo e cada passo começou a requerer concentração absoluta, pois o mínimo descuido poderia revelar-se catastrófico. A energia necessária para manter a concentração foi de tal modo elevada, que o caminho não me trouxe quase nenhum prazer… :/ o esforço físico tornou-se irrelevante quando comparado ao esforço mental associado ao “jogo” do sempre em pé e quase no final do trilho só desejava que esta aventura terminasse de vez, pois estava entediado e cansado de manter a concentração. Felizmente consegui descer sem me magoar e por volta das 16.20 cheguei finalmente ao campo 5, onde respirei de alívio… sem mazelas, os Pináculos de Mulu estavam conquistados. 😀

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Mulu. Back to the Primitive

Ato III – A Avaria e as Grutas

Depois da tarde inolvidável do dia anterior, a nossa viagem para os Pináculos começou no cais do HQ do parque. Depois duma curta viagem de barco, parámos na aldeia de Batu Bungan para visitar o tradicional mercado de artesanato, que no final não se revelou nada de especial. Voltámos a embarcar e seguimos viagem, desta feita em direção a nordeste e às cavernas do “Wind” e “Clearwater”.

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Na chegada ao cais, tentei tirar uma fotografia e a máquina deu erro! Voltei a ligar e a desligar e novamente… erro! :/ “Eu não acredito nesta #*%$@! Agora a caminho dos Pináculos é que decidiste avariar!?” Quando Cristian (um dos romenos) chegou, pedi-lhe para experimentar a minha objetiva na máquina dele para ver se estava tudo bem com ela e… estava! Deste modo, concluímos que o problema estava no corpo da máquina! “Ai F%&@ – $&”! Era só mesmo isto que me faltava avariar!” Depois do laptop, do telemóvel e da antiga objetiva esta era a última coisa que eu queria que avariasse. 😦

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Stressado e irritado com esta situação comecei a subir os degraus que nos levaram à caverna do Vento e na medida do possível comecei a tentar controlar-me emocionalmente e a relativizar a situação. Uma vez que no imediato não podia fazer nada e, muito possivelmente aquela seria a minha primeira e última vez naquelas cavernas e nos Pináculos de Mulu, mais valia aproveitar o momento ao máximo. Claro que falar é fácil, fazer é mais díficil e só aos poucos e poucos me abstraí da situação e comecei realmente a viver o presente! E ainda bem que o consegui fazer pois a caverna do Vento revelou-se espetacular com uma forma inicial que se assemelhava a um túnel em elipse, fruto desta caverna ter sido criada por um rio que corria através do seu interior. À medida que fomos andando o caminho começou a estreitar e depois começámos a descer, escadas e mais escadas que nos levaram primeiro a uma “chaminé” perfeita, onde pudemos observar o céu azul que brilhava acima de nós e mais à frente estava a câmara do rei.

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Antes de partirmos para lá, o nosso guia propôs-nos que quando aí estivessemos conhecessemos pessoalmente o rei (“Today is your lucky day! You have the opportunity to meet the king.”). Descemos então ao magnífico “salão” real coberto de estalagmites e colunas, mas o rei não estava lá, desconfio que tenha ido caçar veados ou algumas aias! 🙂 Quando regressámos o guia perguntou-nos, a sorrir, se o tínhamos encontrado e claro que respondemos que não. Então e à maneira “muluense” começou a falar-nos por enigmas e com a “magia” associada à natureza e ao divino/ sagrado/ espiritual disse-nos que o rei estava entre nós, aliás estava em nós… uma vez que todos éramos reis e rainhas! E este foi mais um momento especialíssimo made in Mulu, proporcionado por um guia. 😀

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Fizemos o caminho de regresso e depois enveredámos por uma escadaria que nos levou primeiro à pequena Lady cave, batizada deste modo pois existe uma rocha que fruto da luz projeta a sombra de uma donzela; e depois à magnífica “Clearwater”, uma caverna que tem um enorme rio subterrâneo a correr no seu interior e que vai moldando a sua forma. A caverna é profunda, larga e enorme e a sua beleza não provém tanto das formações geológicas, como no caso da Lang cavemas sim das chaminés existentes, do canal subterrâneo e da dimensão e luz do espaço! Quatro cavernas em Mulu? Poker de Ases! 😉

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