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Em trânsito: Oecussi – Dili. À Flor da Pele

De manhã acordei às 4.30 para comprar o bilhete de barco para Dili no porto. Depois duma curta boleia, numa carrinha de pedreiros e serventes, e assim que cheguei ao destino, deitei-me em frente da bilheteira no chão, onde dormi durante cerca de uma hora na companhia de outros vultos noturnos. Assim que o dia começou a clarear, as pessoas começaram a despertar e eu sentado aguardei, aguardei, até que…. perto das 7.00 se começaram a vender os bilhetes. A fila que parecia estar criada desapareceu, gerou-se um enorme caos  empurrões, safanões, apertos – e senti que estava no meio de animais a lutarem pela sobrevivência! :/ No meio desse estrafego, conheci Garey  um estudante de Dili – e combinámos que quem chegasse primeiro ao guichet compraria o bilhete do outro. Depois de uma hora de “luta” e já depois de entregarmos o dinheiro e os documentos de identificação, os “diligentes” funcionários chamaram-nos para nos entregarem os bilhetes num guichet lateral.

Ao Garey entregaram-lhe o bilhete e a mim devolveram-me o passaporte, o dinheiro e disseram: “Já não há bilhetes de classe económica” – atenção, nesse momento todas as pessoas que estavam em “luta” na “fila” estavam a comprar esse mesmíssimo bilhete. Passei-me! Já com uma postura física de quem podia cometer uma loucura, de dedo apontado em riste e com a voz meio alterada, disse-lhes: “Há sim senhor! Estas pessoas estão a comprá-lo e o senhor vai vender-mo! Senão faço queixa de si em Dili!”. Nesse momento o Garey agarrou-me o braço, disse para eu ter calma e de dentro da bilheteira disseram para eu não preocupar e aparecer no porto à tarde. Entretanto o Garey ficou a falar com um funcionário, enquanto eu fiquei parado, desolado e a pensar: ” FDP! Eu não acredito que isto me está a acontecer!” Saí do porto revoltado com aquela corrupção gritante! No regresso à cidade combinámos reencontrar-nos ao meio dia para voltarmos ao porto juntos e ele me ajudar a apanhar o barco para Dili.

À hora marcada, na residência dos profissionais de saúde encontrei-me com Garey – Gregório -, Benny – Bendito -, outros médicos e enfermeiros timorenses e contei-lhes a história do porto e o motivo da minha fúria momentânea: “Não é o dinheiro em si que me revolta, mas o falta de princípios destes “tipos”, roubarem impunemente, quando existem pessoas que trabalham arduamente e que não ganham um caracol!”. Depois destas palavras, Benny apenas disse: “Não se preocupa, não Tomás. Fica comigo que tudo vai correr bem.”

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Já no porto, entrámos por um portão lateral e não houve nenhum funcionário “diligente” ou segurança que se atreveu a pedir-nos, “propina”. Durante uma hora e enquanto esperávamos, falei tranquilamente com eles sobre vários assuntos, sendo um deles a possibilidade de ficar na casa da família de Garey em Dili. Até que… soaram as buzinas e se gerou rapidamente um grande aglomerado de pessoas na zona de embarque, que estava rodeada de arame farpado e de um contingente de polícia militar e civil! À medida que íamos andando lentamente – e eu pensava no exagero de tal aparato -, o Benny ia dizendo: “Mantêm-te, junto a mim Tomás” e no controlo de bilhete graças aos seus “conhecimentos” entrámos sem pagar nada. De um momento para o outro e sem esperar, tive a minha recompensa… estava a bordo do barco para Dili, sem pagar bilhete e/ou “propina”. 😀

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Durante as doze horas de viagem para Dili, observei a bonita paisagem na saída do enclave, tirei fotografias, atualizei o caderno, distribui sorrisos, cumprimentei muitas pessoas – e vice-versa – e falei com um rapaz Timorense – Raimundo – sobre vários temas: binómio – Timor/Ásia, Portugal/Europa e os contrastes abissais das sociedades – explosão demográfica Vs. envelhecimento da população; riqueza primária do país – petróleo, gás, minérios, sândalo… e a inexistência de um setor secundário – fábricas e produção; desemprego; emigração. Para além disso, falei com um senhor português – Vitor – que tinha visto anteriormente na Timor Telekom, que fazia parte dos irmãos São João de Deus, que estava em Timor Leste há dez anos, a fazer trabalho na área dos doentes mentais em Laclubar e fui convidado a fazer-lhe uma visita 😀 , continuei a falar com o Benny e o Garey e dormi umas horas deitado no deck, até chegarmos a Dili por volta da uma da manhã. Depois do enclave de Oecussi, estava a desembarcar na capital de Timor Leste. 😀

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Oecussi. Por Timor com Amor

Tal como em outros destinos – Laos, Tailândia e Malásia -, em Timor Leste passei a fronteira, de mochila às costas, a caminhar. Quando encontrei o primeiro controlo e comecei a falar com os polícias em português, emocionei-me por ouvir a nossa língua passados tantos meses e comecei a chorar de alegria e emoção, parecia uma Maria Madalena. 😛 Foi como sentir-me em casa, sem realmente estar em casa! 😀 No segundo controlo de passaporte, já no posto de fronteira tudo correu com sorrisos e com um carimbo vermelho a marcar 90 “diaz” segui a caminhar, desta feita já na companhia de um tímido rapaz timorense.
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Na pequeníssima aldeia de Bobometo, esperei uma hora por um mikrolet – carrinha/bus – e quando este chegou, rapidamente ficou apinhadíssimo de pessoas muito sorridentes e simpáticas. Durante a viagem, de cerca de duas horas, segui primeiro até Tono e daí até Oecussi e ao longo do trajeto a paisagem mostrou um misto de verdes colinas, montanhas, arrozais e estradas esburacadas e poeirentas. Oecussi revelou-se uma vila muito mais “rudimentar” e pequena do que esperava, mas envolvida por uma paisagem natural bela, serena – entre o mar azul e colinas/montes verdejantes, muitas vezes cobertos de nuvens nos topos – e nos três dias que aí estive, comecei a descobrir Timor Leste, a simpatia do seu povo e o lado mais obscuro do país.

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Na vila e nas suas imediações, passeei à beira-mar encontrando praias de areia clara e outras de areia negra, zonas de arvoredo, manguezais, campos de cultivo, cabras, vacas e galinhas; disse olá a muitas pessoas e crianças e senti uma energia super-positiva e contagiante; vi muitas crianças a banharem-se no mar nuas com uma pureza cristalina; em mais do que uma ocasião houve nativos que se aproximaram, que me tentaram dar beijos e me apalparam a “salada” – “mas o que é que se se passa em Oecussi!?” -; visitei Linfau e o seu monumento histórico – local onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez em Timor em 18 de Agosto de 1515; estive alguns momentos no bonito e tranquilo café das irmãs Dominicanas, onde bebi sumos extraordinários, entre os quais de papaia e abacate 😀 ; fui até à colina de Fatusaba, onde encontrei vestígios de um antigo forte e pude observar a vila do topo; estive na Timor Telekom  único local com internet – a enviar e-mails para a minha família; visitei a longa praia de Mahata; atualizei o caderno e escrevi textos para o blog; percebi que o país é bastante mais caro que outros aqui no Sudeste asiático e que existe um aumento generalizado de preços – comida, alojamento, transportes, etc… – mas que tal é natural, uma vez que tudo ou quase tudo é importado – maioritariamente da Indonésia; tive um serão na “cavacada” a beber tuasabo  vinho timorense, feito de palma – e a esfumaçar com timorenses, entre os quais Benny – um médico que esteve a estudar em Cuba e no Brazil e que agora estagia no enclave – e senti na pele algo que nunca tinha sentido antes…
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