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Crónicas Em trânsito

Em trânsito: Nong Khiaw – Luang Prabang. Uma Questão de Imaginação

Na saída de Nong Khiaw tentámos apanhar boleia, mas como em meia hora não passou nenhum carro e como já estávamos a prever o que iria acontecer, quando o autocarro passou por nós fizemos sinal para ele parar. O Zhou ficou a olhar e disse: ”Mas isto não é um tuk-tuk?” e eu respondi: “Isto é mesmo o autocarro!”. Assim que entregámos as bagagens ao motorista estas foram imediatamente postas no tejadilho, pagámos e embarcámos num autocarro mixado de tuk-tuk para Luang Prabang. 🙂

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Só que para além de se assemelhar a um tuk-tuk, o nosso autocarro já estava quase lotado! 😛 Assim, tive de me sentar na chapa, encostar-me e fazer figas para não haver muitos buracos e solavancos, se não ia ficar todo partido. Nessa altura a preocupação principal foram as costas e a coluna e tentei ao máximo criar amortecimento para elas, quanto ao rabo… paciência! 😛 O que ia valendo é que a estrada não era nada má. E quanto à lotação? É tudo uma questão de relatividade, pois quando pensamos que a carrinha está cheia, arranja-se sempre espaço para mais alguém. Mesmo que os nossos olhos não vejam esse lugar, é porque a nossa imaginação é limitada e ainda não atingiu o estágio de desenvolvimento da imaginação Laosiana! 😀 Assim, a viagem foi passada entre conversas com um casal de neozelandeses e mudanças de lugar constantes, pois à medida que o autocarro parava alteravam-se o número das peças de Tetris, que éramos todos nós. 🙂

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Reflexões

Learning Mode

Se geralmente, andar em aprendizagem já é o meu estado “normal”, durante a primeira semana no Laos esse processo foi intensificado e o learning mode foi definitivamente ativado. 🙂 Assim sendo, aprendi o que significa chegar a uma pequena cidade, sem nada marcado e procurar alojamento; que o comum no país é haver guesthouses e não hostels e desse modo somos obrigados a alugar um quarto e não uma cama – como na China; comecei a entender a dinâmica da comida e do seu preço; falámos do país e da sua realidade com “nativos”; compreendi que as ATM´S no Laos são quase inúteis – a quantia máxima que pode ser levantada são 100€ – e que apenas devo utilizá-las em último recurso; aprendi a agradecer – khàwp ja̖i – e a dizer olá – sába̖ai-di̖i  na língua Laosiana e principalmente, aprendi que andar à boleia é um processo longo e demorado, uma vez que estamos a desafiar a ordem natural do país – existem poucos carros a circular; as estradas estão muitas vezes em péssimas condições; os habitantes não estão acostumados e desconhecem o fenómeno e no caso de finalmente alguém parar, diria que 99% das vezes é quase sempre esperada uma compensação monetária.

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Dicas Reflexões

Dicas Made in China

1) Percam as peneiras ocidentais. Convém aprender umas palavras de mandarim, preparar o dia seguinte com os nomes dos sítios já escritos em chinês e sobretudo acabem de vez com a pretensão do “Ai, eu não estou a ir por um sítio turístico”. Aqui nunca podemos dizer, cheguei ao fim da estrada, não existe ninguém.

2) Misturem o campo com a cidade. A maneira certa para não deitar a China pelos olhos é ir metendo pelo meio alguma natureza. Façam isso porque as belezas naturais são espetaculares. Há lugares tão bonitos que chegam a ser comoventes.

3) Os chineses são uma massa humana gigantesca e que se move muito, por isso os transportes ficam rapidamente superlotados. Conselho: tratem das vossas ligações com antecedência.

4) Não se esqueçam, estão na Ásia… regateiem os preços mesmo que estes vos pareçam baratos. Acreditem! Estão inflacionados porque nós/vocês somos ocidentais e, apesar de fazer parte da sua cultura, nestas cabeças, existe o estigma:  “São todos ricos, podem pagar mais”.

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Reflexões

Ideias Soltas sobre o Império do Meio

1) A China é o país mais populoso do mundo (1.4 biliões de almas, aposto que muitas mais serão) e é o país do: “É tudo, à grande!”. A área foge à escala humana e a cultura à compreensão ocidental, pelo menos da maioria de todos nós. É um país de binómios e contrastes: desertos vS megalópole; ricos vS pobres; natureza vS obra humana; comunismo vS capitalismo; realidade vS fição; crença vS descrença; família vS indivíduo

2) Antes de chegar ao país e com a informação que li, dava-me a sensação que os chineses eram quase robots inexpressivos, nada disso! São um povo caloroso, afável e que sabe receber de braços abertos… ah e já agora, copo numa mão e cigarros na outra… 😀

3) A comida é absolutamente divinal e deliciosa e é, na generalidade das províncias, bastante picante – principalmente em Sìchuān – e os cheiros do país expandem-se numa palete rica e variada que pode ir desde o fumo de escape das ruas de Pequim até aos doces e frutados de Jinghong.

4) Aqui Deus, tem o nome família e esta ainda é um dos pilares fundamentais da cultura chinesa, se bem que aos poucos e poucos as coisas comecem a mudar…

5) No país, o comunismo está intimamente relacionado com Confúcio, desse modo pode comparar-se o regime a um pai que educa com amor, mas que se for preciso também dará uns bons tabefes. Aqui não se fala de política, fala-se de interesse público o que por vezes choca com as liberdades individuais – por exemplo segurança vS liberdade.

6) O nome do regime que governa o país é Comunista, mas poderia ser outro que o resultado seria igual ou semelhante, uma vez que a alma do mesmo é Capitalista até ao tutano e o nome apenas serve para batizar um regime ditatorial, que é a cola que unifica o país. Caso um dia a ditadura desapareça, o país enquanto unidade fragmentar-se-á e a China dará origem a múltiplos países ou pequenos estados semi-independentes.

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Reflexões

Entrevista concedida ao Diogo Azeredo (na íntegra)

1. Conhece o termo Dromomania? Considera-se um dromomaníaco, alguém com o “bichinho” de viajar e que não consegue ficar no mesmo local por muito tempo?

Tomei conhecimento do termo quando me falaste do mesmo na primeira mensagem que enviaste via facebook e depois disso acabei por ir investigar. Em termos patológicos não me considero um dromomaníaco, se o termo puder ser considerado de uma forma mais saudável nesse caso, sim. Aliás, sinto que a minha natureza é como o vento. 

2. Porque surgiu esta vontade de deixar o país? Qual é a tua história?

A vontade de deixar o país, ou melhor dizendo Viajar, está presente em mim desde sempre, mas talvez de forma mais intensa desde os 14 anos, altura em que acompanhei a minha irmã no seu interrail (durante 2 semanas) e aí foi plantada em mim (sem que eu desse conta) uma semente que despontou na altura da faculdade. Durante esse período viajei primeiro em Portugal e depois fiz dois interrails a solo. Tudo correu sempre bem e a experiência foi de tal modo enriquecedora que percebi que era isso que queria fazer na minha vida, viajar pelo Mundo. Claro que quando acabei o curso não tinha dinheiro disponível e comecei a trabalhar com o objetivo de poupar o máximo que conseguisse para concretizar esse sonho/objetivo. E hoje em dia estou a viver o meu sonho.  

3. O mochileiro é considerado um estilo de vida. Concorda? Porquê?

Claro que concordo. Um mochileiro é um cidadão do mundo, um mágico, um ilusionista dos tempos modernos. Da mesma forma que a prática de desporto, Yoga, meditação podem ser considerados estilos de vida, viajar deve estar no mesmo pé de igualdade pois todos estas “atividades” tem como objetivo ajudar o ser humano a evoluir e transformar-se num ser mais completo.

4. O Quirino possui o blogue www.historiasdovento.com. Porque sente esta necessidade de escrever as suas histórias que surgem com o vento e partilhá-las com o mundo?

As minhas histórias não surgem com o vento, surgem sim do facto de eu viver como o vento. Partilhar as minhas histórias faz parte da minha natureza de “escrever”, algo que me dá imenso prazer, desse modo acho que escrever é o complemento ideal de viajar. Para além disso escrever, “obriga-me” a recordar e recordar significa ter memória. Num mundo tão rápido como o atual em que parece que as pessoas só vivem para o futuro, preservar a minha memória faz-me sentir humano e consciente das minhas ações.

5. Através destes géneros de blogues, já conheceu outros “mochileiros” com quem partilhou experiências? Se sim, algum que queira destacar?

A resposta será dada de forma inversa. Ao longo da viagem tenho conhecido outros mochileiros com que tenho partilhado experiências e a partir daí tenho tomado conhecimento dos seus blogues. Como das pessoas que conheci não há ninguém a escrever em português, prefiro não destacar nenhum deles.

6. Existe alguma comunidade de mochileiros portugueses?

Pode existir, que eu tenha conhecimento, não. Mas tenho de dizer a verdade, nunca me debrucei sobre o assunto, nem sequer tiver curiosidade para investigar informação acerca disso.

7. Considera-se mais um imigrante ou um turista?

Considero-me um viajante! A verdade é que todos somos turistas, excepto na nossa cidade Natal. Porém e dada à conotação negativa que a palavra TURISTA tem no meio mocheiro, custa-me a assumir essa realidade, apesar de reconhecer a veracidade da palavra. Emigrante!? Talvez…se poder ser considerado emigrante uma pessoa que está sempre em movimento.

8. Por que países já passou e em qual permaneceu por mais tempo?

Europa: Espanha, França, Itália, Suiça, Eslovénia, Croácia, Bósnia, Sérvia, Roménia, Bulgária, Turquia, Alemanha, Eslováquia, República Checa, Hungria, Holanda, Grécia, Áustria, Noruega, Reino Unido

Ásia: China, Laos, Tailândia, Malásia, Brunei, Singapura, Indonésia, Timor Leste, Filipinas, Myanmar

Indonésia (quatro meses).

9. Na hora da despedida, foram criados laços suficientemente fortes para criar saudades no momento de vir embora e partir em nova aventura?

Depende sempre de quem se encontra pelo caminho. Mas sim acontece e sem dúvida que podem ser criados laços bastante fortes e duradouros.

10. Com quanto dinheiro, sensivelmente, inicia as suas viagens? Define algum objetivo antes de partir?

O máximo que conseguir amealhar. Vamos ver relativamente ao futuro, como vai ser a evolução. E não nunca defino objetivos completamente estáticos.

11. O que leva na mala? E o que nunca leva na mala?

Cadernos de viagem e capacidade de improviso. Preconceito e sentimentos de superioridade.

12. No artigo da Visão “Correr o Mundo com pouco dinheiro” é possível ler a propósito da sua vida na China. Quais foram as maiores dificuldades que por aí sentiu e qual a experiência que mais o marcou?

A China foi uma escola de vida e de viagem. Foi altamente exigente em vários níveis sendo a linguagem e a incapacidade de ler as maiores barreiras. Desse modo preparar o dia a dia tornou-se fundamental (marcar hostels, ter indicações em caracteres, aprender um pouco de mandarim…).

Dois momentos (mas muitos mais poderia dizer): Dormir numa montanha com trabalhadores humildes da construção e viajar durante 15 dias no país com um “nativo” em que a única maneira de comunicar era com recurso ao seu smartphone (traduções entre chinês e inglês).

13. Apesar dos portugueses serem um povo que tem na sua génese uma grande veia de descobridores, nos últimos tempos, e principalmente com o acentuar da crise económica, acha que estão cada vez mais deprimidos e agarrados ao sofá?

Acho que aos poucos e poucos, perdemos a capacidade de sonhar e de sermos audazes e aventureiros. Estamos acomodados, tacanhos e amorfos e não conseguimos ver que há mais vida fora do défice, da crise e da nossa pequenez.

Acredito que a crise tenha dado uma ajuda mas penso que os factores mais relevantes são a nossa incapacidade mental de lidar com a perda de um Império que foi imenso e com a nossa falta de imaginação para procurar vias alternativas a uma sociedade profundamente doente e autofágica.    

14. A falta de dinheiro é um motivo válido para os portugueses viajarem menos ou é um desafio à criatividade e um apelo à aventura?

Para as pessoas que têm responsabilidades para com uma família, não posso dizer que não é um motivo válido. Porém a minha opinião é que na maioria dos casos as pessoas têm demais, compram demais, desperdiçam demais… Investem em coisas ocas e vazias como bens materiais… A viagem pode ser um “investimento” de sensações, experiências, aprendizagens, desafios, aventuras e o retorno que traz é algo que nunca um bem material trará. Nunca! Desse modo penso que a falta de dinheiro é muitas vezes um falso pretexto e que no fundo tudo se resume a uma questão de prioridades.   

15. Pensa que o atual contexto económico português é fomentador de dromomania? Ou seja, devido à crise, há mais portugueses a pensar “deixar tudo” e a partir à conquista do mundo à boleia? 

Penso que o atual contexto económico português pode ser fomentador de dromomania, porém penso que a crise de identidade que a maioria das sociedades ocidentais apresenta é um motivo ainda mais forte que leva as pessoas a dizer basta e “deixar tudo” e partir à conquista de algo, algo maior que as desafie e as enriqueça…no fundo partir rumo à Viagem.

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Em trânsito: Xishuangbanna – Luang Nam Tah. Goodbye China. Hello Laos!

Antes de começar a minha travessia para o Laos estava um bocadito nervoso, pelo recomeço de tudo: língua, preços e dinheiro, pessoas, cultura… de qualquer modo penso que sentir esse nervoso miudinho, foi natural, positivo e sinal que aguardava a mudança com expetativaA viagem entre a China e o Laos começou num Sábado, depois de almoço e com a despedida de Jinghong que foi uma agradável surpresa. Saí da cidade acompanhado pelo Zhou Fan Chou  o “caramelo” já tem nome – e antes de começarmos a pedir boleia, andámos dois quilómetros para chegar ao perímetro exterior da cidade. Em menos de dez minutos já estávamos numa carrinha a caminho de Mèngla, vila que fica a cento e trinta quilómetros de Jinghong e à qual chegámos a meio da tarde. Decidimos não prosseguir para Mohan, não por falta de tempo, mas porque essa é uma cidade fronteiriça e seguramente com preços inflacionados. Desse modo, acabámos o dia a dormir em Mèngla, a cinquenta quilómetros da fronteira, numa espelunquinha. 😛

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No Domingo, acordámos cedo e andámos novamente dois quilómetros para chegar à estrada principal e aí ficámos à espera que alguma alma caridosa nos desse boleia para Mohan, a última cidade/vila chinesa antes da fronteira. Finalmente, passado uma hora e pouco alguém parou e não é que foi um carro com matrícula do Laos?! 😛 Metemos a bagagem na carrinha de caixa aberta e durante a viagem não conseguimos comunicar com o nosso condutor. Bonito… no entanto na chegada à vila ao parar o condutor do bólide fez-nos sinal de dinheiro. Eh lá! Com esta não contávamos. Ok, my friend no problem, toma lá uma ajudinha e não digas que vais daqui. Antes de sairmos de Mohan troquei os yuans que tinha por kips e mandei um e-mail a contar as novidades.

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A última parte do trajeto até à fronteira foi feita a caminhar e poucos minutos depois estava com o passaporte carimbado. Zheijiè (adeus) China! Até ao regresso. Seguimos o caminho sem ninguém por perto e nos últimos metros de China fomos “abençoados” por uma chuva suave. 🙂 No posto de fronteira do lado do Laos (Boten), preenchi o formulário, entreguei uma fotografia e paguei trinta e cinco doláres pela impressão do visto e mais uma “taxa de fim-de-semana” (10.000 kips ou 2 doláres). “Ok, ok! Leva lá um euro (10.000 kips) e não me peças mais dinheiro, ou levantes problemas”. 😛 Sem mais taxas manhosas entrei oficialmente no Laos pelo próprio pé. Hello! 🙂

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Passámos pela vila de Boten sempre a andar na Nacional 13 e na saída da vila estávamos a cinquenta e cinco quilómetros de Luang Nam Tha, nosso destino. Durante duas horas fomos andando, parando e tentando pedir boleia e passado todo esse tempo andámos quatro quilómetros! :/ Não estava fácil a nossa vida, quando… um carro com matrícula chinesa parou e nos deu boleia até ao nosso destino. 🙂 A estrada estava em excelentes condições – pelo menos para as minhas expetativas – e após uma hora de viagem ao aproximarmo-nos da cidade, apareceram montanhas, arrozais, nuvens…lindo! 😀

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Crónicas

Dá um Mergulho

No segundo dia em Sanya depois de voltar da praia e do jantar falei com o Peter´s que me contou que mesmo de noite as pessoas, ainda estão: a) na praia, b) dentro de água. Assim que ouvi isso fiquei de pulga atrás da orelha e decidi que tinha de ir experimentar, afinal o tempo era quente (30 ºC), a água morna e o mar uma piscina de fundo liso… why not? 🙂

Desse modo, eram 22.00 quando peguei na toalha e dirigi os meus passos para a praia. A noite estava quente, tal e qual como o dia e os bares da praia, cheios. E pensei: “serão os chineses de Hainan uma “classe” à parte dentro da China?” Fica a questão. A praia estava iluminada pela luz dos bares e a quantidade de pessoas tanto no areal como na água surpreenderam-me, pois eram muito mais do que eu imaginara. 🙂

Larguei as poucas coisas que tinha e fora da “caixinha de controlo” (área delimitada no mar com cordas) dei o meu mergulho no mar e senti-me feliz por ter a oportunidade de fazer algo assim. 😀 Do mar viam-se os prédios da linha costeira da baía iluminados pela luz dos bares e o mar não era uma massa escura. Queria mais, queria uma massa mais negra e opaca, e menos pessoas nas imediações. Por isso voltei a pegar nas minhas coisas e comecei a andar pelo areal até encontrar um lugar com as características acima referidas. A meio da praia, apesar de não existir uma escuridão total encontrei uma ausência total de pessoas e aí, sozinho no mar fiquei a boiar, a olhar o céu e senti-me livreprivilegiado, por aquele momento de paz e serenidade, proporcionado pelo mar quente do sul da China. 😀

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Vamos Brincar aos Turistas?

No nascer do dia o tempo continuou cinzento, mas a intensidade da chuva baixou consideravelmente e aproveitando esse facto, partimos para a vila de Zhonglu acompanhados de uma rapariga alemã  Milène – que conhecemos na noite anterior. A caminho da vila e apesar da visibilidade reduzida, fruto do nevoeiro, comecei a perceber in loco a fama deste local e a interiorizar a beleza do mesmo, uma vez que à medida que subíamos, os socalcos começaram a ganhar forma, proporção e grandiosidade. 🙂

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Por entre estradas de cascalho, degraus, trilhos em pedra e lama, plantações, camponeses e camponesas, burros e cavalos, seguimos viagem e passado uma hora e meia estávamos no nosso destino. Poucos minutos depois de lá chegarmos uma “nativa”, tomou a Zheng como guia turística de mim e da Milène e perguntou-lhe se queríamos almoçar, apresentando o seu preço. A Zheng entretanto começou a explicar-nos o que se estava a passar e a partir desse momento representámos o papel de um casal de turistas alemães que estava a ser conduzido para a toca da raposa. 😉 No final de muita conversa e discussão conseguimos baixar o preço para metade do valor inicial, em que 2/5 desse valor reverteriam para a Zheng e o restante para a “nativa”. Moral da história: como a Zheng estava a representar o papel de guia, no final iríamos todos comer por um 1/5 do valor previamente acordado… uma bagatela! 🙂 De qualquer modo, foi muito interessante perceber, como este tipo de negócios se processa, em que todos ganham e o turista é depenado! Porém desta vez a presa passou a predador e a raposa não percebeu que estava a ser comida por um lobo com pele de ovelha!

IMG_4872 (FILEminimizer)Fomos então conduzidos até uma casa antiga e aí encontrámos “relíquias” expostas nas paredes de madeira, entre as quais e para mim o ex-líbris do local, um cartaz do “camarada” Estaline. 😛 No segundo piso encontrámos um sótão/depósito de lenha e enquanto a nossa cicerone acendia o lume no piso térreo, nós explorámos o local. Quando descemos, o lume já estava aceso e a nossa cozinheira estava a lavar batatas e a pelá-las. Iniciámos então um momento culinário e de partilha, quando começámos a ajudar na preparação do almoço. 🙂

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Quando terminou toda a confeção, vimos quão barata estava a ser a refeição e como menu tínhamos: batatas novas, carne de porco fumada, grelos, sopa de ovo e tomate e arroz. Para além da quantidade, a qualidade era extraordinária! Tudo fresco, tudo saboroso, tudo… DIVINAL! 😀 Sem dúvida um dos melhores momentos gastronómicos e uma das experiências mais fascinantes da viagem até à data. 😀 Durante a refeição fomos dizendo que até o valor inicial era barato, mas naquele momento a roda já tinha sido posta em marcha.

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Depois do repasto a senhora foi buscar um casaco tradicional e trouxe-nos artesanato barato e artesanato personalizado, nessa altura compensámos um pouco a senhora – do preço do almoço – pois a Milène acabou por lhe comprar uns postais e uma fita bordada, mas claro que pelo meio ainda regateámos um pouco… e finalizámos toda a nossa encenação com as fotografias da praxe, em que ainda deu para rir com a diferença de estatura da Milène e da senhora – David e Golias, versão feminina 😛 . Todo este momento memorável durou aproximadamente três horas, mas foi de tal modo fascinante e singular que o tempo extravasou para o plano subjetivo e deixou de ser real. 😉

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

Reencontro à Mesa, Entrevista e Viagem Noturna

Reencontrei-me com JRD no final da rua da Tribuna e à distância reparei que trazia companhia – um jornalista do seu jornal. Feitas as apresentações, seguimos pela praça do Senado e na travessa de São Domingos encontrámos o nosso poiso, o restaurante Boa Mesa. Aí tivemos um excelente jantar – uma mesa portuguesa, concerteza – e o repasto consistiu em bacalhau à brás, pão quente, azeitonas, cervejas e café e… uma conversa que se veio a revelar “mitológica”! 😀 Durante o jantar, percebi finalmente que a vinda do jornalista tinha como objetivo, entrevistar-me e na praça do Senado – quarta vez nesse dia – tirámos fotografias e continuámos a entrevista, ou seria uma conversa de amigos!? 🙂

IMG_3592 (FILEminimizer)Daí seguimos para o Tribuna de Macau, onde continuei a conversar com JRD durante horas e com ele continuei a aprender e a analisar a China e Macau de uma perspetiva mais rica e profunda. 😀 Na despedida da redação recebi dois derradeiros presentes, um livro com ditos de Confúcio e um passeio noturno até ao outro lado de Macau – Taipa, Coloane e Cotai  nova zona da cidade onde construíram os grandes casinos que a transformaram definitivamente e a puseram no topo mundial do jogo – e na viagem de regresso à “velha” Macau fui deixado no porto dos “ferries”, com a “barriga” a rebentar de um dia tão cheio. 😀

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

Macau. Cheiro a Portugal

O ferry para Macau, ou melhor dizendo o barco rápido demorou uma hora redondinha a efetuar a viagem e durante a mesma, fruto da elevada quantidade de salpicos, não me foi possível ver nada. Antes de colocar o pé, num território que já foi português o meu passaporte teve de ser controlado, à semelhança do que ocorreu em HK, antes de embarcar.

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Na chegada, o dia estava agradável e fui recebido com sol, céu azul e calor – felizmente mais suportável do que em HK 🙂 – e a primeira visão “portuguesa” que tive foi descortinar um arranha-céus dourado no horizonte e batizado de “Grand Lisboa”. Segui pela cidade e as primeiras coisas que me despertaram a atenção foi observar que os carros conduzem pela esquerda à semelhança de HK e as ruas têm nomes em português. 

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O primeiro local que visitei foi a colina da Guia e a sua fortaleza, cujo interior alberga uma bela capela – construída entre 1622 e 1638 – e o farol – datado de 1865 – e à medida que percorria este local, lembrei-me dos meus heróis juvenis de Uma Aventura e que puseram a minha mente a viajar por Macau, muitos anos antes de aqui chegar fisicamente. 🙂

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Da colina até à praça Tap Seac foi um pulinho e aí tive pela primeira vez contacto com a bela calçada portuguesa e com um grupo de pequenos escuteiros. 🙂 Antes de encontrar o cemitério, passei pela magnífica rua de São Roque, onde se podem encontrar charmosos edifícios de traço português e as bonitas igrejas de São Roque e São Lázaro – que estavam fechadas – e pelo “jardim” Vasco da Gama. Quando cheguei ao cemitério, as suas paredes imaculadamente brancas estavam a ser pintadas de verde água e não fora o aparecimento de caracteres chineses e retratos com olhos e feições asiáticas nas campas iria jurar que estava em Portugal. 🙂

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Daí segui até ao Parque Luís de Camões, onde encontrei o “Luís”  acompanhado dos seus primeiros versos de Os Lusíadas; vistas da cidade e velhotes a jogar às cartas ou sentados a conversar e a bonita casa Jardim onde se localiza a delegação da Fundação do Oriente de Macau. A caminho das ruínas de São Paulo, passei pela igreja de Santo António – construída antes de 1560 e reconstruída em 1875 e que assinala o local onde os Jesuítas se instalaram na cidade – e pelo pequeno templo de Na Tcha – 1888. Quando cheguei às ruínas, a sua escadaria recebeu-me de “braços abertos” e rodeou-me de hordas de turistas. :/ Sem me demorar longamente, segui para o forte do Monte -construído entre 1617 e 1626 – onde pude voltar a contemplar Macau do alto e visitar o interessante e pedagógico museu da cidade. 🙂 Prossegui pelas ruas de São Paulo  super-turística e atulhada de pessoas – da Palha e São Domingos até à catedral, onde fiz a minha chamada para o JRD, diretor do jornal, e combinei passar pela redação, percorrendo antes a palpitante e fascinante praça do Senado. 🙂

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