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No Mundo da Cozinha Thai

Ato II – Culinária

Quando voltámos às nossas bancadas individuais, a primeira coisa que fizemos foi pôr o nosso avental vermelho e com as indicações da nossa instrutora pôs-se a cozer arroz de jasmim e um segundo tipo, sticky rice – um arroz que é peganhento, devido à goma existente no bago – que serviriam de acompanhamento para os pratos que iríamos confecionar.

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Começámos por fazer uma pasta de caril e no meu caso que escolhi a verde, a base eram chilis verdes – quanto mais compridos e maiores, menos picantes – cebola, alhos, cebolinho e gengibre. Tudo para dentro de um almofariz e depois foi pôr o pilão a bombar. À medida que os ingredientes iam sendo esmagados, o cheiro intensificava-se, um cheiro a chili fresco invadia o meu olfato. 🙂 Depois destes primeiros ingredientes já formarem uma pasta grosseira, juntou-se umas folhas verdes de outras plantas que não consegui fixar o nome, e continuei a esmagar até a pasta ficar mais uniforme, homogénea e pastosa. Tirei a pasta do almofariz e pus o máximo que consegui numa tigela, para a mesma apurar o seu sabor.

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Findada esta tarefa, voltámos a nossa atenção para as sopas, no meu caso: Tom Kaa com galinha. Numa pequena caçarola juntei leite de coco e ervas em lume brando – para aromatizar – depois piquei cebola, tomate e cogumelos e juntamente com uns bocados de galinha coloquei tudo dentro da caçarola e aumentei o lume até ao ponto de fervura e assim ficou durante cinco minutos, altura em que retirei a sopa do lume e a pus numa tigela.

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O segundo prato, tinha como base a pasta de caril previamente feita e o primeiro passo foi pô-la a fritar. Quando o cheiro se começou a intensificar, juntei-lhe leite de coco e galinha e passados poucos minutos as abóboras – uma amarela e outra verde. Depois de se apagar o lume juntei-lhe mais umas “plantas” e deixei tudo a apurar na caçarola. O meu terceiro prato foi galinha com cajus – cebola, cenoura, feijão verde, galinha, cogumelos, cajus e um molho que resultava da junção de outros dois – que foi feito num wook.

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Quando acabámos, partimos para a fase de degustação e a mesma foi espetacular pois tivemos a oportunidade de nos deliciar com os saborosos pratos confecionados. 😀 Foi um almoço farto: uma sopa, dois pratos principais, salada  e muito arroz. Quando acabei a refeição estava “grávido”! Ou quase… 😉 Depois do repasto tivemos meia hora para relaxar e durante esse período, aproveitei para conversar com uns holandeses. Ainda “grávido” voltei à minha bancada e quando me preparava para fazer a sobremesa e “fechar a loja”, vi que afinal faltava a confeção de mais um prato! Pad Thai. “Ok… sem problemas, vou cozinhar e depois peço um recipiente para levar para a guesthouse.” 😛 A verdade é que nem foi preciso. Terminado o prato, pusemos o mesmo num saco de plástico e ensinaram-nos a técnica Thai do empacotamento. “Porreiro pá! O jantar também está garantido.” 🙂

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Chegou-se finalmente ao último prato do dia, a sobremesa. A minha era manga com arroz pegajoso (sticky rice) e umas sementes. Deliciosa! Ah e como o Kristian não conseguiu acabar de comer a sua sobremesa – abóbora em leite de coco – eu fui em seu auxílio e dei-lhe uma ajudinha. Os amigos são para as ocasiões. 🙂 Depois de deixarmos as bancadas arrumadas e desimpedidas, despedimo-nos da nossa instrutora e partimos de regresso a Chiang Mai de papo, coração e memória cheios. 😀       

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Crónicas Em trânsito

Em trânsito: Huay Xai/Chiang Khong – Chiang Mai. Nervoso Miudinho!

Quando apliquei o visto da Tailândia em Vientiane havia uma questão que ninguém me tinha conseguido esclarecer: quanto tempo podia ficar no país com o visto que tinha impresso no passaporte? As opiniões dividiam-se: havia os que afirmavam 60 dias, uma vez que era esse o número máximo permitido pelo visto turístico; havia quem referisse, que como estava a cruzar a fronteira por terra esse valor seria reduzido para 30 dias; e havia ainda quem dissesse que dependia do oficial de emigração, enfim… Nada claro! :/ E neste caso específico eu necessitava de clareza, pois estava prestes a receber uma visita muito especial, que já se sabia, teria direito a estar 30 dias no país sem precisar de visto – entrada via aérea. Portanto o número de dias a que teria direito, iria traçar não apenas o meu futuro imediato, mas também o de “alguém”, que estava prestes a viajar milhares de quilómetros para me acompanhar durante um mês por terras do Oriente.

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Ainda no Laos fomos levados ao controlo de emigração e aí tivemos de pagar mais uma vez a famosa “taxa de fim-de-semana”, ou como eu gosto de chamar-lhe corrupção encapuçada! Desta feita a taxa era 10.000 kips ou um dólar – eles são corruptos e espertalhões, uma vez que na saída do país já quase ninguém tem dólares e os dez mil kips valem mais do que um dólar. Paga a taxa e carimbado o passaporte, apanhámos o barquito que nos fez cruzar o Mekong e pisei pela primeira vez solo tailandês.

Na posto de entrada, estava uma grande confusão e concentração de pessoas e para não me separar do resto do grupo pedi a um homem que parecia monitor de um grande grupo de miúdos, se podia passar à frente deles. De óculos escuros, cara inexpressiva e séria disse que não com uma voz seca e gelada e depois de um grande compasso de espera, lá afirmou que estava a brincar. Enfim o axioma da estupidez a funcionar, mais uma vez! Adiante. Na janela do oficial de emigração entreguei o meu passaporte e quando ele me perguntou quanto tempo pretendia ficar no país, expliquei que na próxima sexta feira iria receber uma visita e que por esse motivo os 60 dias seriam muito bem aceites. Ele olhou para mim e começou a folhear o passaporte e passado um minuto, ouvi o som de carimbos a bater. O veredito estava dado, eu é que ainda não sabia o resultado. Recebi o passaporte e enquanto ele fazia o gesto para seguir, senti o nervoso miudinho da incerteza e tinha esperança que a burocracia e o tempo despendidos tivessem valido a pena.

Abri o passaporte e vi o carimbo azul… admitted untill… e a data carimbada a vermelho! Consegui! Tudo valeu a pena! 😀 De sorriso nos lábios dirigi-me ao resto do grupo, que já estava pronto e disse-lhes que tudo correra bem. Juntos esperámos pela nosso táxi/carrinha e passado meia hora arrancámos estrada fora pelas paisagens verdes do norte da Tailândia, rumo a Chiang Mai… a capital dourada do Norte. 🙂

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Em trânsito: Luang Prabang – Huay Xai. Pelo Mekong Acima

Ato II – Pak Beng – Huay Xai. Pânico Matinal  

A viagem entre Pak Beng e Huay Xai, já na fronteira com a Tailândia decorreu com normalidade e foi em tudo uma fotocópia, do dia anterior. Mesma paisagem, mesmo preço do bilhete, mesmo número de horas de viagem, mais conversa com as mesmas pessoas, procura da guesthouse e jantar em grupo. 🙂

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(Através do olhar do Kristian)

Porém, houve um momento que ativou o meu modo de pânico e fez esta viagem ficar ainda mais memorável. Mas vamos aos factos: estava já no interior do barco a falar com um casal de americanos sobre fronteiras e vistos quando mecanicamente pus a mão no bolso lateral dos calções e… caiu-me tudo ao chão! Principalmente as bolas! Não tinha comigo as bolsas dos cartões e documentos – passaporte, cartões MB e de crédito – e onde estava todo o dinheiro tailandês que tinha arranjado no Laos – 35.000 Bath! Cerca de 875€!. Tinha ficado tudo debaixo da almofado no quarto! Fiquei em pânico e disse ao meus companheiros de viagem para não deixarem sair o barco enquanto não regressasse – isto com as mochilas a bordo. :/

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Larguei a correr encosta acima até ao local da guesthouse e quando lá cheguei as portas estavam todas fechadas! “Eu não acredito nesta m#%£@! Logo hoje é que tinha de encontrar uma guesthouse que funciona a meio gás!?”. Dirigi-me ao piso do quarto… Tudo fechado! Entrar pela janela? Impossível. Grades na mesma! “Ai a P%#@ da minha vida!”. Voltei a descer ao piso térreo e mesmo com um cadeado na porta – metálica e de correr – comecei a tentar abrir a mesma. Passados dois minutos desisti, nada feito! “E agora?”. Quando me preparava para procurar alguém nas redondezas, chegou uma carrinha com parte da família que geria a guesthouse. Muito rapidamente e freneticamente tentei explicar-lhes que me tinha esquecido do passaporte no quarto e num minuto deram-me a chave do mesmo. Galguei os degraus à velocidade da luz, abri a porta, dirigi-me à cama e ao levantar a almofada… lá estavam as famosas bolsas! 🙂 Deitei-lhes uma mirada rápida e pû-las no bolso. Tranquei o quarto, desci as escadas a voar, entreguei as chaves e voltei a correr desalmadamente encosta abaixo. Desta feita com a “santa” gravidade a ajudar-me no caminho de regresso ao barco.

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Quando lá entrei, disse aos meus companheiros de viagem que estava tudo bem e sentei-me dez minutos num banco, sozinho, a respirar e a deixar o meu corpo regressar a um ritmo normal. Durante esses minutos o barco acabou mesmo por partir e agradeci à boa sorte o facto de quase todos os transportes no Laos, atrasarem. Ai boa sorte, fortuna, estrela, destino, fado… ou outro nome que tenhas. Agradeço-te novamente, salvaste-me o pêlo! 😀

P.S. – A viagem de dois dias foi longuíssima, mas perfeita e o Mekong merece uma viagem destas. Porém ouvi relatos que a viagem feita na direção inversa, Tailândia – Laos, pode por vezes transformar-se num verdadeiro inferno e tormento, devido à lotação completamente esgotada dos barcos. 

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Em trânsito: Luang Prabang – Huay Xai. Pelo Mekong Acima

Ato I – Luang Prabang – Pak Beng. O Grupo Reúne-se

Na chegada a Prabang apanhei um tuk-tuk para o centro da cidade e durante a viagem conheci uns nativos que me informaram que para apanhar o barco para Huay Xai, deveria ir até um cais que ficava a doze quilómetros – geralmente, a informação fornecida pelos habitantes locais é imbatível. 🙂 Às sete da manhã estava no cais, à espera que a bilheteira abrisse e depois de esperar uma hora, comprei finalmente o bilhete rumo a Pak Beng.

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O barco partiu numa manhã de cinza e prata e ao longo do dia, fomos zingue-zagueando Mekong acima. Durante a longa viagem, que durou quase dez horas, observei a paisagem e a vida a bordo: as margens estavam cheias de vegetação e a inexistência de aldeias era quase total; o desembarque das pessoas era feito com estas a saltar para as margens cheias de lama; o rio era largo, castanho e barrento e nalgumas zonas cheio de rochas; de vez em quando viam-se os famosos e mortíferos barcos rápidos a passarem por nós quais balas – eu diria que fazer a viagem num barco desses e num rio com tantas rochas submersas é quase uma loucura; no barco havia uma mescla de turistas e nativos, as crianças sorriam e famílias inteiras dormiam no soalho; o barco estava carregado com sacas, caixas de cartão, bagagens e mochilas; os assentos eram muito confortáveis – poltronas de dois lugares – e em abundante número. Mas principalmente conheci e falei com muitas pessoas entre as quais um casal de estudantes polacos (Marcin e Agata), um assistente de cirurgia e aspirante a cirurgião alemão (Kristian) e um advogado israelita, quarentão e solteiro (Niro).

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Antes de desembarcarmos, convidei o Kristian para partilhar quarto e na chegada a Pak Beng, o grupo que se formou durante a viagem manteve-se unido. Juntos procurámos uma guesthouse, juntos jantámos num restaurante indiano, juntos passámos o serão num barzito em animada converseta. Estava feliz! E penso que essa felicidade provinha de depois de ter viajado com o Zhou durante tanto tempo, estava grato por continuar a encontrar outros viajantes com os quais podia partilhar experiências e aprendizagens. 🙂

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Crónicas Fotografia

Vientiane? M.M.E.D.G.Z.

Muitas pessoas associam a capital do Laos, às palavras: tédio e desinteressante. Porém e ao contrário dessas pessoas, Vientiane, foi para mim uma cidade cheia de boas recordações e memórias. 🙂 E terá sempre algumas palavras chave, associadas: o todo poderoso Mekong e os finais de dia de sonho; a estranha sensação que tive ao Meditar pela primeira vez na vida – observar que a mente/cérebro/pensamento não param! Aliás, aprender que é impossível parar de pensar e apenas podemos abrandar esse fluxo e observar o que se está a pensar. É quase como se nos tornássemos espetadores do nosso pensamento/mente – acompanhado pelo Zhou; na Embaixada da Tailândia, apliquei pela primeira vez um formulário para obter o visto de entrada no país; ganhei algum Dinheiro, fruto de câmbios sucessivos entre o Kip e o Dólar – economia paralela e aqui me despedi do Zhou. Goodbye, Zhou! Goodbye, my “crazy” friend! Goodbye, my good friend! 😀

MEKONG

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MEDITAÇÃO

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     EMBAIXADA

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DINHEIRO

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     GOODBYE ZHOU

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Crónicas Fotografia

Pedalando em Phonsavanh

Ato V – O Kiri também Voa

A estrada onde pedalávamos estava em boas condições, mas as rampas inclinadas e a impossibilidade de pormos mudanças, fazia com que existissem momentos em que tivéssemos que desmontar das “biclas” e levá-las pela mão colina acima. O facto positivo é que depois das subidas, geralmente seguiam-se descidas e foi numa delas que voei qual super-homem. 😛 Mas vamos aos factos…


Depois da compra de dois ananases e quase no final de uma mega descida, seguia montado na bicla, quando ouvi um pequeno ruído metálico e senti a roda da frente a ficar ligeiramente presa. Quando olhei para perceber o motivo, já era tarde demais! :/ A roda dianteira bloqueou completamente enquanto a traseira continuou a girar. O resultado foi a bicicleta empinar bruscamente para a frente, qual uma égua selvagem e catapultar-me – nesse momento pensei: “ Ai, F#$@-$%! Já foste!” – por cima da bicicleta, fazendo-me aterrar violentamente de peito num dos ananases. Prostrado e com a face colada ao solo, estive aproximadamente dois minutos, porém esse tempo esticou e pareceu uma eternidade. Nessa altura, pensei: “Que tralho FDP! Espero não ter nada partido”.

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Finalmente, levantei-me e pus-me a observar os estragos causados no impacto: pára-sol da máquina fotográfica partido em dois, um dos ananases esmagado – o outro sobreviveu – a mão direita sangrava e o pulso esquerdo tinha escoriações. A T-shirt cinzenta/creme e os calções estavam sujos de terra e por fim a bicicleta ficou com a roda da frente praticamente bloqueada. Depois de a observar, percebi finalmente, o que aconteceu. O barulho metálico que ouvi, foi causado pelos parafusos que prendiam o cesto que caíram e isso provocou uma reação em cadeia:  o cesto descaiu, pressionou o guarda-lamas contra a roda, esta parou de girar e… PUM, CATRAPUM! Kiri a voar, mas sem se magoar… muito! 😛

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Nessa altura, o Zhou não estava no horizonte e fui andando com a bicicleta pela mão até uma casa, onde por gestos consegui comunicar e lavar o sangue da ferida da mão direita. Para além disso e por sorte em frente da casa, estava uma carrinha de uma oficina e ao mostrar a bicicleta ao mecânico, este resolveu-me o problema com um sorriso na face… 🙂

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Voltei a montar a bicla e quando cheguei ao pé do Zhou – que me aguardava numa curva mais adiante – estava bastante irritado pois não conseguia perceber porque é que ele não tinha voltado atrás para me ajudar. Foi então que ele me explicou que não tinha visto nada pois já estava muito para a frente do local, onde voei qual águia imperial… 😛

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Crónicas O 1º Dia

Pedalando em Phonsavanh

Ato III – Phonsavanh, Phonsavanh, Phonsavanh…

Vindo das trevas, o nativo atravessou-se à nossa frente, parou a lambreta no meio da estrada e abriu os braços para pararmos. Nós parámos e ele começou a gritar: “Phonsavanh, Phonsavanh, Phonsavanh…” qual um disco riscado e a acenar com o dedo nessa direção. :/ Percebemos que ele queria que voltássemos para trás e fruto da sua agressividade, apesar de contrariados, começámos a pedalar em direção da aldeia. Ele montou a lambreta, seguiu-nos durante um bocado a poucos metros de distância e assim que reentrámos na aldeia ele virou para uma casa e nós seguimos devagar a “discutir” as nossas opções, comigo a praguejar: “Filho da P&%@! Já viste aquele c”$#%zinho de &$#£@?” e nisto demos de caras com o que parecia ser a nossa solução, a área de um mercado, com um telheiro gigante e com mesas de madeira a servir de bancadas de venda. Perfeito! 🙂 Estacionámos as bicicletas e prendemo-las com um cadeado. Nos entretantos fomos aliviar o peso das bexigas e sentámo-nos nas mesas prontos a descansar, quando…

Vimos a luz da lambreta e o nosso amigo a dirigir-se na nossa direção. “Ai a &$#£@, ãh! Marcação cerrada!?” :/ Assim que chegou recomeçou: “Phonsavanh, Phonsavanh, Phonsavanh…” e eu com a mão a acenar para ele ter calma e em inglês: “Yes, Yes… We go.. After. Now we need to rest”. Uns minutos depois ele voltou a montar na lambreta e desapareceu, mas foi sol de pouca dura, porque quase imediatamente voltou com o seu amigo tradutor. Este tentou dissuadir-nos de dormirmos ali: “Cuidado com a vossa segurança. Ai os assaltos. Ai os mosquitos. Vocês têm de ter cuidado, convosco” e eu a responder-lhe: “O Laos é um país muito seguro e com pessoas muito afáveis. Muito obrigado pela vossa preocupação. Não se preocupem que nós temos repelente. E nós vamos voltar a Phonsavanh, claro! Mas agora estamos a repousar e para além disso o Zhou, o meu amigo, tem medo de trovoadas”. 😛 Tudo isto com um sorriso irónico estampado. Entretanto apareceu um nativo mais velho a falar francês e embriagado, ao qual eu cravei um cigarro e ouvi durante cinco minutos, até ele desaparecer do mercado e da equação. 😛

Passados poucos minutos os nossos amigos começaram a falar em polícia e que tínhamos de sair dali porque podíamos ir presos ao que lhes respondi que se a polícia nos desse boleia para Phonsavanh sairíamos dali com todo o prazer. De outro modo, impossível, porque estávamos muito cansados. Voltaram a desaparecer e eu nesta altura só me ria e dizia ao Zhou: “Mas esta &$#£@ não acaba? Ai santa de paciência!” e claro que quem aparece e desaparece tantas vezes, não pode deixar a estória morrer aqui. Quando voltaram, traziam consigo um telefone portátil com eles. “Oh diabo! Mas para que raio querem aquilo?”, enquanto falava com o amigo tradutor, que entretanto já sabia tratar-se do professor da escola da aldeia – bem pelo menos foi o que ele disse – o cretino mor começou a falar em alta voz e pareceu-me que estava ao telefone com uma telefonista ou operadora de linha.

Quando o telefonema acabou fizeram-nos sinal para os seguirmos e o “professor” explicou-me que íamos ficar no centro de turismo, ao que respondi que não tinha nenhum problema com isso. Durante o trajeto, o “professor” desapareceu e nós seguimos o cretino mor até ao “centro”, estacionámos as bicicletas e ficámos sentados debaixo do telheiro. Nesse período, saiu de dentro do edifício um idiotazito a gritar-nos Phonsavanh e a enxotar-nos até que apareceu o cretino mor a fazer sinal que as bicicletas tinham de pagar “parque”. Eu no telemóvel pûs 5000 kip (0.50€) e mostrei-lhe, ele apagou o valor e pôs 3.000.000 kip (300€). Nessa altura não me contive e ri-me na cara dele, aquela era a confirmação que eu esperara a noite toda, o cretino mor não passava de um palhaço corrupto à procura de dinheiro. Nessa altura o pouco respeito que já lhe tinha desapareceu por completo.

Eu e o Zhou levantámo-nos e ele perguntou: “Phonsavanh?” e eu disse: “Sim. Sim. Phonsavanh”. Começámos a pedalar, com o cretino mor na nossa roda traseira e perguntei ao Zhou se íamos encenar a despedida ou se íamos diretamente para o mercado. A resposta foi-me dada, quando ao passarmos pelo mercado o Zhou cortou bruscamente para lá e eu segui na sua roda, enquanto o cretino mor, parado na estrada gritava de braços abertos: “Phonsavanh, Phonsavanh, Phonsavanh…” e eu a dizer para mim próprio: “Sim… sim… Phonsavanh…”     

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

Pedalando em Phonsavanh

Ato II – A Rota Certa e o Insólito

Depois da nossa visita, voltámos a pegar nos nossos corcéis de metal, seguimos viagem e já numa estrada de alcatrão, após uma dança mortal entre galos e meia hora de circulação percebemos que tínhamos estado a tarde inteira em estradas erradas! Pois nessa altura começámos a ver indicações turísticas sobre a planície dos Jarros. Ups! Desculpa Laos, fui precipitado na minha análise anterior. 🙂

IMG_7810 (FILEminimizer)Finalmente e já na rota certa, continuámos a pedalar e por volta das 17.00 entrámos numa estrada de terra batida que nos levaria aos outros dois locais que queríamos visitar. A paisagem era um misto de arrozais, campos verdes, lagos e charcos, pastagens, alguns montes e colinas, o céu estava azul e havia nuvens cheias de densidade, textura e reflexos que se assemelhavam a um arco-íris. 🙂 A estrada por sua vez era um misto de terra argilosa e lamacenta, zonas cheias de pó e pedras. O pôr do sol foi visto quando parámos para comer os poucos mantimentos que carregávamos connosco e nos sentámos na erva de frente para um mini lago muito perto da estrada.

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Enquanto comíamos o insólito começou, primeiro lentamente com o aparecimento de um nativo que parou a sua motorizada junto das nossas bicicletas e se dirigiu a nós a falar em Laosiano. Nós acenámos que não com a cabeça, que não percebíamos nada do que ele dizia e passados cinco minutos, foi-se embora. Após dez minutos o nativo estava de volta, com um companheiro que começou a servir de tradutor. Os rostos eram amigáveis e começaram a fazer perguntas: De onde éramos? Para onde íamos? Onde íamos ficar a dormir? Nós lá fomos respondendo com naturalidade, mas aos poucos e poucos eu que já no primeiro momento não tinha gostado muito do nativo, comecei a ficar desconfiado e assim que acabámos de comer disse ao Zhou para seguirmos viagem. Montámos as bicicletas e fruto da minha desconfiança ficámos à espera que eles arrancassem primeiro. Esperámos durante cinco minutos e como eles não arrancaram, arrancámos nós. O ambiente era estranho e pouco claro e pedalámos muito lentamente para ver a reação deles.

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Passados mais dois ou três minutos eles aceleraram a lambreta, passaram por nós e desapareceram da nossa vista. Aleluia! 🙂 Continuámos a pedalar, agora já com um ritmo normal e em menos de dez minutos estávamos a entrar numa pequena aldeia. Nessa altura víamos no céu, de tempos a tempos a luz de relâmpagos e decidimos falar com alguém para nos abrigarmos nalgum telheiro e aí ficarmos a dormir. Parámos e tentámos falar com os donos de um pequeno restaurante, mas eles não nos compreenderam e continuámos a pedalar até sairmos da aldeia e, no cruzamento que dava acesso aos sítios 2 e 3, o insólito absoluto aconteceu…

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Dívidas, Templos & Lady Boys

Depois da desilusão, voltámos ao quarto e eu perguntei ao Zhou se queria visitar o museu do palácio real e o Haw Prabang, ao que ele respondeu que ficaria a dormir. Como naquela altura, já me devia um milhão de kip – 100€ – e não se mostrava muito preocupado em pagar, o que me estava a deixar irritado – até porque já não “nos” restava muito dinheiro – resolvi levar o portátil comigo, não fosse o diabo tecê-las – afinal conhecia o Zhou há menos de duas semanas. O dinheiro custar-me-ia a engolir mas seria suportável, o computador… nem por isso! :/

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Combinámos então que depois da visita, eu voltaria à guesthouse e continuaríamos juntos a ver a cidade e os seus incontáveis templos (Wat). Depois de uma visita agradável mas não memorável, voltei à guesthouse e apanhei o Zhou, que não tinha aproveitado a minha ausência para fugir… 😛 a partir desse momento, relaxei mentalmente e decidi confiar nele a 100%. 🙂

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Seguimos pelas agradáveis ruas de Prabang, a vasculhar a melhor taxa de câmbio para os dólares do Zhou e entrar em quase todos os templos que encontrávamos. Chegámos então ao Wat Xieng Thong – templo da cidade dourada – e como se tinha que pagar o Zhou manteve-se fiel à sua filosofia económica e não entrou. As surpresas começaram logo à entrada, pois na bilheteira encontrei um lady boy e fiquei admirado, pois não esperava encontrar um Laos tão aberto relativamente a esta questão, mas… ao que parece é uma questão cultural e novamente fui relembrado que os países são como as pessoas, todos diferentes. 🙂 Já dentro do templo, maravilhei-me com os seus telhados, com as suas figuras desenhadas com vidros coloridos, com os seus dourados e misturas de cores, com os trajes açafrão e laranja dos monges e no final fui presenteado com a oportunidade de falar com um noviço e aspirante a monge. 😉

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Muang Ngoi. Paraíso na Terra

Na pequena vila de Muang Ngoi e que parece já não ser deste século eu e o Zhou ficámos quatro dias e regressámos a uma era, em que tudo parou. Tudo se passa devagar e com tranquilidade. 🙂 Aqui a rua principal ainda é de terra e lama e as casas construídas principalmente com madeira e chapas de zinco.

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Durante o tempo que aqui estivemos passeámos em redor da vila, visitámos uma gruta negra como breu e bonitos arrozais, vi pela primeira vez monges de vestes laranjas, atualizei o caderno e escrevi para o blog, comi um par de vezes um delicioso caril de abóbora e múltiplas vezes um divinal arroz doce feito com leite de coco e… cheguei ao Paraíso. 😀

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Num desses dias, fomos pescar com um nativo – Bino – e posso dizer que foi uma experiência extraordinária e magnífica. 😀 Num barco muito estreito, partimos em direção a norte e no meio do largo rio, senti-me minúsculo com a monumentalidade da paisagem que a minha vista abarcava: o rio castanho e barrento; as colinas verdes erguendo-se de ambas as margens, coroadas com fiapos de nuvens; o nevoeiro nas copas das árvores. A viagem durou cinquenta minutos e em algumas zonas, a topografia das margens era mais aberta e menos acentuada, noutras as montanhas e colinas não estavam totalmente cobertas de vegetação, vendo-se as faces expostas da rocha – branca, preta e avermelhada – e nas restantes áreas via-se uma floresta densa, verde e luxuriante. 🙂

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Mesmo com chuva e à medida que subimos o rio, fui pensando que mesmo que não fizéssemos mais nada o passeio já estava pago! 🙂 E que se não o tivéssemos feito íamos perder muito, muitíssimo do que este lugar é. O corpo está na vila e arredores. A alma está aqui! No rio a norte. 😀

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Quando Bino atracou o barco estávamos num banco de lama e areia e não foi preciso muito para eu e o Zhou nos enterrarmos acima do tornozelo – claro que o nosso guia como bom nativo, não se sujou um pingo sequer. 🙂 Com os pés cheios de lama fomos até à aldeia de Banvattanatam e aí vimos pela primeira vez, bonitos thais artesanais, os quais fizeram o Zhou apaixonar-se perdida e imediatamente. Quando perguntámos o preço pediram-nos 50.000 kip (5€) por cada um deles e começámos as negociações… 😉

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