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O Globo de Perhentian

Na altura que cheguei a Perhentian Kecil o fim de temporada estava ao virar da esquina. Desse modo, encontrei a ilha em processo bastante rápido de encerramento, com a maioria dos restaurantes, escolas de mergulho e até alojamentos fechados. Porém e devido a tal facto, a quantidade de mochileiros era muito mais reduzida e a verdade é que durante o dia e nalgumas pequenas festas de praia acabou por gerar-se um ambiente mais íntimo e familiar. 🙂

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Nesses cinco dias, conheci pessoas de diferentes nacionalidades – alemães, britânicos, americanos… – acabando por criar uma rotina de deliciosos jantares de BBQ, muita conversa e alguma festa; ainda fui a tempo de fazer um mergulho nas águas azuis e cristalinas da ilha; torrei ao sol naquela bonita praia de areia branca; escrevi no caderno e publiquei alguns textos no blog. 🙂

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O único momento que ensombrou aquele simpático lugar, foi quando levei dois chapadões de um nativo que meteu na cabeça que eu lhe tinha roubado uma lata de cerveja, mas felizmente para mim, fiquei tão aparvalhado com o episódio que nem sequer tive reação para ripostar. Pois acredito que se o tivesse feito, tinha sido “comido” instantaneamente por aqueles autóctones… :/

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Na ilha Perhentian o tempo congelou e durante o tempo que lá estive vivi quase sempre no globo de cristal de Charles Forest Kane, um tempo sereno e tranquilo… isolado do “mundo exterior”. 😀

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P.S. – Na Ásia, as pessoas são na maioria das vezes extremanente afáveis e serenas, porém e se há alguma ação que lhe “manche” a honra, elas ficam totalmente em polvorosa e agressivas. :/ E depois deste episódio, a noção que me deu, é que neste continente a vida de uma pessoa pode valer menos que uma lata de cerveja. 😦

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Crónica de um Regresso

Como medir dezasseis meses fora do nosso país? No regresso nada e tudo mudou. Nós, os outros, os demais… As casas estão iguais, os cheiros e as conversas imutáveis, até o aspeto da maioria das pessoas pouco se alterou… mas e nós? Podem dizer-nos que estamos mais magros e a nossa pele mais escura… mas será que isso é o fundamental? 🙂

A 21 de Fevereiro de 2013, escrevi no primeiro dos meus cadernos que me acompanharam durante toda a viagem asiática: “ (…) cheguei a Pequim, que o meu sonho se transforme finalmente em realidade! Agora é tempo de agarrar a mesma, com toda a força do meu ser e neste período, que dure o que durar, eu o veja e sinta sempre como um período de aprendizagem e de enriquecimento pessoal e que saia da viagem: mais humano e mais completo; com uma ânsia de viver e de conhecer continuamente renovada; e com o meu caminho de vida pessoal mais clarificado ou iluminado, tal como um bodhisattva.”

Passado este tempo e relendo um dos últimos parágrafos do separador “Sobre” no meu blog, não posso deixar de sorrir… 😀 Fiquei a milhas de chegar a Istambul na Turquia e tão pouco me aproximei do estado de iluminação. Não sou Buda, não sou Jesus, nem tão pouco Alá e não pretendo ser nenhuma destas pessoas… Sou humano, tenho ossos e músculos, carne e sangue, tenho a mesma luz e sombra, a mesma destruição e criação, que todos temos dentro de nós e a minha vida é tão mais interessante e desafiante desse modo.

Ontem dia 21 de Junho de 2014, quase a aterrar escrevi: “(…) quase, quase a chegar a Lisboa posso afirmar que estou contente… sinto-me feliz por regressar e vou tentar aproveitar ao máximo estes primeiros tempos no meio da minha família e dos meus amigos que me amam. Vou continuar a escrever e a viajar na minha vida. Ambas fazem parte da minha essência e não me tenciono negar mais a mim mesmo. Acredita em ti miúdo! Não hesites! Não desistas do teu sonho de viajar! A jornada é demasiado bela para parar e o vento uma força demasiado poderosa para ser travada! O mundo é um local belo! Que merecer ser visto e revisto, e eu faço parte dele e ele parte de mim! Hoje no regresso ao meu país que me criou como homem e cidadão do mundo, faço votos de casamento com o Mundo! Não me abandones! Que eu ser-te-ei fiel.”

P.S. – No aeroporto e depois de uma espera interminável pela bagagem (que cheguei a pensar que se tinha extraviado) reencontrei a minha mãe, a minha irmã, uma prima e um dos meus melhores amigos e depois de os abraçar e beijar e de um pequeno compasso de espera partimos para a minha cidade natal. Aí e na casa de uma das minhas avós… recebi o maior presente de todos! 😀 Grande parte da minha família e dos meus amigos organizaram-me uma festa surpresa! 😀 Saí do carro aparvalhado e mega FELIZ e com eles partilhei as minhas primeiras horas em solo luso. A todos eles e a todos vós, MUITO OBRIGADO, por fazerem parte da minha vida e por me deixarem fazer parte da vossa. É um privilégio e uma honra! E eu sei que sou uma pessoa com sorte… 😀

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Back to KL. Couchsurfing e Viagem ao Mundo do Islão

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Nesta segunda visita a Kuala Lumpur, tive a minha primeira experiência de couchsurfing e fiquei alojado na zona de Bangsar, num “palácio” com vista para a cidade, condomínio privado e com acesso a uma piscina! Sortudo!? Naaaaaaa… 😛 o meu anfitreão, Raul trabalha numa equipa de criativos de marketing e durante os dias que estive em sua casa revelou-se bastante amistoso, mas ao mesmo tempo muito ocupado. Desse modo, um dos melhores momentos que tivemos juntos foi quando visitei o seu escritório e aí tive a oportunidade de observar a cidade do alto e de ver como uma decoração colorida, engraçada e leve ajuda a promover um ambiente inspirador e criativo. 🙂

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Em três dias, visitei as Batu Caves (conjunto de templo hindus que ficam no interior de uma grande caverna); a Mesquita Nacional, onde conheci um rapaz sírio (de olhos azuis e pele branca!) com que fiquei a conversar sobre a religião islâmica (“Sabes porque Deus nos fez  todos diferente? Para aprendermos uns com os outros!” 😀 ); o bonito e interessante Museu Islâmico e o entediante Museu Nacional, que a única parte interessante que teve foi quando aprendi um pouco sobre Malaca e a sua conquista por nós portugueses, a 24 de Agosto de 1511. 🙂

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Para além das visitas que fiz e das conversas que tive, escrevi alguns textos para o blog, atualizei o caderno e apanhei um bus noturno para Kuala Besut, a cidade onde iria apanhar o barco para as ilhas de Perhentian, meu próximo destino.

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Kuching. A Casa e a Austríaca

Entre as idas a Gunung Gading, a Bako e o regresso à Malásia Peninsular, o magnífico hostel de Kuching (Wo Jia Lodge), onde dormi quatro noites de forma não consecutiva, foi para mim como uma casa. 🙂 Pelo ambiente que encontrei, pelo staff e pelas pessoas que conheci, principalmente uma rapariga austríaca e de quem fiquei amigo, Sonja. 😀

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Kuching foi de longe a cidade mais agradável e interessante de todo o Bornéu e foi aí que resolvi o problema da máquina fotográfica, pois comprei um “corpo” em segunda mão igual ao que tinha; visitei alguns museus e a bonita mesquita da cidade, passeei, comi muito bem e principalmente tive dias muito tranquilos e repousados no hostel. 🙂

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Trilhos de Bako

Para chegar ao parque nacional de Bako, primeiro apanhei um autocarro local para um cais que fica nos arredores de Kuching e seguidamente um barco que seguiu primeiro num rio de águas barrentas e depois no oceano. A viagem durou aproximadamente meia hora e na chegada à praia de Tanjung – local do HQ – vi uma paisagem dramática e surreal de árvores já secas e mortas, mas com a água do mar a submergir grande parte dos seus troncos… Belo! Trágico! Inesquecível! 😀 

Nos dois dias que estive no parque, maravilhei-me com o meu último pedaço de selva do Bornéu e todas as caminhadas que fiz nos múltiplos trilhos mostraram-me diferentes faces da ilha. 🙂 Aliás, em Bako foi fascinante observar como num espaço tão curto, existem tantas variações de paisagem, tanto em termos de vegetação, como de geologia! Na ilha existem florestas tropicais, manguezais, locais que se assemelham a florestas mediterrânicas! Praias desertas e selvagens – Paku, Tajor, Besar e mais bonita de todas, Kecil; enseadas, baías, falésias de rocha negra, formações rochosas que brotam do mar, rochas areníticas: castanhas, cinzentas, brancas, bordôs. 😀

Para além da fantástica paisagem vi muitos tipos diferentes de animais:  macacos – silver leaf, proboscis – a menos de um metro de distância 🙂 , cauda longa; porcos selvagens mas inofensivos; serpentes – uma verde, uma castanha e pequena e outra negra e amarela; pássaros – King Fish; escorpiões; aranhas, peixes; e um sapo minúsculo, mas altamente venenoso; e ao final de cada dia falei com diferentes pessoas, sobre diferentes assuntos. Dias de Bako? Dias muito felizes! 😀


P.S. – O único senão na experiência da ilha de Bako, foi observar a “marosca” legal na venda de bilhetes para o barco, uma vez que no cais somos “forçados” a comprar bilhetes de ida e volta! :/ O ideal mesmo é embarcar com pessoas que voltem no mesmo dia, para se poder dividir a despesa.

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Gunung Gading. Raflésia e Jungle Trek

Depois dos acontecimentos “obscuros” de Kapit 😛 , fiz uma grande viagem para Kuching. Primeiro regressei a Sibu no barco das 9.00 e já nessa cidade apanhei um autocarro que me transportou por quatrocentos e sessenta e dois quilómetros e oito horas de viagem até à cidade dos gatos. Depois da noite em Kuching, acordei bem cedo e fui até ao centro dos parques naturais, aí quando me preparava para marcar a estadia no Parque Nacional de Bako, vi um aviso sobre o Parque Nacional de Gunung Gading e da existência de uma raflésia em flor – extremamente rara. 🙂 Desse modo, alterei um pouco a minha rota e parti imediatamente para esse parque natural.


Na estação central, apanhei um autocarro para Lundu e depois de uma curta viagem de hora e meia, cheguei à pequena cidade onde me abasteci de mantimentos e água. A caminho da entrada do parque, carregado com sacos e com uma pequena mochila, apanhei uma boleia de scooter e a viagem foi uma risada, pois o meu condutor era muito bem disposto. 😀

Já no parque e depois de largar os mantimentos e a mochila parti para ver a famosa flor, uma vez que a mesma estava muito próxima de um dos trilhos, porém e até a encontrar andei aos “papéis” durante meia hora. 😛 Passado esse tempo, consegui vislumbrá-la e quando me aproximei da mesma fiquei impressionado com o seu tamanho (cerca de meio metro de diâmetro). No entanto a flor, já estava a morrer e a ficar enegrecida e desse modo este encontro, não foi assim tão memorável e espetacular… :/

Muito mais especial e ainda durante essa tarde, foi o momento em que reencontrei o casal de espanhóis que conheci no Brunei e quando apanhei uma mega trovoada nas imediações da cascata número 7! Quando fiz o caminho de regresso ao HQ, a água escorria por todos os lados e tive a sensação que descia não um trilho, mas um rio! E a verdade é que em dois locais do trilho foi isso que encontrei. Rios criados pela água da chuva e que transformaram de tal modo a paisagem que só acreditei que aquele era o caminho de regresso pois as árvores continuavam pintadas com as mesmas cores. Surreal! 😀 E senti-me muito feliz por ter tido a oportunidade de experienciar e viver, a força da natureza sem quaisquer filtros ou barreiras.

Espetacular e memorável em Gunung Gading, foi o trekking na selva que fiz desde o HQ até Rock Well e o caminho de regresso (aproximadamente dezassete quilómetros). Inicialmente a caminhada estava para ser feita apenas até Gudung Gading (três quilómetros e seiscentos metros), porém como cheguei ao “topo” em apenas duas horas e fiquei admirado com a facilidade da “ascensão” – as estimativas do parque apontavam para três/quatro horas – decidi continuar e embrenhar-me na selva e ir até Batu Berkubu. E… ainda bem que o fiz! Pois essa opção revelou-se um desafio físico intenso e apaixonante. 😀 O trilho estava bem marcado e só havia que manter a concentração para não cometer nenhum erro, uma vez que estava completamente sozinho e não havia ninguém que me pudesse ajudar num raio de quilómetros. Sozinho no meio do trilho, no meio da selva, lá fui seguindo. Intenso! Ainda para mais, porque havia algumas zonas do trilho que estavam cheias de pequenos obstáculos, troncos caídos e vegetação densa que intensificavam ainda mais a experiência! A verdade é que às 11.30 já estava no final do trilho, em Rock Well, uma zona de formações rochosas interessantes. Já mais relaxado, mas sempre concentrado fiz o caminho de regresso ao HQ! E o parque de Gunung Gading, ficará para sempre associado às palavras… JUNGLE TREK! 😀

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Kaput em Kapit     

No dia seguinte parti com a Valentina para Kapit, uma cidade que fica a meio caminho entre Belaga e Sibu, e ai reencontrámos uma família que Valentina conhecera na sua rota para Belaga. Assim que desembarcámos fomos guardar as mochilas na receção de um pequeno hotel, que Valentina conhecia e depois fomos ao encontro deles. 🙂

Por coincidência nesse dia, estava a decorrer na cidade uma corrida de barcos rápidos e depois de encontrarmos parte da família e de comprarmos alguma comida, partimos para as margens do rio para fazer um piquenique e ver as corridas. 😉 Durante a tarde brincámos com e como crianças, aprendemos malaio, rimos, fumámos, comemos qualquer coisa e fomos bebendo uma bebida tradicional que as senhoras da família diziam ser fraquinhaaaaaaaaa…

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A partir de certo momento senti que estava a ficar “carregado” e a última coisa que me lembro dessa tarde foi de já estar preparado para embarcar. E depois? O vazio… o sonho… a escuridão! Quando acordei eram 3.30, não sabia onde é que estava e quando comecei a tomar consciência, pensava que estava em Portugal! Ao abrir os olhos, não reconheci o local, parecia uma sala e depois de ver a Valentina a dormir ao meu lado, percebi o que acontecera… Tinha apanhado uma “carga” descomunal e não me lembrava das últimas onze horas! Ora, bolas! Antes de voltar a adormecer apenas pensei: “espero não ter feito muitos estragos”… 😛

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No dia seguinte às 6.00 e enquanto bebia um chá, Valentina iluminou-me o espírito sobre o que tinha acontecido e pelos vistos não fiz nada de muito idiota! Ao que parece, consegui embarcar e desembarcar sozinho e sem cair ao rio 😛 ; no acesso à casa da família fui dizendo que não precisava de ajuda, mas acho que alguém me ajudou a subir a imensa escadaria; e já em casa deles, felizmente na varanda, comecei a vomitar e depois de o fazer durante um bocado, puseram-me a dormir… Pela descrição não foi demasiado mau! Mas, não me orgulho e gostaria de ter estado consciente para aproveitar a companhia desta alegre família. Bebida tradicional de Kapit? Kaput!

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Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato V – A Italiana e o Coração do Bornéu

No regresso a Belaga e na casa/hostel/guesthouse do Daniel conheci Valentina, uma rapariga italiana que viveu na Austrália durante dois anos, aproveitando a oportunidade (que certas nacionalidades podem usufruir) de poder viajar no país enquanto trabalhava (working holiday visa) e durante horas falámos de experiências de viagem, planos, opções para o futuro… 🙂

Por volta das 15.00 partimos com o Rowdy, um amigo dele e os dois cães da família para pescar, bem… quer dizer… apanhar peixes, pois a técnica de pesca daqueles “meninos” consistia em dar um choque elétrico localizado na água e depois só tinham de apanhar os peixes mortos ou inconscientes! 😛

Partimos da pequena e sonolenta cidade pelo rio Rajang rumo a sul e depois de duas interseções com outros rios (um deles o Belaga), atracámos o barco partindo à aventura! No início eu e a Valentina fomos acompanhando o desenvolvimento da “pescaria”, mas passado um bocado começámos a andar mais depressa e quanto mais penetrávamos nas margens do rio e mais víamos, mais queríamos ver! 🙂

O local estava a revelar-se um mini-desafio físico de equilíbrios e encontrar passagens escondidas. Quanto mais andávamos, mais selvagem a paisagem era. 🙂 Às rochas, pequenas cascatas e piscinas naturais, iam-se juntando bancos de areia que formavam ilhas cobertas de vegetação luxuriante, troncos e árvores centenárias, lianas. Surreal, eletrizante, magnético… estávamos a ser atraídos para o olho do furacão, mas queríamos mais! 😀 Queríamos trespassar o coração do Bornéu com uma faca afiada e ao romper o seu tecido, ficar cobertos de sangue, cobertos de vida.

E eis que conseguimos chegar à sua alma! 😀 Depois de escalarmos mais umas rochas, “batemos” de frente com uma cascata que era quase uma parede vertical e ao ter tal visão, senti que este era o meu final feliz, o meu final perfeito para a minha viagem ao coração do Bornéu por palavras! 😀

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Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato IV – Na Tribo. “Bro… Steady…Slow” e Experiência ZEN

Tawing disse-me então: “Bro. Sit.” E eu sentei-me de costas contra uma parede e senti toda a minha roupa a colar-se ao meu corpo, fruto do suor abundante. Tawing começou então a mexer no cesto de verga e a retirar todos os mantimentos. Depois de o fazer, agradeceu e quando dei por mim já estava a separar o arroz, o açúcar e o café e a entregá-los a duas pessoa que entretanto tinham entrado na casa: Yean (um velhote de cabelos brancos e curtos, bastante magro) e Ngawet (uma senhora de meia idade que trazia com ela duas crianças, uma menina e um rapaz de olhos vivos e curiosos, mas envergonhados).

Feita a divisão e entregues os mantimentos, Yean e Ngawet partiram e eu fiquei novamente a sós com Mao e Tawing, que por esta altura pegou na garrafa de vinho de arroz e me perguntou: “Bro, drink?” e após bebermos dois copos, virou-se para mim e disse: “You…eat.” Durante cerca de meia hora não o vi e apenas ouvi o barulho de utensílios metálicos a baterem na cozinha (fosse o som de um cutelo a atingir a madeira, fosse o som de uma espátula a raspar um wok), nesse tempo Mao continuava impávida e serena, sentada e volta e meia mascava as tais raízes vermelhas, tal como eu presenciara no dia anterior na longhouse. Eu entretanto, tentava esvaziar a mente.

Quando o Tawing voltou, trazia consigo arroz, frango cozinhado de duas maneiras (uma em forma de caldo e a outra guisado) e uma caneca gigante de café preto que tinha uma dose bastante generosa de açúcar. 😛 A comida dava para um batalhão e eu apontei para a comida e para eles os dois e disse-lhes: “Eat.” Tawing acenou que não com a cabeça e respondeu: “Eat, Bro, eat”. Comecei então a comer e a verdade é que estava esfomeado e durante meia hora mantive-me calado e de boca cheia. Comi, comi, comi… e mesmo deixando muita comida, fiquei completamente saciado. Assim que terminei, Tawing começou a arrumar tudo, não me deixando fazer nada e foi então que apontou na direção do rio e disse: “You Bro, swim”.

Sentia-me um bocadinho incomodado com o facto de estar a ser lord, mas como não conseguia comunicar com ele, vesti os calções de banho e de chinelos nos pés e toalha na mão parti para o mesmo. Em menos de dois minutos estava à beira não de um rio, mas sim de um riachozito e neste local tive um momento completamente relaxado, de paz e “iluminação”. 😀 Um momento ZEN de plena comunhão com a natureza! Deitado de costas nas pedras do riacho, sentia a água que corria a refrescar-me o corpo cansado e a retirar o som do ambiente (ouvidos tapados com água), os meus olhos estavam cerrados e a minha mente relativamente apaziguada e eis que surgiu o momento… quando voltei a abrir os olhos e com o corpo na mesma posição, vi nuvens brancas a correrem no céu, veloz e alegremente e os ramos e as folhas das árvores a serem agitados pelo vento e senti que tudo na vida e na natureza estava ligado ao movimento. O rio que corre, as nuvens que desfilam, os ramos e folhas que se agitam. Tudo muda, tudo é mutável, tudo se transforma, adapta, reformula e reinventa. 😀

Ao voltar a casa de Mao e Tawing estava muito mais fresco, sentia-me bem e assim que cheguei aproveitei para me hidratar, primeiro com água e depois com mais um “caneco” de café. Tawing disse-me então: “Friend, steady…slow” e fiquei a vê-lo mascar as famosas raízes vermelhas e tentei manter-me focado naquele momento, mesmo que este fosse um bocado parado demais! 😛 Passado quase uma hora e depois de mais alguns “Friend, steady…slow”, Tawing fez-me sinal para o acompanhar na visita a casa de uns amigos e aí ficámos apenas na zona do alpendre, “quietos e vagarosos” a fumar um cigarro.

Regressámos a casa de Mao, onde permanecemos mais meia hora “quietos e vagarosos” e já depois do lusco-fusco e da noite cair, fomos descalços até casa de Ngawet, onde estivemos quase uma hora. Aí para além de continuar a ouvir o Tawing a pronunciar: “Steady and slow”, vi os hábeis dedos de Ngawet a construírem um “tapete” gigante de verga, com o auxílio da luz bruxuleante de uma candeia rudimentar… e neste ambiente místico e misterioso, fumámos um jacolait (um cigarro enrolado com um tabaco particularmente forte e intenso). 😀 No regresso à casa de Mao, recusei educadamente a refeição, pois ainda me sentia saciado do almoço e pouco mais havendo a fazer, apenas me restou deitar para dormir e repousar o corpo e a mente, após um dia simultaneamente adrenalizante, como “steady and slow”. 😉

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Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato III – A Caminho da Tribo. Encontro com Mao

Já na margem, despedi-me e agradeci profundamente ao meu barqueiro. Recomecei a andar e as diferenças para a primeira vez eram mais do que temporais (duas horas de distância), eram essencialmente emocionais, desta vez sabia que ia correr tudo bem e que não haveriam mais enganos ou dúvidas! Agora independentemente do trilho ia ser fácil, era isto que sentia. 🙂 Com estes pensamentos em mente, fui percorrendo o mesmo sempre com cuidado e realmente não haviam mesmo dúvidas! O trilho era claro e inequívoco! O único problema mesmo era o atrito, aliás a sua ausência.

Durante quase duas horas andei ladeira acima, ladeira abaixo, passando o rio em pequenas pontes sempre carregado com a minha mochila pequena e com o super-desconfortável cesto de verga. De vez em quando, amaldiçoava o peso do mesmo e o facto de ter de o carregar, mas quando finalmente avistei uma casa de madeira com telhado de zinco soube que a minha penitência estava a terminar e estuguei o passo. Ao encontrar um nativo, sentado na entrada da casa, perguntei-lhe por Mao e ele fez-me um gesto largo, para seguir em frente.

Passei por mais um par de casas, uma delas abandonada e por umas hortas e quando encontrei outra casa com outro nativo sentado nos degraus da entrada, ao perguntar-lhe por Mao ele fez-me sinal para subir. Muito devagar pronunciei Daniel e simultaneamente fiz-lhe sinal de dormir. Quando me aproximei, ele ajudou-me a tirar o cesto de verga das costas e depois de o pousarmos no chão, virei-me para ele, apontei para mim e pronunciei: “Kiri”, ele fez o mesmo e pronunciou, Tawing.

Entrei então na casa, paredes altas, toda em madeira, telhado de zinco e tirando um pequeno cubículo com posters de alguns jogadores de futebol e um colchão no chão, todo o espaço era uma única divisão, como se de um salão se tratasse e tudo parecia muito humilde. Até que os meus olhos pararam nalgumas fotografias da família e numa estante com alguns aparelhos eletrónicos: colunas, leitor de DVD, rádio, um computador portátil… fiquei surpreendido! Não esperava encontrar estes itens no interior da selva, no coração do Bornéu e numa aldeia Sian (tribo semi-nómada), mas tal facto não retirou encanto ao local, apenas me recordou os tempos modernos em que vivemos e de como a globalização chega a todo, ou quase todo o lado.

Quando os meus olhos voltaram a focar o “salão” mas ao nível do solo vi que estava sentada uma senhora muito idosa vestida de forma tradicional, os braços abaixo da linha dos cotovelos e o peito dos pés estavam tatuados. Usava um chapéu alto preto, tinha largos brincos que faziam com que as orelhas estivessem muito descaídas e fumava um cigarro largo que volta e meia se apagava e que ela depois voltava a acender. A senhora levantou-se e enquanto me apertava a mão, Tawing apontou para ela e disse: “Mao”. Fiquei surprendido, afinal Mao era o nome de uma mulher e a casa onde eu ia ficar a dormir não era a de nenhum patriarca, mas sim a de uma matriarca Sian. 🙂