Viagem ao Coração do Bornéu por Palavras

Ato III – A Caminho da Tribo. Encontro com Mao

Já na margem, despedi-me e agradeci profundamente ao meu barqueiro. Recomecei a andar e as diferenças para a primeira vez eram mais do que temporais (duas horas de distância), eram essencialmente emocionais, desta vez sabia que ia correr tudo bem e que não haveriam mais enganos ou dúvidas! Agora independentemente do trilho ia ser fácil, era isto que sentia. 🙂 Com estes pensamentos em mente, fui percorrendo o mesmo sempre com cuidado e realmente não haviam mesmo dúvidas! O trilho era claro e inequívoco! O único problema mesmo era o atrito, aliás a sua ausência.

Durante quase duas horas andei ladeira acima, ladeira abaixo, passando o rio em pequenas pontes sempre carregado com a minha mochila pequena e com o super-desconfortável cesto de verga. De vez em quando, amaldiçoava o peso do mesmo e o facto de ter de o carregar, mas quando finalmente avistei uma casa de madeira com telhado de zinco soube que a minha penitência estava a terminar e estuguei o passo. Ao encontrar um nativo, sentado na entrada da casa, perguntei-lhe por Mao e ele fez-me um gesto largo, para seguir em frente.

Passei por mais um par de casas, uma delas abandonada e por umas hortas e quando encontrei outra casa com outro nativo sentado nos degraus da entrada, ao perguntar-lhe por Mao ele fez-me sinal para subir. Muito devagar pronunciei Daniel e simultaneamente fiz-lhe sinal de dormir. Quando me aproximei, ele ajudou-me a tirar o cesto de verga das costas e depois de o pousarmos no chão, virei-me para ele, apontei para mim e pronunciei: “Kiri”, ele fez o mesmo e pronunciou, Tawing.

Entrei então na casa, paredes altas, toda em madeira, telhado de zinco e tirando um pequeno cubículo com posters de alguns jogadores de futebol e um colchão no chão, todo o espaço era uma única divisão, como se de um salão se tratasse e tudo parecia muito humilde. Até que os meus olhos pararam nalgumas fotografias da família e numa estante com alguns aparelhos eletrónicos: colunas, leitor de DVD, rádio, um computador portátil… fiquei surpreendido! Não esperava encontrar estes itens no interior da selva, no coração do Bornéu e numa aldeia Sian (tribo semi-nómada), mas tal facto não retirou encanto ao local, apenas me recordou os tempos modernos em que vivemos e de como a globalização chega a todo, ou quase todo o lado.

Quando os meus olhos voltaram a focar o “salão” mas ao nível do solo vi que estava sentada uma senhora muito idosa vestida de forma tradicional, os braços abaixo da linha dos cotovelos e o peito dos pés estavam tatuados. Usava um chapéu alto preto, tinha largos brincos que faziam com que as orelhas estivessem muito descaídas e fumava um cigarro largo que volta e meia se apagava e que ela depois voltava a acender. A senhora levantou-se e enquanto me apertava a mão, Tawing apontou para ela e disse: “Mao”. Fiquei surprendido, afinal Mao era o nome de uma mulher e a casa onde eu ia ficar a dormir não era a de nenhum patriarca, mas sim a de uma matriarca Sian. 🙂

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