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Ato VI – A Família e o “Dia Santo”

Quatro da manhã. “Lá ao longe”, começo a sentir algo húmido a bater-me levemente na cara. Lentamente, volto à realidade e começo a ouvir um barulho intenso. Estava a chover torrencialmente! O vento fortíssimo que anteriormente se fizera sentir, tinha de um modo improvável, acabado de salvar-me do encharcamento total. 🙂 Rapidamente, coloquei a manta de sobrevivência em cima da mochila como proteção e deixei-me ficar, afinal o meu poiso estava protegido. Entre as 4.00 e as 7.30 dormi de forma intermitente, até finalmente me decidir sair do casulo quentinho. O dia estava cinzento, chuvoso e muito ventoso, e depois de ir recolher a roupa ensopada e a tela de nylon molhada comecei a empacotar tudo.

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Nessa altura, voltou a passar por mim um senhor alto com ar simpático, que na noite anterior já tinha metido conversa comigo porque achara curioso o facto de eu ir dormir ao relento, e que me convidou a tomar um chá na sua caravana antes de partir. Já com tudo arrumado, de mochila às costas e com um saco na mão, onde tinha os poucos mantimentos que me restavam – tâmaras, nozes, mel e pão… – dirigi-me à sua moradia. Na zona do toldo, Freddy apresentou-me a sua esposa, Anette e uma das suas filhas, Merriake e depois de me perguntarem o que queria beber, ficámos a conversar durante algum tempo. Quando olhei para o telemóvel, fiquei admirado porque já tinham passado um par de horas e a conversa não dava sinais de abrandamento. Nessa altura, como não me apetecia partir, perguntei-lhes se tinham planos e como estes eram inexistentes, resolvi prolongar um pouco a estadia no parque de campismo do Serrão. Foi assim, que após quatro dias de caminhada intensa, tive um dia santo de descanso. 🙂

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Com essa resolução tomada, aproveitei o forte vento que se fazia sentir para colocar a roupa, a tela de nylon e a manta de sobrevivência a secar, e continuámos a conversar até às 15.00. Nesse tempo, fiquei a saber que: eram alemães; tinham três filhos; desde que começaram a criar a família – vinte e tal anos -, estavam a ter pela primeira vez, um período de descanso mais prolongado, estando na ponta final de oito meses de “sabática”; Freddy era pastor da igreja Prostestante e Anette assistente social; no regresso à Alemanha iriam mudar-se de Frankfurt para Berlim… e abordámos inúmeros temas: sociedade, deus/religião/espiritualismo, viagens, história, trabalho/emprego, ser humano…

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Depois de tantas horas de conversa contínua e construtiva, e de um almoço saboroso que até teve direito a oração, enquanto eles ficaram a dormir a sesta, aproveitei para ir a Aljezur renovar o stock de mantimentos. Com os pés cobertos de compeed, visitei a zona antiga da vila, principalmente o bonito castelo, donde avistei toda a branca povoação, os campos férteis, as várzeas e os montes em redor. Do topo, segui até ao Intermarché onde me voltei a abastecer e terminadas as compras, regressei ao parque de campismo, desta feita por uma estrada de alcatrão serpenteante, sempre em sentido ascendente. Quando estava quase, quase a chegar, o suave sol que iluminou aquele fim de tarde, estava claramente em rota descendente.

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Já de regresso à “mansão”, Anette informou-me que um avião da Germanwings que ligava Barcelona e Düsseldorf se tinha despenhado nos Alpes, sendo altamente improvável que existissem sobreviventes. Mais um desastre aéreo – este viria a saber mais tarde, “poderia” ter sido evitado! :/ Passado uma hora e pouco, Freddy e Merriake reapareceram, sendo o jantar servido pouco depois. Apesar da fatídica notícia, à refeição e ao serão ninguém referiu o assunto, e continuámos a nossa animadíssima conversa, que foi sendo regada com vinho tinto e quase no final, um calicezinho de brandy. 😉 À saída da caravana, Freddy convidou-me para beber um café na manhã seguinte antes de nos despedirmos. Bastante mole e indolente, regressei à zona dos balneários onde voltei a dormir, desta feita com o corpo mais repousado, com a alma mais cheia e o sono mais profundo. 😛

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Ato V – No Arame

Depois de uma noite tranquila e antes de partir da Azenha do Mar, tirei algumas fotografias à zona do porto e à aldeia. Percorrendo verdes e floridas dunas, segui junto àquele mar azul numa manhã realmente primaveril. 🙂 Como sempre a primeira hora da caminhada passou rapidamente e às 8.30 já estava no topo da Ponta Branca, a observar a bonita e enooooorme praia de Odeceixe, onde bandos de gaivotas se banhavam alegremente. Daí e até ao centro da vila tive de percorrer quatro quilómetros de uma entediante estrada alcatroada, sendo a parte mais simbólica a travessia da ponte que une o Alentejo ao Algarve. Quatro etapas da Rota Vicentina concluídas, setenta e cinco quilómetros percorridos. 🙂

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Na pequena vila, aproveitei para comprar mais reservas alimentares e hídricas, e continuei a viagem. Os primeiros três quilómetros, já em solo algarvio, foram pouco interessantes, mas quando cheguei novamente à zona costeira, o circuito da Praia de Odeceixe tornou-se realmente agradável. Já na companhia de um céu cinzento, continuei para sul e entrei pela primeira vez numa etapa do caminho histórico. A verdade é que durante a tarde fui sentindo a falta da paisagem costeira e apesar do trilho seguir junto a um canal de rega bastante singular, os pés e a mochila estavam a matar-me lentamente. 😛 Durante o caminho passei por alguns campos de cultivo, pela povoação do Rogil e algumas zonas de eucaliptos e pinheiros. 

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Quando cheguei ao cruzamento onde começava o circuito da Praia da Amoreira, já tinha andado vinte e sete quilómetros, mas apesar do cansaço que já se fazia sentir e porque o dia estava novamente solarengo, resolvi continuar. Durante o trilho, pensei n vezes em montar abrigo naquele imenso pinhal e deitar-me a descansar, mas como as baterias da máquina fotográfica estavam esgotadas e eu não tomava um banho desde que começara a caminhada em Porto Covo, o lado racional foi vencendo lentamente a vontade imediata. Ao longo do circuito pude observar uma variação bem vincada entre os imensos pinhais e as dunas, onde encontrei muita vegetação e coloridas flores.

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Na chegada à bonita praia da Amoreira, uma vez que o vento soprava de oeste com muitaaaaaaaa intensidade e não existia nenhuma zona abrigada, não me demorei muito. Virando costas ao vento e ao mar, continuei o circuito agora por uma estrada de terra batida, penetrando por uma zona de verdes campos e montes. Quase no final deste longuíssimo dia, fruto de uma subida serpenteante e da qual não via o fim, a minha energia estava praticamente esgotada. No último par de quilómetros, até chegar ao parque de campismo do Serrão, senti-me fisicamente mais no arame, do que no dia em que escalei os 4095 m da Montanha Kinabalu, no Bornéu. Nessa altura, em que a mente puxou o corpo, o pensamento de um banho quente, fez-me continuar a caminhar, até chegar ao meu destino.

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Finalmente, já no parque de campismo, sem a mochila às costas e de havainas nos pés, reparei que pela primeira vez em quatro dias as botas estavam finalmente secas! Huuuuuuuuuuuuuuuuu! Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! 😀 E que me tinha aparecido mais bolha – a terceira. Antes de poder relaxar totalmente, e apesar do cansaço, tive de cumprir algumas tarefas: montar abrigo – mas como estava tanto, tantooo, tantoooooooooo vento acabei a dormir encostado à parede dos balneários; colocar todas as baterias a carregar – à vez; lavar e estender roupa; tomar banho 🙂 ; comer; dormir que nem um anjinho, fruto dos trinta e quatro quilómetros percorridos. 😉

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Ato IV – Missão? Paparoca!

Felizmente, na segunda noite o efeito de estufa foi inexistente, porém o calor excessivo manteve-se – ainda não fora desta, que acertera em cheio na quantidade de roupa. O reinício da caminhada, ficou marcado por uma luz matinal cinzenta e mortiça, belos pinhais e pelo regresso à zona costeira onde pude observar maravilhosas falésias xistosas, a funda praia do Cavaleiro e do outro lado da Ponta da Carraça, o monumental Cabo Sardão. 🙂 Como neste local não é possível seguir junto à costa, tive de caminhar para o interior até à aldeia do Cavaleiro e daí continuar o trilho.

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Na zona do Cabo Sardão deambulei durante aproximadamente meia hora e nesse período, observei um simpático rebanho de cabras, graciosas cegonhas nos seus ninhos ou em voo, imponentes falésias, a força do oceano. À medida que o cabo foi ficando para trás, as enseadas e baías não concederam tréguas, continuando a manifestar toda a sua riqueza e variedade de formas e cores, principalmente na zona da praia do Tonel, onde coloridas flores deram um maior brilho à paisagem. 🙂 A descida para o porto de pesca da Entrada da Barca foi realizada com especial cuidado, uma vez que o declive era bastante acentuado e daí até à vila de Zambujeira do Mar, segui pela entediante estrada de alcatrão, até regressar à costa nas imediações da praia da Nossa Senhora.

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À uma da tarde em ponto, estava junto à capela da Nossa Senhora do Mar já descalço a observar os pés e a verificar que me tinha aparecido mais uma bolha, desta feita junto aos dedos do pé direito. Depois de colocar o segundo compeed, “lavei” as mãos com uma toalhita e almocei com apetite. 🙂 Terminada a refeição, voltei a calçar-me, arrumei a mala e agora com um sol radioso, continuei viagem. Estava a caminho de Odeceixe, mas a minha “missão” era outra… paparoca! 😀 De qualquer modo e até esse momento chegar, segui por um dos pedaços de costa mais fascinantes de todo o Sudoeste Alentejano, encontrando falésias estratificadas de múltiplas cores – amareladas, alaranjadas, cinzentas, negras… -, pinhais, florestas de acácias e progressivamente as praias dos Alteirinhos, Carvalhal, Machados e Amália, onde pude observar no topo da falésia um rio a correr para o bravo mar! 🙂 Um verdadeiro festival natural, em que existem passagens por túneis de clorofila e múltiplos momentos de sobe e desce. À medida que me ia aproximando do meu objetivo, o dia progressivamente voltou à sua luz inicial e o meu corpo começou a sentir-se cansado. Nesta altura, a cada passo e ao imaginar o manjar que me esperava, a minha boca salivava abundantemente. Eram cinco e pouco da tarde, quando cheguei à aldeia da Azenha do Mar.

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Ao chegar ao abençoado restaurante, pedi para colocar o telemóvel a carregar e livrei-me do monstrinho17.37: meia salada de polvo à minha frente e uma mini no bucho, quase de penalty. 18.07: a sapateira acabara de chegar e a terceira mini estava bem encaminhada. 19.05: o manjar terminou, o bucho completamente recheado e a conta paga. 19.12: depois de falar com os donos do restaurante, fui colocar a mochila numa casinha onde passei a noite. 19.20: à espera que o telemóvel carregasse e quase a dormir em frente à televisão, onde os Lagartos goleavam o Vitória de Guimarães. 20.05: “os meus olhos não aguentam, mais! Vou-me deitar”. 20.30: Ferradíssimo a dormir.         

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Ato III – La Première

Fruto de uma gestão do frio e da humidade – a colocação da manta de sobrevivência em cima do saco-cama, resultou numa enoooooorme condensação, transpiração e calor – e da incapacidade de me conseguir mover – o arbusto ficava a poucos centímetros da minha cara – a primeira noite em pleno parque natural, de idílica teve pouco, ou nada. 😛 Ao contrário do dia anterior, o sol despontou no horizonte, e à primeira luz matinal já estava a tomar o pequeno-almoço e a arrumar a mochila – o que ainda demorou uma horinha bem redonda.

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Pelo topo de arribas xistosas continuei quase sempre junto àquele mar azul e verde carregados, até ao momento em que me enganei no trilho e perdi cerca de vinte minutos a voltar a encontrá-lo. A verdade, é que mesmo com este pequeno contratempo em menos de hora e meia estava no Porto das Barcas e daí até ao centro de Vila Nova de Mil Fontes, o caminho foi completamente desinteressante mas célere. Estava terminada a primeira etapa da rota Vicentina. 🙂 Junto ao forte de São Clemente e enquanto fotograva a bonita aberta onde o rio Mira encontra o mar, encontrei o simpático Sr. Augusto, com quem estive a conversar um pouco e que me disse: “sempre gostei muito da Natureza, você faz parte do meu grupo de crentes”. No centro da vila, parei numa mercearia para comprar mais mantimentos e segui para sul, rumo à vila de Almograve. Depois de cruzar a ponte sobre o rio, entrei numa agradável herdade cheia de sobreiros, dirigindo-me para a praia das Furnas, onde acabei por almoçar.

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Durante os onze quilómetros que faltavam, o que mais me surprendeu foi encontrar verdes campos cobertos de flores, um enoooooorme relvado que parecia o local ideal para piquenicar, campos de cultivo e infelizmente, florestas de agressivas acácias que estrangulam e eliminam toda a vegetação autóctone. :/ À medida que andava, a sola do meu pé esquerdo começou aos poucos a ressentir-se e quando cheguei à praia de Almograve, ao descalçar-me encontrei o que já suspeitava… la première… a famosa… bolha, estava oficialmente formada. 😛

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Nesta altura, como ainda era cedo – 16.00 – e a terceira etapa era longa – vinte e dois quilómetros – resolvi continuar a andar. O início do trilho para Zambujeira do Mar, revelou-se fascinante e à medida que Almograve ficava para trás, as dunas foram-se modificando e os arenitos passaram de cores suaves e alaranjadas para tons fortes e avermelhados. Espetacular! 😀 A partir do porto de pesca da Lapa das Pombas, onde pude observar rochas xistosas a formarem um quebra-mar natural, a paisagem modificou-se, as falésias tornaram-se imponentes e escarpadas e as dunas cheias de uma vegetação colorida. 🙂 Nesta altura sentia-me cansado, mas sabendo que nas imediações da Entrada do Pau iria encontrar um pinhal, forcei-me a andar mais um par de quilómetros. Para além disso, este pedaço de costa que era realmente fascinante, ajudou a atenuar um pouco o cansaço. 🙂

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Assim que encontrei o pinhal, larguei o monstrinho e escolhi um terreno cheio de caruma fofa onde montei abrigo. Perfeito! Melhor mesmo, só quando passados poucos minutos começou a chover e a tela de nylon se revelou impermeável! 😉 Era altura de finalmente repousar mas ao contrário da noite anterior, o local era realmente agradável. Depois de um repasto reconfortante, aproveitei para ler um pouco e às 20.00 já estava deitado, pronto para dormir o tranquilo sono dos andarilhos.

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

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Ato II – Pufff…. Fez-se o Chocapic! 

Na chegada a Porto Covo não pude deixar de reparar que a maioria dos passageiros que “desembarcaram” na povoação eram estrangeiros. Portugal está definitivamente na moda! 🙂 Antes de iniciar o meu périplo andante, resolvi ter uma refeição mais consistente e na rua principal da cuidada vila, encontrei o que procurava: uma bela e generosa dose de peixe frito acompanhado de arroz de feijão e umas farófias divinais. A “caminhada” iniciava-se em beleza. 😀

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Terminado o delicioso repasto, eram 15.10 quando pus realmente os pés ao caminho e depois de confirmar a direção com um grupo de anciões locais, segui até ao pequeno porto da povoação. Nesta altura, o céu estava bastante prateado e fotogénico e na passagem de uma pequena enseada, fruto da maré e do eclipse lunar… pufff… fez-se o chocapic! No preciso momento que atravessava, veio uma onda que ultrapassou o cano das botas e que me deixou os pés a boiar, tal como se estes estivessem dentro de um aquário! Perfeito! 😛 Aparvalhado de todo… a minha mente foi lesta a processar a informação: “Então e agora? Regressar? Fora de questão! Tirando umas havainas, não tenho mais calçado. Nem pensar! Resta-me andar com as botas… mas o meu futuro, vai ser definido numa palavra: BOLHAS!”

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Com os pés completamente encharcados, segui colina acima e assim que encontrei um apoio, descalcei as botas, tirei-lhes a água do interior e espremi ao máximo as meias e as palmilhas. Uma vez que as botas estavam ensopadíssimas, decidi não calçar o par de meias extra que me restava e guardá-las para a noite – caro leitor, apesar de no momento esta me ter parecido uma decisão lógica, no presente posso claramente dizer, que este foi o meu primeiro grandeeeeee erro! – sem nada mais poder fazer, deixei de pensar neste molhado acontecimento e segui andando junto ao mar, no topo de pequenas arribas.

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Para Norte, avistava-se a silhueta das feias torres da central termoelétrica de Sines, para Sul a ilha do Pessegueiro dominava a prateada e azulada paisagem, onde se viam outras pequenas ilhotas, a que os locais chamam palheirões. Porto Covo ia ficando para trás e quando cheguei ao início da praia da ilha, fruto da maré tive que atravessar outra zona repleta de água. Uma vez que já tinha as botas encharcadas, segui em frente sem grandes preocupações. Agora estava outra vez com os pés a boiar, mas continuei a andar – segundo grandeeeeeee erro! – em direção às praias do Queimado e dos Aivados. Nessa altura, o trilho que até aí estava muito bem marcado, desapareceu e tive de continuar por dunas junto às praias, até o caminho contornar as praias da Galé e do Malhão e o seus extensos cordões dunares. À medida que ia fletindo ligeiramente para o interior a paisagem de dunas e vegetação rasteira, mudou um pouco e nesse momento pude ver uma densidade de clorofila mais verde e colorida, e pinheiros em meu redor. 🙂

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Quase no final da praia da Malhão, regressei à zona realmente costeira e a partir desse local as arribas ganharam alguma dimensão, a paisagem tornou-se mais imponente e de vez em quando viam-se graciosas cegonhas. 🙂 O dia caminhava rapidamente para o seu término, e nessa altura em que já me sentia um pouco cansado, os meus olhos não paravam de perscrutar a paisagem de vegetação muito rasteira, em busca de um local onde pudesse montar abrigo. Finalmente, por volta das 18.40, a cerca de trinta metros do trilho encontrei o que procurava, um largo arbusto e foi debaixo deste, com o som do mar como companheiro, que passei a minha primeira noite…

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Crónicas Em trânsito O 1º Dia Reflexões

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Ato I – Em trânsito: A Caminho de Porto Covo

Naquele primeiro dia de Primavera e de eclipse solar, que apenas consegui visualizar quando as nuvens filtraram a luz mortiça do astro rei, enquanto aguardava na estação rodoviária e ao observar o enorme desgaste do pavimento, não pude deixar de pensar nos milhares pessoas que lá passaram e nas viagens que aí se iniciaram.

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A bordo do expresso que me levou até Porto Covo, escrevi a maioria das notas que originaram o post: Na “Terra do Bacalhau” e fiz uma retrospetiva pós Noruega. Depois do objetivo principal – procura de emprego – ter falhado, virei agulhas para a ilha de Sua Majestade Isabel II e passados alguns meses a enviar “postais” tive duas entrevistas presenciais – Sheffield e Bedford -, que se revelaram infrutíferas. Confesso que no presente, me sinto com dúvidas em qual área devo investir – engenharia/viagens – e que essa mesma dúvida me tolda, ou me vai toldando o espírito. E eu não gosto desta indefinição! :/ Em termos profissionais este é o panorama atual. No campo pessoal, por outro lado é o oposto. Estou com a M. e sinto-me feliz ao seu lado. Tenho a certeza que ela é um dos meus portos de abrigo e este é o nosso melhor período, desde sempre. 🙂

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“Agora a caminho das imediações da “terra da paz“, estou determinado a percorrer a pé a distância que separa Porto Covo do Cabo de São Vicente. Sinto-me bem. Estou de volta à “estrada”, desta feita em solo luso, com o monstrinho às costas e vamos ver como o meu corpo vai lidar com o esforço físico. De qualquer modo, as recompensas estão ao virar de cada enseada, falésia e praia, e como sempre: o caminho faz-se caminhando”. 😀

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Prólogo

Desde que regressei a Portugal, de tempos a tempos pensava na Rota Vicentina e no seu significado. A chegada ao Cabo de São Vicente, o antigo fim do Mundo! Isso antes de “nós” Portugueses iniciarmos a época dourada dos Descobrimentos. 🙂 Depois de receber mais uma “nega” britânica, resolvi que aquele era o momento ideal para regressar à “estrada” e limpar um pouco a mente de pensamentos menos otimistas. Desta feita e ao contrário da odisseia asiática, o monstrinho seria carregado de forma contínua ao longo do caminho, por isso na altura de tomar decisões sobre o que realmente levar, o PESO ainda foi um fator mais importante e tido em consideração. Como sempre, o processo de empacotamento foi um processo evolutivo, aqui fica a lista de itens que levei comigo:

PESO TOTAL (sem água e comida incluídas): 12 kg

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Crónicas Fotografia Reflexões

Na “Terra do Bacalhau”

A caminho da Terra do Bacalhau e dos Vikings, saí pela primeira vez de terras lusas – que segundo os Romanos são: “terras de um povo que não se governa nem se deixa governar” – com o objetivo primordial de procurar trabalho. Durante a travessia aérea, senti-me expetante, ansioso e receoso com a possibilidade de não o conseguir encontrar, mas simultaneamente esperançoso que a realidade dependesse apenas de mim e da minha abordagem. Como fui aprendendo ao longo da minha odisseia asiática, não vale a pena sofrer por antecipação, por isso o melhor era tentar manter-me otimista e rodeado de pensamentos POSITIVOS. O NÃO estaria sempre garantido, por isso o objetivo passaria por ser o mais proativo possível e ter a noção que existiam múltiplos caminhos para a felicidade. Não havia que fechar portas, pois nunca sabemos até onde estas nos podem conduzir.

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Na Noruega fiquei o mesmo período que Cristo jejuou no deserto e durante esse tempo, para além de ter perdido a ilusão de ser contratado por uma empresa de Petróleo e Gás – mercado em rota descendente – percebi que até os trabalhos não qualificados – limpezas, restauração… sem conhecimentos de norueguês são difíceis de obter, ainda para mais numa cidade relativamente pequena como Kongsberg. A partir daí tudo se complicou e entrei num ciclo vicioso e circular: Língua – Trabalho/Emprego – €  sem conhecimentos da língua, não se consegue encontrar trabalho, sem este não há dinheiro e sem o último também não se consegue frequentar cursos para aprender a língua. :/

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No país experienciei as quatro estações, observando dias cinzentos e pardacentos – a larga maioria – dias de sol radioso e dias de neve; senti no metabolismo os efeitos da reduzida luz solar – sonolência, inércia, ligeira melancolia – devido à latitude, existe um aumento da inclinação dos raios solares, que no período de Inverno se traduz em dias curtos e noites longas; conheci calorosas pessoas com especial destaque para o Paulo, a Vera, o Leandro, o Marcin e o Anders, o Renato, os trainee, o Joãozinho e o Daniel; vivi e visitei Kongsberg e os seus agradáveis arredores – verdes florestas de altíssimos e antigos pinheiros, colinas e montes rochosos, rios e lagos cor de azeviche – a cidade costeira de Sandefjord, lar do interessante museu das Baleias, e a agradável e tranquila capital Oslo onde destaco a zona portuária de Aker Brygge e a Opera House, que mais se assemelha a um massivo iceberg. 🙂

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A Noruega, é um país de natureza, topografia acidentada, fracamente povoado e depois de lá ter estado, tenho a clara noção que apesar dos preços serem globalmente elevadíssimos – transportes, restauração, alojamento… -, a partir do momento que se arranjar trabalho, haverá sempre dinheiro para viver. Sendo um país que proporciona aos seus habitantes, uma excelente qualidade de vida! Para resumir a minha estadia, afirmo que apesar da busca de emprego/trabalho se ter revelado infrutífera, gostei bastante da experiência e sei que quem conseguir emigrar para o país com sucesso, fará uma excelente aposta. 😀

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Para além disso, apercebi-me de alguns factos que podem ser resumidos numa ideia que gostaria que os meus conterranêos Lusos acreditassem: “Não somos inferiores aos povos nórdicos, em nada! Sendo tão trabalhadores ou bons vivants como eles. 🙂 A grande diferença, é que vivemos num modelo de sociedade que não funciona e eles não. Este fosso, é explicado pela palavra, CONFIANÇA. O grande problema do nosso país e outros países do sul da Europa, é que foi criada uma nuvem de desconfiança e suspeição generalizadas, que minam e corroem toda a estrutura da sociedade da base ao topo. Somos ensinados a desconfiar e acreditamos que quem falha – e todos falhamos – o faz propositadamente e por obscuros interesses pessoais, em vez de falhar por incompetência/desconhecimento. A realidade é que sendo levados à desconfiança, somos levados à corrupção, à descrença, à inabilidade de sonhar e de nos tornarmos melhores cidadãos, capazes de melhorar o nosso país.

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