Quando se está ausente durante muito tempo, regressa-se outra pessoa: nunca se regressa ao que se era.
Paul Therox in, Viagem por África
Quando se está ausente durante muito tempo, regressa-se outra pessoa: nunca se regressa ao que se era.
Paul Therox in, Viagem por África
A viagem, o seu próprio movimento, devia sugerir esperança. Desespero é o sofá; é indiferença e olhos vidrados, sem curiosidade. Acho que os viajantes são essencialmente otimistas porque senão nunca iriam a parte nenhuma.
Paul Theroux in, Fresh Air Friend
Se uma pessoa é amada e se sente livre e conseguiu conhecer alguma coisa do mundo, a viagem é mais simples e mais feliz.
Paul Therox in, Comboio Fantasma para o Oriente
Epílogo
O filtro estilhaçado custou-me! Não o nego. Porém, analisando esse momento friamente, tal revelou-se apenas numa perda monetária. A Rota Vicentina foi muito mais do que isso! Uma travessia inesquecível, que durou oito dias – contando com o dia de descanso -, na qual percorri quase duzentos quilómetros – cento e noventa e oito, para ser exato! 🙂 – e que me levou por uma das paisagens mais belas e singulares do nosso país. Paisagem essa que já conhecia, mas que agora foi explorada de um modo mais profundo e memorável, sendo o único efeito físico colateral as famosas bolhas. 😛
Voltar novamente à “estrada”, ainda que por um curto período deixou-me verdadeiramente FELIZ e animado. Não há muitas dúvidas. Viajar faz realmente parte de mim. 😀 Tenho é de conseguir encontrar um modo, uma saída em que a Viagem e a Vida Profissional se unam, uma vez que gostando muito ou pouco do conceito de dinheiro e do seu significado, a realidade é que não existe ninguém que viva do ar. 🙂 Em maior ou menor escala, todos os seres humanos precisam dele, seja o monge que medita ou reza no mosteiro, o pescador que pesca no lago, no rio ou no mar, o agricultor que planta a terra…
Depois de ter ganhado uma grande quantidade de dinheiro, um homem torna-se mau ouvinte e um turista impaciente.
Paul Theroux in, The Pillars of Hercules
Ato X – Em trânsito: Regresso a Norte
Depois de uns momentos felizes no “Fim do Mundo”, era altura de voltar a tomar decisões! Sabia que para regressar a Norte teria sempre de passar por Lagos, uma vez que em Sagres apenas existem alternativas durante o Verão. Como ainda me encontrava a seis quilómetros do centro da vila, me sentia cansado e já tendo concluído o meu objetivo – percorrer a pé a Rota Vicentina entre Porto Covo e o Cabo de São Vicente – aproveitei a presença de alguns turistas estrangeiros para lhes pedir boleia. Desse modo, foi a bordo de um Audi A6 novinho em folha e na companhia de uma prestável família espanhola que percorri a estrada até ao centro. 😉
Na chegada, ao falar com uma jovem nativa, confirmei onde se apanhavam os autocarros regionais para Lagos e recebi uma dica de um local abrigado onde poderia passar a noite. Porém, ao dirigir-me à paragem para confirmar os horários da manhã seguinte, reparei que apesar de já serem 19.30, daí a poucos minutos ainda iria haver um autocarro para Lagos. Nesse momento, quase sem bateria e saldo, consegui falar com a M. recebendo a informação que em Lagos existia um expresso que partiria à 1.30. Rapidamente e sem margem para indecisões, resolvi embarcar.
A travessia para Lagos realizou-se já de noite e o único momento que vale a pena relatar foi a conversa que tive com o motorista, na qual recebi a informação que a bilheteira em Lagos já estaria fechada e que na rede de expressos só poderia embarcar caso tivesse bilhete válido! Não havendo a possibilidade de comprar o bilhete “físico”, não tendo computador e internet, perguntei-lhe se existiam alternativas, ao que ele respondeu que podia sempre ligar o 707 22 33 44 e comprar o bilhete via telefónica. Pareceu-me uma boa ideia, aliás não havia outra opção. 😛 O pequeeeeeeeeeeeno problema era que não tinha: saldo, bateria e o número supostamente estaria ativo até às 21.00 – nessa altura eram 20.40!
Na chegada ao pequeno e pouco convidativo terminal rodoviário, apontei o número de telefone e parti em busca de um local onde pudesse pôr o telemóvel a carregar. Felizmente, a cerca de 300 metros da estação encontrei um pequeno café que ainda estava aberto. Perguntei à dona se podia deixar o telemóvel a carregar, larguei o monstrinho e estuguei o passo até uma caixa MB. Já com saldo, regressei rapidamente ao café, liguei o telemóvel e comecei a ligar – eram 21.05! Pensei: “Vá lááááááááááá! Funciona!”. Depois de marcar os dígitos para falar com uma operadora, alguém me atendeu. Ufff! Em menos de um minuto, estava a receber uma mensagem com informações para o pagamento por multibanco. Apontei os dados num papel e voltei a sair do café. Novamente na caixa MB, paguei. Quando regressei ao café já tinha duas mensagens no telemóvel, uma delas era o bilhete! “CONSEGUI”! 😀
Eram 21.15, quando finalmente me sentei tranquilo à mesa com uma bica à frente. Nessa altura, sabia que o café poderia fechar a qualquer momento, mas como na esplanada ainda se encontrava um trio de Ucranianos a beber aguardentes de penalty e a brindar, fiquei mais descansado. 😉 Enquanto lia, chegou uma grande família e posteriormente um senhor que me pareceu cliente habitual. “Nada mau! Parece que me vou manter aqui sossegado, por mais uns tempinhos”. 🙂 A realidade é que apenas me despedi da simpática dona, quase há meia noite, isto depois dela negar pela décima vez, bebida ao trio “Odemira”. “Há profissões, em que se precisa uma paciência de Jo!”
Regressado ao terminal, aproveitei finalmente para comer e depois de mais um compasso de espera, embarquei finalmente no expresso para Lisboa. Na viagem, calhou-me em sorte um motorista realmente simpático e apesar do cansaço que sentia e enquanto não estava mais ninguém a bordo, aproveitámos para falar durante cerca de uma hora. A partir das 2.30 os meus olhos começaram-se a fechar e só os voltei a abrir, já na chegada ao terminal de Sete Rios – 5.50 – onde voltei a aguardar na companhia do meu livro, até embarcar no expresso para Rio Maior – 7.00.
Na chegada à minha cidade natal, resolvi passar por casa de um grande amigo para falar com ele sobre esta magnífica travessia. 🙂 Depois de uma hora de conversa animada e de um pequeno almoço reconfortante, ele ofereceu-me boleia para casa, e foi aí, mesmo à porta que… ao sair do carro, deixei cair a máquina fotográfica e ganhei como “prenda” um filtro completamente estilhaçado. Tudo fora perfeito, até esse momento! Sendo caricato que foi precisamente na chegada, que o verdadeiro percalço desta viagem aconteceu – mais uma evidência que controlamos muito pouco na nossa vida.

O luxo é inimigo da observação, um prazer dispendioso que induz uma sensação tão boa que não reparamos em nada. O luxo estraga-nos e infatiliza-nos e impede-nos de conhecer o mundo. É esse o seu propósito, a razão pela qual os cruzeiros de luxo e os grandes hóteis estão cheios de imbecis que, quando exprimem uma opinião, parecem ser doutro planeta. Também sei por experiência própria que um dos piores aspetos de viajar com pessoas ricas, à parte dos ricos nunca ouvirem, é estarem constantemente a queixar-se do alto custo de vida – na verdade, os ricos queixavam-se normalmente de serem pobres.
Paul Theroux in, Comboio Fantasma para o Oriente
A saudade de casa é uma sensação que muitos conhecem e de que muitos sofrem; eu, por outro lado, sinto uma dor menos conhecida, e o seu nome é «saudade de estar fora». Quando a neve derrete, quando chegam as cegonhas e partem os primeiros vapores, sinto a dolorosa agitação de viajar.
Hans Christian Andersen in, Carta de 1856, citada em Jens Andersen, Hans Christian Andersen (2005)
A viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito, e muitos dos nossos precisam urgentemente dela por causa dessas coisas. Visões largas, sadias e benevolentes de homens e coisas não se podem adquirir vegetando toda a vida num cantinho da Terra.
Mark Twain in, Innocents Abroad (1869)
Ato I – Em trânsito: A Caminho de Porto Covo
Naquele primeiro dia de Primavera e de eclipse solar, que apenas consegui visualizar quando as nuvens filtraram a luz mortiça do astro rei, enquanto aguardava na estação rodoviária e ao observar o enorme desgaste do pavimento, não pude deixar de pensar nos milhares pessoas que lá passaram e nas viagens que aí se iniciaram.
A bordo do expresso que me levou até Porto Covo, escrevi a maioria das notas que originaram o post: Na “Terra do Bacalhau” e fiz uma retrospetiva pós Noruega. Depois do objetivo principal – procura de emprego – ter falhado, virei agulhas para a ilha de Sua Majestade Isabel II e passados alguns meses a enviar “postais” tive duas entrevistas presenciais – Sheffield e Bedford -, que se revelaram infrutíferas. Confesso que no presente, me sinto com dúvidas em qual área devo investir – engenharia/viagens – e que essa mesma dúvida me tolda, ou me vai toldando o espírito. E eu não gosto desta indefinição! Em termos profissionais este é o panorama atual. No campo pessoal, por outro lado é o oposto. Estou com a M. e sinto-me feliz ao seu lado. Tenho a certeza que ela é um dos meus portos de abrigo e este é o nosso melhor período, desde sempre. 🙂
“Agora a caminho das imediações da “terra da paz“, estou determinado a percorrer a pé a distância que separa Porto Covo do Cabo de São Vicente. Sinto-me bem. Estou de volta à “estrada”, desta feita em solo luso, com o monstrinho às costas e vamos ver como o meu corpo vai lidar com o esforço físico. De qualquer modo, as recompensas estão ao virar de cada enseada, falésia e praia, e como sempre: o caminho faz-se caminhando”. 😀