Uma Geografia. Uma Fotografia: Sagada

Cheguei a Sagada, quando a noite já cobria a terra. Nessa altura, fiquei no primeiro quarto que encontrei, uma vez que estava sem muita paciência para procurar mais. Afinal tudo o que queria, era tomar banho e repousar do cansaço acumulado das viagens dos dias anteriores, Donsol – Sagada, a travessia de aproximadamente mil quilómetros. De sul para norte. Na ilha de Luzon. Na vila, fiz um trekking interessante na companhia de Mr. Ingo, um guia local com quem fui até ao vale do Eco. Durante o percurso passámos por algumas paisagens bonitas e agradáveis: pinheiros, plantações de café, um rio subterrâneo, uma caverna, uma mini-cascata, arrozais, sobe e desce em colinas, zonas escorregadias de rocha e lama, formações calcárias, cursos de água e à semelhança do que encontrei em Tana Torajacaixões suspensos em grandes paredes de rocha. Depois de regressar ao centro da vila, enveredei sozinho estrada fora até encontrar a fantástica entrada da Semeangui Cave – caverna grande – e daí parti em busca da Lemagui Cave – caverna dos enterros, onde encontrei múltiplos caixões antigos de madeira a apodrecer e onde já começavam ossos a despontar.  Ao despedir-me de Sagada, pensei: “adeus, vila tranquila e serena. Adeus, inesquecíveis cavernas. Adeus, antigo culto dos mortos.”

Uma Geografia. Uma Fotografia: Mayon

Depois da visita a Donsol e ao reino dos simpáticos e dóceis gigantes, era altura de rumar ao norte da iha de Luzon. Bem cedinho rumei até Malabog, onde visitei as ruínas de Cagsawa e encontrei… o bonito, aliás o espetacular e praticamente simétrico cone do vulcão Mayon a dominar a paisagem! Aí, passeei um pouco no meio daquela paisagem rural e escaldante. Os arrozais, os camponeses, os riachos e cursos de água, as vacas e os búfalos, as palmeiras, os verdes campos, os trilhos de areia negra. Tudo isto, com o vulcão como pano de fundo. Perfeito…

Uma Geografia. Uma Fotografia: Donsol

Da ilha de Bohol, parti para a ilha de Luzon, sendo o meu primeiro destino a vila de Donsol, já no sul da ilha e reino dos butandings. Mas perguntará o caro leitor, afinal o que é o que é isso de Butanding!? Tenha calma. A explicação virá nas próximas linhas. No segundo dia, acordei às 5.30 e às 6.00 já estava no centro de interação para o início das festividades da semana do… butanding. Aí, assisti à missa vespertina, falei com nativos e fui convidado para seguir a bordo numa romaria marítima. Nessa viagem, falei com Jay Ray sobre Oslob vS Donsol e sobre os magníficos tubarões baleia  butandings, na língua filipina. Durante este passeio/romaria fiquei a saber que este era um dia especial, e como tal, não tinha que pagar barco, nem tão pouco alugar uma máscara de snorkel, uma vez que me emprestaram uma. Depois de regressar a terra, paguei a taxa ecológica/inscrição, fiz um pequeno compasso de espera e voltei a embarcar, desta feita para o tour dos tubarões baleia. Durante duas horas, andámos naquele mar azul em busca destes animais absolutamente incríveis e felizmente conseguimos encontrar um juvenil, de aproximadamente três metros, com quem mergulhámos sete vezes. Em Donsol, apesar de continuar a existir algum alarido à volta destes fantásticos seres, a experiência foi bastante mais natural do que em Oslob, uma vez que em aqui não há ofertas de comida para atrair estes gentis gigantes. Apesar das imperfeições do sistema – tenho dúvidas que algum dia seja possível promover um que seja ideal! – existe o apoio da WWF e parece-me que apesar de tudo, o conceito resulta melhor que em Oslob. Desse modo, Donsol ficará simpaticamente guardada na minha memória como o reino dos Butadings. O reino dos tubarões baleia!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Bohol

Dois dias, foi o tempo passado na ilha de Bohol, mas esse tempo revelou ser suficiente e diversificado. No primeiro dia, encerrei o capítulo “mergulhos da viagem” ao atingir o redondo número de 50, ao largo da pequeníssima ilha de Balicasag. O primeiro deles em Black Forrest, onde encontrei várias tartarugas e uma graaaaaaaaaande escola de jack fish e o último em Cathedral, uma parede espetacular de corais que estava a correr muito bem. Porém, ao lembrar-me do Buraco Azul de Belize e de algumas das suas histórias assustadoras tudo mudou, comecei a sentir stress e um ambiente pesado que fui tentando controlar. Comecei a focar-me em pequenas detalhes e tentei esquecer-me da grandiosidade do espaço, uma vez que não se via o fundo. De qualquer modo, a parte final do mergulho em águas rasas foi espetacular: inúmeras escolas de diferentes espécies marinhas, múltiplas tartarugas, águas cristalinas, uma visibilidade perfeita e o sol a penetrar na água. Um grande final, para os mergulhos desta viagem. Depois da manhã no “fundo” do oceano, a tarde foi passada a relaxar na praia de Alona que apesar de relativamente tranquila, já se encontra turisticamente massificada. O segundo dia, ficou marcado por um tour de carrinha que durou aproximadamente sete horas e como não foi possível negociar os locais de paragem, tive de correr as “capelinhas” habituais. Dos locais onde parámos, destaco os pequeníssimos e estranhos Tarsiers, as encantadoras colinas de chocolate e a interessante quinta das borboletas. Durante o tour, também foi possível observar antigas igrejas de pedra destruídas pelo sismo ocorrido em Agosto de 2013, que teve uma magnitude de 7.2 na escala de Richter. Ao contrário do que aconteceu em Sugar Beachem Alona Beach depois de três noites e dois dias no local,  mesmo com uma areia espetacular – em algumas zonas fina como pó – não senti pena por partir. A ilha de Luzon, estava ao virar da esquina e eu sentia-me entusiasmado!

Uma Geografia. Uma Fotografia: Apo

Após aqueles dias de sonho em Sugar Beach, parti com a Nie Ying em direção à ilha de Apo e o nosso primeiro passo foi apanhar um barco de regresso a Sipalay. Depois da curta travessia marítima, apanhámos vários autocarros, o primeiro para Hinoba-an, seguidamente até Bayawan e finalmente para Zambuaguita, onde com muita sorte apanhámos uma banca. Durante a travessia, o mar estava um pouco agitado e os salpicos foram uma constante. Na chegada à ilha, a primeira visão da “praia” não foi muito paradisíaca, uma vez que para além da areia praticamente inexistente, se podiam ver muitas casitas. Ao longo dos dias, Apo revelou ser um rochedo no oceano, coberto de vegetação seca e onde a vida segue pacatamente o seu curso natural. Na ilha, a eletricidade apenas existe das 18.00 às 21.30 e as noites são escaldantes e ruidosas, fruto do cacarejar dos galos e dos latidos dos cães. Na ilha ficámos alojados na Mario´s guesthouse num dormitório simpático, que aquando da nossa chegada estava praticamente deserto. Aí encontrámos boa comida e pessoas muito simpáticas: Janice (filipina de Puerto Princesa); Arnold (holandês de 70 anos com um espírito incrivelmente jovem); Richard e Jackie (casal de australianos); Julie e Mark (casal de alemães); Mário e Jed (instrutores de mergulho). Em Apo mergulhei duas vezes, a primeira em Cagon e a segunda em South Point, onde encontrei um extraordinário jardim de corais – do melhor que já observei, tanto em variedade como em riqueza de formas e cores. No dia do aniversário de Julie, vi um bonito pôr do sol no antigo farol e daí pode observar as bonitas cores do fim do dia e a visão em simultâneo das múltiplas ilhas em redor: MindanaoLos NegrosCebuSiquijor e Bohol. Nessa noite, fizemos uma pequena mas agradável festa na praia, com direito a uns copitos de rum, muita e animada conversa, iluminados por lanternas, ao mesmo tempo que vários relâmpagos rasgavam o céu e uma tempestade se aproximava.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Sugar Beach

Sugar-Beach

A experiência que tive ao entrar em Sugar Beach, foi quase equivalente a sair do mundo. O ambiente era relaxado; o resort onde fiquei instalado (Driftwood Vilage), estava super bem concebido e não era muito dispendioso; existia um dormitório muito confortável, em que as camas eram praticamente de casal; a comida era deliciosa; e o staff impecável. Em Sugar Beach a areia era castanha escura ou se preferirem tinha um tom açúcar mascavado, por esse motivo a sua temperatura era quase sempre elevada. Por sua vez, a água do mar apesar de não ter aqueles tons de múltiplos azuis e verdes, que geralmente são visíveis em praias de areia branca e onde existem corais, era transparente, super límpida e tinha uma temperatura agradável. No areal existiam múltiplos coqueiros e palmeiras, e existiam mais dois ou três pequenos resorts com bungalows. Durante aqueles dias, escrevi e publiquei no blog, dormitei em hamokspasseei pela praia, joguei voleibol ao final da tarde, vi o pôr do sol enquanto jogávamos e depois do jogo terminar corria para e pelo mar, que era praticamente plano e raso e ao correr para o infinito, sentia-me livre! As noite também eram divertidas e animadas, uma vez que havia sempre uns torneios de snooker e bebíamos quase sempre umas cervejitas, em amena cavaqueira. Numa das manhãs, também fizemos um passeio de snorkeling para ver um navio afundado, a apenas cinco metros de profundidade. A água era cristalina e límpida, havia uma excelente visibilidade e foi possível ver corais e peixes de muitas cores ricas e variadas. Uma vez que a vida era relaxada e fácil – boa comida e cama; sossego e conforto; muitas e animadas conversas – não tinha vontade de partir e aqueles três dias ficar-me-ão para sempre na memória. Antes de seguir para a ilha de Apo, tive de perguntar-me algumas vezes: “Sugar Beach. Posso cá ficar para sempre? ”

Uma Geografia. Uma Fotografia: Moalboal

Moalboal

No último dia passado com Francis, acabámos por visitar a bonita cascata de Kawasan que apesar de cheia de pessoas acabou por ser um passeio agradável, uma vez que à paisagem verde e serena, juntou-se a água fresca de várias lagoas e riachos que desembocavam na grande cascata. O dia seguinte foi passado em praias, de manhã, rumei a sul e visitei a praia de Lumbung e de tarde rumei a norte e visitei a praia mais famosa da zona, a White beach. Neste périplo entre praias conheci um ojek simpatiquíssimo – Mr. Rodolfo – e a verdade é que nos demos tão bem que acabei por combinar com ele todas as viagens desse dia. Durante o dia, torrei ao sol, atualizei o caderno, fui ao mar inúmeras vezes e fiz snorkelingNo último dia em Moalboal fiz dois mergulhos, o primeiro na ilha do Pescador, onde fui recebido por uma parede vertical, de aproximadamente cem metros de profundidade e repleta de corais bastante vivos e coloridos, e onde senti algum nervosismo, ao lembrar-me de corrente brutal e descendente de Batubalong em Komodo. E o segundo já ao largo de Panagsama, onde tive um encontro com uma escola de milhões de sardinhas! BRUTAL! ABISSAL! MONUMENTAL! Espirais, círculos, arcos e nuvens… um verdadeiro turbilhão! Um dos melhores mergulhos da minha vida! Na despedida de Moalboal comecei a jantar sozinho, mas à semelhança de dias anteriores acabei acompanhado, desta feita por Zaskia com quem fiquei a conversar animadamente durante um par de horas. Foi nesse momento, que combinámos partir no dia seguinte para a ilha de Los Negros 

Uma Geografia. Uma Fotografia: Oslob

Oslob

Em Oslob tivemos oportunidade de fazer snorkeling com tubarões baleia. O ambiente geral de azáfama e ruidoso não foi uma novidade para mim… já sabia ao que ia e desse modo foi fácil meter um chip e transformar-me em “robot”. Com o chip colocado recebi um briefing, apanhei a banca designada e saltei para dentro de água. Durante meia hora, andei para trás e para a frente, tentando ora aproximar-me, ora manter-me a uma distância que me parecia segura, pois muitas vezes aqueles dóceis gigantes aproximavam-se demasiado. Apesar da quantidade de pessoas existentes e do “processo” dos barqueiros mandarem comida para dentro de água não me agradar, no momento em que comecei a ver os tubarões baleia “desliguei-me” do ambiente geral e foquei-me na extraordinária beleza deste animal – na sua boca oval aberta qual aspirador gigante, nos padrões da sua pele malhada, na sua enorme envergadura, na suas guelras, na sua barbatana caudal… – Espetacular! Inesquecível! Assim que o tempo acabou, regressámos à banca e rumámos a terra. Quando desembarcámos, o ambiente já era totalmente diferente, uma vez que já não existiam bancas no mar. E a razão? Hora de fecho! Todos os dias em Oslob os tubarões baleia são religiosamente alimentados das 5.30 às 12.30. Depois dessa hora, este negócio milionário fecha e reabre, no dia seguinte pronto para faturar mais umas centenas de milhares de pesos! Terminada a visita a estes magníficos animais, naquele ambiente tão dúbio, não nos fizemos velhos e partimos em direção a Moalboal já na costa oeste da ilha.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Malapascua

Malapascua

Na ilha de Cebu reencontrei Francis – com quem tinha estado meses antes em Gili Air – e depois dele decidir que queria tomar a direção da pequena vila portuária de Maya, realizámos uma quente e apertada viagem de cinco horas, numa estrada com “alguns” buracos. Quando chegámos, já não existiam barcos para fazer a travessia para a ilha de Malapascua e sem nada podermos fazer, ficámos num cafunfinho, onde tentámos dormir o melhor possível. No dia seguinte, apanhámos o primeiro barco para a ilha de Malapascua e o nosso primeiro passo foi procurar a escola de mergulho Fun & Sun com quem já tinha mergulhado na ilha de Coron e que me tinha deixado excelentes indicações. Durante o dia deambulámos pela minúscula ilha, observámos as águas verdes e azuis cristalinas, algumas zonas de praia de areia branca, pequenas aldeias, os simpáticos nativos – principalmente as sorridentes crianças -, alguns estragos provocados pela passagem do super tufão e relaxámos na área comum da nossa escola de mergulho enquanto esperávamos pelo entardecer. No primeiro mergulho na ilha – Ligthouse –, vimos uma longa “dança” de acasalamento de raríssimos peixes-mandarins, sobre a incidência de luzes vermelhas e sensuais; tive o meu primeiro encontro com cavalos marinhos; vimos lulas a brilhar, havendo uma delas que se enamorou da luz da nossa lanterna e a seguiu “cegamente” e uma lula praticamente microscópica, engraçadíssima… no segundo dia, às 5.00 já estávamos a caminho do nascer do sol e do nosso encontro com os magníficos tubarões Thresher em Monad Shoal. Nesse local, enquanto estávamos agarrados à parede e a uma distância considerada ecologicamente aceitável, vimos em simultâneo três destes magníficos animais a deslizar suavemente no grande azul. Poder observar a sua suavidade e graciosidade e num ápice, ver a mudança de direção brusca e aceleração brutal, fez-me tomar verdadeiramente consciência dos seus instintos predatórios letais. Os seus olhos eram redondos e grandes, a sua pele cinzenta e brilhante, mas a característica mais diferenciadora e fascinante, era a sua barbatana caudal longuíssima e que os distingue de todos os outros tubarões. Um encontro apaixonante e adrenalizante! Terminado o mergulho regressámos a Malapascua e depois do pequeno-almoço, partimos novamente, desta feita para a pequena ilha de Gato. Ao largo deste ilhéu, fizemos mais dois mergulhos memoráveis e que em termos de mundo macro foram de classe mundial. Em Gato,vi pela primeira vez alguns peixes e crustáceos raríssimos e espetaculares: um minúsculo peixe sapo branco, que mais parecia um coral; três ornate ghost pipe fish; um engraçadíssimo cuttlefish; um sweetlips microscópico; um boxfish amarelo e minúsculo; vários tipos de camarões – cleaners, um pequeno mas poderosíssimo mantis e vários harlequin, quais pequenas e delicadas flores; diferentes tipos de caranguejo, entre eles um pequeno spider crabuma cobra do mar, um peixe-pedra; moreias; diferentes nuddiebranchs e alguns tubarões – white teep reef e bambo. Ainda em Gato, estivemos dentro de uma caverna/túnel que percorria a pequena ilha de ponta a ponta e na saída da mesma, vi tal como em Sipadan, a luz a penetrar na escuridão e a revelar-nos um mundo de reflexos, brilho e luz. Espectacular! Em Malapascua e Gato, quatro mergulhos. Quatro mergulhos de sonho! Cem por cento de eficácia. Muito divertimento a bordo e vários momentos National Geographic.

Uma Geografia. Uma Fotografia: Coron

Coron

Nos arredores da ilha de Coron, tive dois dias de mergulho intenso num ambiente pesado e sombrio de navios japoneses afundados durante a Segunda Guerra Mundial e aí senti um nervoso acrescido por ter entrado pela primeira vez debaixo de água, em espaços realmente confinados. Neste mundo submerso, senti o lado “negro” do mergulho, principalmente no navio Irako onde atingi a minha profundidade máxima -trinta e oito metros e meio. Porém, mesmo naquele mundo de trevas, existia luz e sempre que esta penetrava pelas frinchas e buracos existentes naquelas estruturas de aço gigantes, parecia que estava numa catedral sub-aquática! Fenomenal! Inesquecível! Para além disso, observar “algo” feito pelo homem, onde se pode ver vestígios da sua presença – as cargas inalteradas dos navios afundados – e onde ainda existem componentes que funcionam, tais como válvulas e torneiras, é algo de inolvidável. Na ilha, para além desses mergulhos míticos, tive serões animados, regados a rum e cola, na companhia dos meus companheiros de viagem e de dois engenheiros Irlandeses; vi procissões noturnas onde as velas dos fiéis iluminavam e espalhavam uma luz mortiça pelas ruas escuras da vila; visitei de barco uma praia de sonho, rodeada de rochas mágicas, negras como o breu e repleta de águas cristalinas e transparentes que brilhavam como safiras e esmeraldas; tive um delicioso jantar festivo onde o caranguejo e o camarão foram reis e senhores; e tive um reencontro com o passado… Numa daquelas noites festivas, ao sair dum bar na companhia de Arnold  gerente de um resort que trabalhava na ilha – encontrámos um nativo, que o conhecia e que nos convidou a ir até ao cemitério, para fazer uma homenagem fúnebre. Arnold imediatamente e de uma forma rude, declarou que não ia, mas eu naquele momento senti algo que me impeliu a acompanhar o nativo. Comprei umas velas, ele umas cervejas, montámos um tuk-tuk e quando estávamos prestes a partir, o Arnold acabou por se dignar a acompanhar-nos. Na escuridão da noite, seguimos estrada fora e depois de uma viagem que não sei precisar quanto demorou chegámos à entrada do cemitério. Aí, passo a passo e silenciosamente, penetrámos naquele espaço vasto, negro e sereno, até chegarmos à campa. Assim que chegámos, Arnold deitou-se na campa do lado e adormeceu pesadamente. O seu ressonar competia em decibéis, com a pirosa música de discoteca que era projetada pelo seu telemóvel. Como estátuas de mármore e alheios a esse facto, acendemos uns cigarros e as velas, abrimos as cervejas e fizemos uma homenagem fúnebre e sentida à sua esposa e ao seu filho – que tinham falecido há um ano. Depois desse momento, dentro de mim, algo se quebrou. Repentinamente, lembrei-me do meu pai e das saudades que sentia dele. Longe de Portugal, longe de todas as pessoas que conhecia, um pouco tocado pelos copos bebidos e sem filtros e barreiras de espécie alguma, comecei a chorar… De joelhos agarrado àquela campa, larguei um peso que carreguei durante quase dezassete anos. Chorei, chorei, chorei. Chorei baba e ranho. Chorei durante largos minutos e não houve nenhum travão que parasse as lágrimas. Apenas quando senti uma leveza a ressoar dentro de mim, parei. Nesse momento, passei as mãos pelos olhos, desajoelhei-me e abracei o nativo. Naquele cemitério perdido das Filipinas, dois “orfãos” de lados opostos do nosso planeta, foram irmãos durante momentos. Juntos partilharam uma dor comum. A dor da perda e juntos reencontraram um calor e uma luz humana, que aqueceu e iluminou a escuridão da noite e o frio da morte…