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Em trânsito: Chongqing – Yichang. 40 horas no Yangtze

Ato I – Sexta Feira? Partida!

A minha viagem de seiscentos e quarenta quilómetros pelo Yangtze começou em Chongqing cerca das 22.00, depois do fabuloso embarque e quando vi a embarcação, percebi que a mesma era muito mais pequena do que eu inicialmente imaginara. A boa surpresa veio quando cheguei ao quarto e vi que este tinha quatro camas e uma casa de banho ensuite. Excelente! 🙂 Uma vez que por esta altura, já fazia contas ao dias que iria estar sem tomar banho, contando que já vinha de Kunming e de uma viagem muito longa! Desse modo, aproveitei para tomar banho e para tirar fotografias antes da partida e no início da mesma. Quando voltei ao quarto conheci os meus companheiros de camarata, dois senhores e uma senhora todos já com idades na casa dos cinquenta e muitos e infelizmente quando me deitei para dormir, os roncos já faziam estremecer o beliche. 😛

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Em trânsito: Kunming – Chongqing. Comboios e Letras

Parti de Kunming ao meio dia e durante a longa viagem que durou quase vinte horas aproveitei para escrever – numa posição de lorde – sobre os meus dias na cidade e escrevi notas soltas em tempo real: tempo cinzento e pardacento; terras castanhas e secas; paisagem entre cortinas translúcidas; velho metediço, a quem tive vontade de dar um chega para lá; túneis; vilas e cidades como tantas outras; vendedores de comida e de “tretas”; alguns vales profundos; ler; paisagem mais verde (16.30); ver a frente do comboio devido a uma longa curva; montanhas e verdes (18.15); pôr a bateria da máquina fotográfica a carregar; agora que já tenho novamente computador, organizar um ficheiro de excel com todos os gastos desde o início (exercício de memória); tentar escrever algo para postar no blog – mas estar cheio de sono. Noite interminável (longa… loooooonga… looooooooooooooooonga).

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Crónicas Fotografia

Dia D para o PC

Ato II – Os Especialistas

Cinco minutos depois, estava a entrar numa pequena loja/oficina atulhada de computadores e material informático, onde conheci os especialistas. E os mesmos, eram três jovens que trabalhavam individualmente, cada qual no seu “arranjo” e que simultaneamente fumavam que nem chaminés. 🙂 O rapaz da outra loja deixou-me lá e antes de partir disse-me que o preço acordado se manteria a não ser que o problema fosse mais grave do que o previsto. Antes da sua partida, tentei marcar a minha posição de forma clara com o objetivo de não me tomarem por tolo e posteriormente tentarem inflacionar o preço do arranjo.

IMG_6875 (FILEminimizer)O PC foi aberto, o disco rígido avariado extraído e simultaneamente ligaram o novo disco rígido a um desktop para ser instalado o Windows 7. De seguida o PC reconheceu pela primeira vez os drivers instalados e eu comecei a ter esperança. 🙂 Várias vezes me ofereceram cigarros e eu fui respondendo que se o computador começasse a trabalhar, então sim! Fumaria, um cigarrito para festejar. Porém, quando finalmente o novo disco rígido foi colocado dentro do PC, nada! :/ O PC reconhecia a existência do disco mas não passava daí. Por esta altura andavam à volta da configuração da BIOS e tentaram, tentaram, tentaram… Até lerem na Internet que o computador tinha dois discos rígidos e começaram a esventrá-lo mais, tiraram a famosa bateria e mais umas peças mas chegaram a um momento em que não puderam tirar mais nada! Esse segundo disco não existia! E eles ficaram admirados.

Neste momento estava bastante apreensivo, já tinham passado três horas desde que chegara aquele local e os resultados práticos, eram diminutos. 😦 Para além disso, comecei a pensar que mesmo que o problema não fosse resolvido, teria de lhes pagar -mesmo que não o valor total, pelo menos uma parte. Resumindo, por esta altura o meu cérebro só me dizia: “Vais pagar para ficar com o computador igual e para além disso vais ter de pagar o envio para Portugal”. Neste momento apenas a tenacidade que eles demonstravam, me ia dando algum/pouco alento e pensei: ”Se estes tipos não conseguirem, tenho mesmo de enviá-lo porque estão a tentar tudo o que podem”, para além do bom ambiente criado entre nós, à custa de uma linguagem corporal expressiva e alguns gracejos na “conversa” Anglo-Chinesa via tradutor do Baidu. 🙂

Finalmente, foi jogada uma cartada decisiva, ligaram para o apoio de clientes da Samsung mexeram mais uma vez nas configurações da BIOS e finalmente… fez-se luz! O PC voltou à vida, retornado do reino dos moribundos e dos mortos! 😀 Naquele momento todos ficámos contentes e comecei finalmente a fumar para festejar, três horas e meia depois de lá chegar. Durante as três horas seguintes estiveram de volta do PC e instalaram o Office 2010, um anti-vírus, um detetor de falhas do sistema, um descompactador, o Goggle Chrome e ainda se tentou instalar o Photoshop mas sem sucesso e quase, quase no final um programa para compatibilizar o teclado físico com o digital (Fundamentalíssimo! Para poder escrever em português para o blog).

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Por volta das 19.30 e após uma tentativa falhada para levantar dinheiro, voltei à loja/oficina e avisei-os dessa situação e passados cinco minutos já estava montado numa scotter – à pendura com um deles – nas ruas de Kunming, a caminho do MB mais próximo, onde finalmente consegui levantar dinheiro para pagar a minha dívida. Antes de abandonar-mos o local, tirámos uma fotografia juntos e eu respirei fundo, aliviado e agradecido. Todo o esforço dispendido – por todos-  neste dia, tinha valido a pena! 😀

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Crónicas Em trânsito Reflexões

Em trânsito: Dali – Kunming. O Fantasma de Olhos Cansados

Durante a viagem aproveitei para escrever sobre Dali e colar os bilhetes no caderno; comer qualquer coisa; observar a paisagem que era um pouco mais seca mas continuava verde; tentar comunicar com um chinês (mas tal veio a revelar-se impossível pois o seu inglês era demasiado pobre). Ao olhar para a paisagem pensei que se não existir intervenção humana, ela é “igual em toda a parte”: as árvores, o céu, o sol e senti que podia estar em qualquer lado (sentimento de universalidade). Na penumbra dos túneis observei um rosto de olhos inchados, enrugados e amarelados…Vi a velhice na sua crueza e a transformação do ser humano, num fantasma de olhos cansados.

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Tigres e Escoceses

Ato III – Half-Way Guesthouse

Para chegarmos à guesthouse na qual ficámos a pernoitar demorámos seis horas e esta não tinha o nome mais certeiro, uma vez que estávamos muito mais avançados do que meio caminho. Aliás, pelas informações recolhidas, o Tiger Liping Gorge estava “ao virar da esquina”, apenas a uma horinha de distância. 🙂

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De qualquer modo e esquecendo o pormenor do nome, o nosso poiso foi uma excelente surpresa. A construção era toda em madeira, a vista para as montanhas era espectacular, a sala de refeições e o pátio interior eram agradáveis, as sanitas tinham uma panorâmica sete estrelas! 😛 O quarto tinha bastantes camas, mas era limpo e não era nenhum cafunfo e tanto a dormida como as refeições tinham bons preços, até a cerveja tinha um valor acessível. 😉

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Quando entrámos no quarto, este estava minado de americanas e o escocês – Andy – e o “F+*&%@£ Gipsy” – nome pelo qual fui batizado pelo Andy – transformaram-se em autênticos palhacitos para tentarem quebrar o gelo. Entretanto e de um modo “delicado”, ofereci um pacote de leite a uma delas e quando esta começou com as “polidezes” do ai não posso aceitar – as palavras dizem que não, mas a cara diz que sim – só se pode dizer algo suave, algo do género: “I don´t give a f$&@, it´s yours.”

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Depois da nossa “entrada triunfal” só nos restava bater em retirada e não havia sítio melhor para nos “refugiarmos” que a sala de refeições. Ao jantar, comemos noodles instantâneos, batatas fininhas, beringela e cerveja… cerveja e mais… cerveja e continuámos a conversar. Sobre? Viagens! Uuuuuu. Esta era difícil! 😉 Paquistão, Bangladesh, Myanmar, Vietname, Laos, Cambodja, Bornéu (tanto o lado Malaio como o lado Indonésio)… o Andy não parava de contar histórias e eu ouvia-o atentamente! Foi uma experiência extremamente enriquecedora e eu só pensava: “Este gajo é o maior!”. 😀

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Antes de me deitar, fumei dois cigarros e de um modo instrospectivo olhei a montanha negra recortada na escuridão e ao ouvir o rio correr, pensei que Viajar é parte da minha essência mais profunda. 😀

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Tigres e Escoceses

 Ato I – Identificações

Na chegada à pequena e feia vila que serve de base e ponto de partida para o desfiladeiro, o nosso motorista parou o autocarro no meio da estrada. “É tudo à grande…”, pensei, porém a resposta para tal comportamento foi-me dada muito rapidamente, pois em menos de um minuto, um funcionário diligente já estava dentro do autocarro a vender bilhetes para o Tiger Liping Gorge! “Eh lá! Isto é que eficiência para o negócio”. 😛

IMG_5739 (FILEminimizer)Ainda hoje, continuo sem saber como aconteceu, mas sem dizermos nada decidimos fazer o trekking juntos. Antes de nos fazermos ao trilho, fomos até à Jane´s Guesthouse, onde ele guardou tudo o que não ia precisar e ai tomámos o pequeno-almoço. Porém e fruto da conversa, o tempo estendeu-se, esticou-se, alongou-se… e falámos, falámos, falámos.

IMG_5736 (FILEminimizer)Fiquei a saber que se chamava Andy, que tinha quarenta e poucos anos e que devido a questões de saúde não podia (queria?) ter esposa, filhos, família. Também não queria criar laços amorosos e falou que a única coisa que lhe restava era a sua liberdade. Fiquei a saber que durante os últimos cinco anos trabalhou que nem um escravo, para juntar o máximo de dinheiro e que sua vida foi toda canalizada nesse sentido: “Valeu a pena. Comprei a minha liberdade.” “F#$%-&£! Que resilência é esta? Que “gajo” é este!?” E de algum modo identifiquei-me com ele e senti que me estava a olhar ao espelho. O reflexo é que estava uns anos mais velho. 😀

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Em trânsito: Lú gū hú – Lijiang. Por entre curvas, pinheiros e cantorias

Antes de partirmos, tivemos uma hora à espera que o autocarro acabasse de ficar lotado e só então seguimos viagem. Durante a mesma aproveitei para escrever no meu diário na medida do possível, pois a estrada estava em obras e serpenteava por vales e montanhas de terra seca onde despontavam pinheiros, muitos pinheiros…incontáveis. Na entrada a província de Yúnnán parecia o país dos pinheiros. 🙂

IMG_5418 (FILEminimizer)Para “adoçar” a viagem passámos nas imediações do rio Jinshan e a paisagem revelou-se deslumbrante, uma vez que no meio das áridas montanhas podíamos observar agora um misto e um novo contraste de verdes e azuis. Para terminar o relato da viagem, refiro apenas que houve interpretações a bordo, sendo todas as pessoas “obrigadas” a cantar e a desafinar, e eu vi-me “forçado” a cantar o Homem do Leme e a deixar os chineses de ouvidos em bico. 😛

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O Magnífico Lú gū hú

Mas afinal o que é Lú gū hú? Lú gū hú é um grande lago que se localiza e separa as províncias de Sìchuān e Yúnnán. Dois terços da sua vasta área localizam-se em Sìchuān e o restante terço em Yúnnán. Este lago é a casa de múltiplas vilas de diferentes etnias: Tibetana, Yi e Mosu (a última sociedade matriacal praticante do mundo). 😀


Ato I – O Nascer do Dia e da Discórdia

Na pequena vila de Luowu onde dormimos, acordámos muito cedo para ver o despontar do novo dia e este maravilhou. 🙂 O lago como espelho perfeito das nuvens e da cor do céu, as montanhas recortadas no horizonte, a cor em transição, desde os azuis, cinzentos e pratas até aos desmaiados rosas e dourados vivos, os barcos, a vegetação circundante, a neblina suave, os “nativos” nas suas rotinas piscatórias.

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Entretanto o Xiaoling voltou ao quarto para dormir mais um pouco e eu aproveitei para ler algumas coisas sobre o país, fazer a barba e re-arrumar a mala. Quando voltou a acordar disse que íamos mudar de hostel com o argumento: “Aqui não há pessoas”, fiquei confuso mas acabei de empacotar a mala e fizemos o nosso check-out. Junto ao lago e porque não percebia as suas intenções e ele também não as conseguia explicar (o Xiaoling tinha um inglês praticamente inexistente e a nossa conversação era feita 99% das vezes com recurso à tradução de mensagens no seu smartphone) estava bastante irritado com a situação por ele criada. Naquele momento, estávamos os dois na rua de “monstrinho” às costas e sem um plano, pelo menos era isso que sentia. :/ Com muitas dificuldades na comunicação e vinte minutos volvidos, lá nos conseguimos entender e finalmente percebi que a sua ideia era dormir em Lǐgé, aldeia que se localizava na outra margem do lago e que ficava “apenas”, a mais de quarenta quilómetros de distância.

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Despedida de Qiong Hai

     

Já no hostel e antes de recolhermos a bagagem, ficámos ainda uns momentos a beber cerveja, a comer amendoins, pevides e favas secas, e a confraternizar com o staff e com o dono do hostel sob um magnífico e soalheiro sol. Na despedida disse-lhes: “A nossa casa é onde nos sentimos bem e durante os dias que aqui estive esta foi a minha casa. Tudo graças a vocês!”. 😀

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Em trânsito: Chengdu – Jiuzhaigou. Porreiro Pá!

Durante a viagem comprovei o meu novo “super-poder” 😛 , a habilidade para escrever em andamento. Desse modo, aproveitei para pôr o diário em dia, apesar de pouco me servir visto que os apontamentos escritos desta viagem ficaram perdidos algures na China, sendo que, neste momento escrevo o que a memória me permite.

IMG_3101 (FILEminimizer)Os primeiros duzentos quilómetros foram bastante rápidos (duas horas), mas os restantes duzentos e trinta já levaram seis horas a percorrer! A partir de certo momento começámos a entrar em vales e montanhas, cruzámos incontáveis túneis (alguns dos quais longuíssimos) e aldeias com características tibetanas (mas sempre com a bandeira chinesa bem hasteada). Passámos numa ponte de tirantes em que os pilares estavam pintados e ornamentados com cores vivas e símbolos tradicionais e tive o meu primeiro controlo de passaporte no país. As últimas duas horas da viagem foram as mais duras, curvas e contra curvas fechadíssimas em descida e tive uma epifania para ficar uns dias em Jiuzhaigou a relaxar. A viagem acabou de forma abrupta quando sai à pressa e de forma atabalhoada do autocarro após o motorista estancar o bólide e me apontar a saída. Só passados uns momentos notei que possivelmente e durante o controlo de passaporte, ele percebeu onde era o meu hostel, acabando por me deixar nas imediações do mesmo. Como diria o nosso comentador político e “ex-prime minister”: “Porreiro, pá!” 😛