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Crónicas Reflexões

O que ter Tempo faz, a este Pobre Rapaz

Se o dia anterior se pode assemelhar a uma maratona, o dia seguinte não foi mais do que um passeio num dia soalheiro. Aliás, posso afirmar que este foi de longe o dia mais tranquilo que alguma vez tive em viagem. A manhã, foi passada tranquilamente no hostel e quando saí do mesmo foi para deambular ao acaso com o Ryan. Só a partir das 15.30 saí do hostel com um objectivo pré-determinado, visitar o parque de Beihai.

Mais importante do que tudo, não senti remorsos por estar a “desperdiçar tempo” ou que devia estar a ver algo. Não! O meu chip desprogramou-se e foi reprogramado. Vamos ver nos próximos tempos com que profundidade. Penso que o fator-chave, nesta situação é claramente o tempo e o facto de este não ser a premissa condicionante desta viagem, pela primeira vez existem outras premissas a sobreporem-se a ele. Ai, a diferença que ter tempo faz, a este “pobre” rapaz. 😉

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Crónicas

O Americano e o Português sentados à mesa num Chinês

Quando regressei ao hostel depois de um dia tão cheio de pequenas aventuras conheci Ryan, um Americano que dizia falar chinês e passados uns momentos de conversa quando ele perguntou ao “público” em geral se alguém queria ir jantar, aquela pareceu-me a oportunidade ideal para tirar a barriga da miséria. Não precisámos andar muito para encontrar o que procurávamos: um local pequeno, frequentado por nativos e preços aceitáveis. Aí e finalmente tive o prazer de comer a deliciosa comida chinesa pela primeira vez, uma vez que a experiência da noite anterior fora um autêntico fiasco. Este jantar foi um coroar de um dia perfeito que começou na Muralha da China e acabou numa conversa entre um Americano e um Português sentados à mesa de um chinês.

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Crónicas Fotografia

Tianmen – Praça para Deuses, não para Homens

Depois do ocorrido em Qianmen e ainda meio abananado, dirigi os meus passos a Norte rumo à Praça de Tianmen e cada vez mais fico com a impressão, que esta capital não foi construída para os filhos da Terra mas para os filhos do Céu. Tudo é monumental, tudo é gigante. Os nossos passos assemelham-se ao dos insectos e ao invés de sentir a monumentalidade da praça a libertar-me, sinto-a a esmagar-me. Tal e qual um inseto.

Não sei se sou de algum modo influenciado negativamente, pelas imagens da repressão ocorrida na praça em finais da década de 80 no reinado de Diao Xiao Ping, mas o espaço não me é amistoso. Nos entretantos, o mistério da glorificação de Mao em termos populares – um pequeno exemplo, todas as notas de Yuans têm a sua face gravada – e a pouca visibilidade dada a Diao Xiao Ping – pelo menos quando comparado com o grandioso e “solar” Mao – continuam a intrigar-me. Uma vez que em termos históricos, Mao foi um desastre que ocorreu na história Chinesa do século XX e Diao Xiao Ping a figura que fundou as bases para a China contemporânea.

Na praça os símbolos continuam lá, os soldadinhos de chumbo a marchar, a bandeira Chinesa, o retrato do patriarca Mao. Tudo está no seu lugar, imutável, tal e qual uma petrificação histórica. Mas fico a pensar ao que me refiro… se aos Deuses que governam o Céu ou aos Deuses que governam a Terra.

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Crónicas Fotografia

O Esquema Dourado

Após a finalização do meu repasto, estava alegremente sentado e sossegado num banco na Rua de Qianmen, quando se abeiraram três senhores que meteram conversa. Com um inglês bastante bom, o melhor que tinha apanhado na China até ao momento, disseram que eram uma equipa de informáticos de Xangai que estavam em Pequim por motivos profissionais (um congresso) e perguntaram se os queria acompanhar.

Detalhe do Pórtico

Como não estava a fazer nada de especial, acabei por me levantar e comecei a conversar com eles em andamento. Perguntaram de onde era e o que estava a fazer em Pequim. Disseram que Portugal era muito bonito e que um deles já tinha visitado o país duas vezes. Se era a minha primeira vez na China e outras trivialidades. Disseram que estavam hospedados no Marriot, porque o patrão é que pagava e eu respondi a sorrir sorte a deles porque eu estava num hostel barato, nas imediações da Cidade Proibida. E nos entretantos disseram que tínhamos de trocar e-mails, para quando fosse a Xangai ficar em casa deles e conhecer as respectivas famílias.

Edíficio na Rua Quianmen

Neste momento, tínhamos parado em frente a um edifício de fachada perfeitamente banal e eu como ando sempre com papel e caneta, sentei-me num banco e preparei-me para anotar os respectivos e-mails. O mais conversador dos três disse que não podíamos estar ali sentados e eu na minha candura pensei: “Coitados nem sequer podem ser vistos à conversa com um Ocidental na rua” e começou a dizer que devíamos tomar um chá, enquanto trocávamos os e-mails e apontou para o edifício. Naquele momento, racionalmente não pensei em nada mas instintivamente comecei a retrair-me. Continuou: “O chá é muito importante na nossa cultura e é considerado uma falta de respeito não tomarmos um chá juntos”. Naquele momento e repito-o instintivamente, respondi secamente: “I don´t care” (Não quero saber). E num ápice desapareceram como o vento deixando-me sozinho no local. Passados uns breves instantes, voltei à realidade e só nesse momento percebi que estive muito muito próximo de cair num Esquema Dourado de valores astronómicos. Esquema esse, que consiste em levar-nos a beber um simples chá para no final nos ser cobrado um valor monetário perfeitamente ridículo (que pode chegar às centenas de dólares). Caso a pessoa se negue a pagar, a intimidação física será a arma utilizada para nos convencer a fazê-lo. Esta informação foi confirmada à posteriori, com outras pessoas.

Pórtico de Entrada em Quianmen

Mentalmente comecei a rever todos os pequenos passos que me tinham conduzido até aquele edifício e tentei fixar o máximo de detalhes da conversa que tivera e a desconstruí-la em passos na perspectiva do predador, a saber:

1)      Identificação com a vítima;

2)      Mostrar que se é de confiança;

3)      Perguntas (de forma discreta) com o objetivo de extrair informação;

4)      Apelar ao coração da vítima;

5)      Capacidade de adaptação;

6)      Distração (o facto de serem três era apenas para criar entropia).

Para finalizar refiro apenas que não caí neste esquema elaboradíssimo e bastante profissional por mera sorte e instinto animal. Não houve qualquer mérito da minha parte em evitar este esquema e apenas frisei os passos para alertar possíveis vítimas, seja deste, ou de qualquer esquema, uma vez que o padrão será (quase) sempre semelhante.

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Crónicas

Sr. Agente Ajuda-me a Regatear?

Após um feliz regresso à poluição e tendo em conta a falta de nutrientes essenciais, o meu organismo pobre diabo, estava com larica. Na zona de Qianmen encontrei o que procurava, uma vendedora de “farturas” chinesas, ou seja, massa frita bem ensopadinha em óleo. Como a cavalo “encontrado” não se olha o dente, que se lixe o colesterol, os lípidos, as glicoses, frutoses, sacaroses…e tretas do género. Vamos é comer qualquer coisinha. 😛

A minha querida Vendedora

A bancada apenas tinha informação em chinês (pelos vistos, o rapaz ainda não percebeu que está na China) e como não queria ser enganado aproveitei a passagem circunstancial de um Sr. Agente da autoridade, vulgarmente denominado polícia, bófia…e em algumas circunstâncias mais fogosas de filho da !$#% para cima. Parei o Sr. Agente e tentei falar-lhe em inglês, mas não surtiu grande efeito. Por gestos consegui mostrar-lhe que queria comprar uma farturinha e ele tal e qual um pai que acompanha a criancinha, lá foi comigo até à banca da senhora perguntar quanto custava o abençoado frito. A vendedora olhou para mim e fez-me sinal de 6Y e eu que já tinha preparado umas notinhas para regatear, tirei as minhas 4 notas de 1Y do bolso e mostrei que não tinha mais (claro que tinha, mas na carteira). Ela acenou que não, eu insisti que só tinha aquele dinheiro e com a mediação do Sr. Agente, que deve ter ficado com pena de mim, venci mais uma batalha no jogo do regatear. Quando comecei a comer, o óleo escorria frito abaixo. Mas naquele momento a fomeca fazia com que aquela “fartura” fosse a mais refinada à face da Terra. 😀

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

O Primeiro Dia em Pequim

O primeiro dia em Pequim correspondeu ao primeiro dia da viagem (vá, vamos excluir os aeroportos e os aviões, porque esses pouco se alteram em qualquer lugar do mundo, correspondendo a um modelo previamente standarderizado). Quando aterrei o dia estava cinzento e enevoado. “Oh diabo! Welcome to smog my friend?” A ver vamos. No aeroporto, para sair para a zona das bagagens foi necessário aguardar numa fila o controlo dos passaportes e de um “cupão” que é importante para o controlo de emigração e deve ser entregue à entrada e à saída do país. Mas não se pense que o controlo dos passaportes só é aplicado aos ocidentais, não senhor! Aplica-se também aos próprios cidadãos. Ora muito bem! Cá temos um primeiro cheirinho a burocracia. Quando ia a caminho do metro passou por mim um ocidental e na zona de comprar os bilhetes meti conversa com ele. Para minha sorte calhou-me na rifa um italiano (Stefano) que já vive na cidade há sete anos e durante a nossa viagem até ao centro de Pequim, contou-me coisas sobre si e deu-me algumas dicas.

Já na hostel (que foi bastante fácil de encontrar) e apesar do cansaço (esquecer-me recorrentemente de objetos antes de sair, acho que foi a faceta mais visível) o meu objetivo passou por continuar acordado e manter o ritmo o mais normalizado possível. Desse modo, o corpo é forçado a começar a habituar-se ao horário do destino. O resto do dia foi passado a deambular por Pequim de forma errática e sem grandes objetivos definidos. Acabei por seguir até aos muros exteriores da Cidade Proibida por uns hutongs (ruas e vielas que formam um bairro, em que as casas tem tradicionalmente pátios interiores) e seguidamente dirigi-me ao parque Jingshan (no seu interior este parque alberga alguns pavilhões chineses, que se localizam no topo de uma colina e proporcionam uma bela panorâmica sobre a Cidade Proibida, mas não neste dia) onde andei tranquilamente a passear com um chinês que pôs conversa comigo quando estávamos sentado num banco do jardim.

Saí do parque e continuei a deambular por avenidas monumentais e por mais hutongs. Aqui, pela primeira vez entrei numa mercearia e sem falar uma palavra de chinês e só com comunicação gestual consegui comprar uma garrafa de água de litro e meio (que inicialmente custava 5Y) por 1Y, percebendo automaticamente a importância que o regatear tem na cultura deste país. De rua em rua, viela em viela fui parar à rua principal do hutong mais antigo da cidade (Nanluogu Xiang) e lembrei-me de uma citação de Theroux: “É axiomático que logo que um lugar ganha a reputação de ser um paraíso se torna um Inferno” – a rua era um misto de discoteca pirosa e de um circo. Enfim demasiado turístico e demasiadas pessoas para o meu gosto, mas se calhar é melhor começar-me a habituar e rapidamente ao turismo de massas aqui na China.

Quando saí desta zona de hutongs, não sabia onde é que andava e o melhor foi quando abri a mala para ir buscar o mapa e verifiquei que não o tinha, a cereja no topo do bolo veio quando me apercebi que nem sequer o nome da rua ou localização do hostel tinha comigo. Nesta altura, tentei recorrer à ajuda de algumas pessoas que passavam na rua ou que trabalhavam em lojas ali nas imediações mas comecei a perceber que o inglês continua a ser pouco falado (mesmo em pessoas mais jovens). Moral da história: cansado, perdido (durante mais ou menos hora e meia) e sem perceber uma única letra que me rodeava ou palavra que me diziam comecei a ficar nervoso e a pensar como raio me ia livrar daquela situação incómoda que tinha criado. Após uns momentos de reflexão lembrei-me de ir a um hotel grande (em que aí falam inglês) pedir um mapa e para marcarem onde estávamos. Com base no mapa e na minha bússola lá me consegui orientar e voltar à base – apenas por curiosidade, diga-se que estava aproximadamente a três quilómetros na direção Noroeste.

Quando ia a chegar ao hostel estava esfomeado e encontrei um famoso mercado de rua noturno com comida, porém para o dia acabar em beleza paguei 17Y por um pratito de noodles mal-amanhado e reaprendi que antes de concluir qualquer negócio só mostro o dinheiro depois de acertado o preço (nem que seja por mímica). Já no hostel confirmei que na China o Facebook está bloqueado (tinha quase a certeza deste facto) e a má surpresa veio quando percebi que nem no blog conseguia entrar (também bloqueado). Depois de avisar que estava tudo bem (via skype, o telemóvel desde Barcelona que não tinha rede) finalizei a preparação para Muntianyu e às 20.00 já estava a dormir o merecido sono dos viajantes.

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Crónicas Em trânsito

Em trânsito: Lisboa – Pequim. Micro Planeta

A viagem para Pequim iniciou-se no aeroporto de Lisboa. Aliás, começou com um momento de puro acaso em plena Avenida do Brasil, quando dei de caras com um amigo com quem tinha combinado encontrar-me no aeroporto. A despedida das pessoas que estavam na Portela foi intensa, mas ao mesmo tempo reconfortante porque reaprendi a importância da amizade e do amor.

Graças à tecnologia moderna que é o avião, perdão máquina de viajar no tempo. Entrei em Lisboa às 19.25 (de terça feira) e saí em Pequim às 9.30 (de quinta feira). A viagem no total durou 36 horas, com 12 horas e meia de viagem, 8 horas de distorção temporal e o restante número de horas para escalas.

A viagem foi loooooooonga e só não foi mais cansativa devido ao facto de em Barcelona ter marcado um hostel para passar a noite. Porém, consequência da preocupação de na manhã seguinte ter de apanhar o avião para Pequim (com escala em Moscovo) não consegui dormir bem, acordando “n” vezes ao longo da noite. Ainda relativamente ao descanso ou ausência dele, posso adiantar que quando saí do avião em Pequim o único descanso que tive foram essas horas mal dormidas de Barcelona. Os voos foram como quase todos os voos são: entra-se por um tubo ou um autocarro e sai-se por uma dessas vias; limpo; asséptico; ar pressurizado; algum ruído de fundo constante; micro refeições; mantas de retalhos vistos do céu: oceanos de neve, micro montanhas, micro cidades, micro carros. Quando a noite e a escuridão invadiram a terra deixaram por debaixo do avião apenas um manto negro e opaco, para o amanhecer e a luz do dia revelarem novamente o mundo em miniatura, igualzinho aos globos de vidro que povoam as nossas memórias de infância.