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Crónicas Fotografia

Pedalando em Qiong Hai

O dia amanheceu já sem chuva e cor de prata, e o nosso primeiro passo foi alugar duas bicicletas para dar a volta ao lago. Qiong Hai, tem quarenta e dois quilómetros de perímetro, mas no final do percurso enganámo-nos numa cortada e esse valor passou para aproximadamente quarenta e oito quilómetros. 😛 O lago pode ser dividido em duas partes distintas, a turística e a real.

      

     Arcos

      

No decorrer da manhã, pedalámos pela zona turística. Aqui, as margens estavam bastante arranjadas com jardins, zonas para bicicletas, árvores, estátuas, zonas pedonais, embarcadouros e barcos a remos. A partir do meio-dia chegou o sol, e, à medida que fomos avançando começámos a ver o Qiong Hai real. O das aldeias, o dos velhotes e das crianças, o das pessoas sentadas na rua a jogar às cartas ou majhong, a conversar ou pura e simplesmente a ver o tempo passar. O Qiong Hai dos camponeses, dos carros e das motas a buzinar, dos verdes campos cheios de água e vida, o do suor e esforço humano e animal, o dos bois, das vacas e dos incontáveis pássaros, o dos montes à volta do lago e das flores… rosas, roxas, amarelas e brancas. 🙂

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Crónicas O 1º Dia

Xichang. O Momento mais Baixo

O dia acordou chuvoso e muito cinzento, talvez pronúncio do que se avizinhava. Depois do pequeno-almoço, mudámos-nos para um hostel em Qiong Hai (o lago que fica nas imendiações de Xichang). Como o dia estava péssimo e o meu PC avariado, voltámos a Xichang para tentar encontrar uma loja que resolvesse o problema.

Deixámos o computador entregue a um informático que nos disse solucionar o assunto em quatro horas por 420Y (aproximadamente 52,50€) e passámos a tarde num cyber-café, a aguardar. Passadas cinco horas recebemos a notícia via telemóvel que afinal não tinha sido possível tratar do difícil caso, uma vez que o disco rígido conseguia ser recolocado mas que não tinha as drivers necessárias. Quando voltámos ao hostel, estava triste e sentia que o dia tinha sido completamente perdido (este sentimento apenas foi atenuado, mas muito ligeiramente, porque durante o dia esteve sempre, sempre a chover). 😦

Num dia tão merdoso, o serão foi a única coisa positiva: a malta do hostel, os shots de cerveja (TSINGTAO), os cigarros, sentir o bom ambiente, acabar de organizar as fotografias de Pequim, falar via bate-papo (Gmail), dizer a um chinês que gozou comigo duas vezes que este estava a ser rude e estúpido e que apesar de eu não perceber chinês, percebia a linguagem corporal. Durante a ceia comemos tofu frito, ovos mexidos e feijões de soja, jogámos ao pedra-papel-tesoura para ver quem bebia e fingi que estava tudo bem com o chinês ao ser polido na despedida.

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Crónicas Em trânsito

Em trânsito: Shimian – Xichang. Good Cop, Bad Cop

A nossa paragem em Shimian, só tinha um objectivo: arranjar um meio de transporte para Xichang. E o Xiaoling como rapaz desenrascado que é, resolveu que deviamos tentar apanhar boleia e continuar na senda da poupança. Claro que não me opus e passado uns minutos estavámos a apanhar um táxi para os pórticos de entrada da auto-estrada, já com um cartaz em riste que “dizia”: Xichang – em caracteres chineses, pois claro. 😉 Aí encontrámos um polícia, o bonzinho que nos tentou ajudar a realizar os nossos intentos, inclusivamente chegou a mandar parar carros e perguntar-lhes se eles íam na direção de Xichang. Infelizmente, não durou muito porque entretanto chegou o polícia mauzinho  “ser superior”, de tromba fechada e óculos RayBan na fuça – que rapidamente acabou com a boa ação do seu subordinado. Quase sem falar, fez-nos um gesto para que nos afastássemos dali e tivemos que mudar de poleiro.

Durante os vinte minutos seguintes e à vez, fomos mostrando o cartaz aos carros que passavam e felizmente passado esse tempo conseguimos apanhar boleia com três rapazes, que seguiam num jipe. Impecáveis, super-simpáticos, divertidos – apesar de não os compreender, foi isso que senti – e excelentes anfitreões.

A viagem foi tranquila e se num primeiro momento apenas se viam terras áridas, de repente tudo mudou e a paisagem passou a ser verde e cheia de água. Porém, nem tal facto chegou para alterar o aspecto das aldeias que fomos observando ao longo do caminho: pequenas, pobres e sujas. Já na chegada ao destino, senti-me qual estrela de Hollywood, quando um dos rapazes me pediu para tirar uma fotografia com ele e sorrindo os dois tirámos o retrato que encerrou a nossa boleia. 🙂

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Crónicas Em trânsito Fotografia

Em trânsito: Hai luo gou – Shimian. Condução à Chinesa

Tudo o que é bom, em algum momento tem de acabar e foi o que aconteceu com a nossa boleia. De Hai luo gou, o Johnny levou-nos até Shimian e daqui seguiu para Chengdu. Durante a viagem destaque para o rio, as laranjeiras, as vilas, os buracos e… a condução “à Chinesa”. 😛

Laranjas    Mirror

Esta condução baseia-se na premissa que a sinalização não interessa e que se não há carros de frente é para ultrapassar. Atenção, que refiro este facto não para me queixar do Johny que felizmente é um condutor minimamanete consciente, mas pela besta que se ia espetando em nós, não fossem uns reflexos de felino do nosso condutor. Xìe Xìe Johny! Safaste-nos o pêlo. Quem sabe… a Vida! 😀

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Crónicas Fotografia O 1º Dia

Yadzin. O Parque das Rochas Vermelhas

No dia anterior e depois da chegada a Lin Qi, acabámos por não nos despedir do Johny e da “amiga”. Uma vez que a nossa rota era semelhante, a boleia continuou e seguimos todos juntos, até Hai luo gou. Aí passámos a noite num hostel barato e de manhã fomos com os nosso benfeitores até ao Parque Natural de Yadzin e ao planeta das rochas brancas e vermelhas.

      

Este local foi uma grande surpresa e para mim algo totalmente inesperado. A paisagem é diferente de tudo o que vi e consiste numa área gigantesca de pedras vermelhas e brancas junto a um rio. À primeira vista e pela descrição pode não parecer muito apelativo, mas posso afirmar que é mesmo ver para crer. É lindo! O facto mais interessante é que o vermelho não passa de uma película exterior e se observarmos com atenção vemos que as rochas por debaixo da película são brancas. A melhor maneira de explicar é imaginarem o tronco de uma árvore coberto de líquenes, mas neste caso o tronco é substituído pela rocha branca que fica total ou parcialmente coberta por um revestimento vermelho. Descoberta positiva e diferente, valeu a pena ter vindo a Yadzin, o parque das rochas vermelhas. 🙂

   

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Crónicas Em trânsito

Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato VII – O Caminho de Regresso

Depois da recompensa e das despedidas, a nossa atenção voltou-se para o regresso a Lin Qi ou a Yujin e o nosso primeiro passo foi falar com Johny para saber se ele nos arranjava boleia. Apesar de inicialmente ele se ter mostrado muito renitente – questões de seguros, caso acontecesse alguma coisa de mal – lá o conseguimos convencer. A primeira parte do caminho foi um corta-mato feito a pé entre o pico de Niubeishan (牛背山) e a casa onde almoçáramos três dias atrás, onde o Johnny tinha deixado o seu SUV. Incrivelmente, esta foi a parte mais tranquila.

A segunda parte consistiu na descida entre este local e outra casa semelhante, mas localizada a uma cota inferior. O caminho estava cheio de lama, buracos, curvas apertadas e por isso a velocidade era muito reduzida: 10-15 km/h. Em certo momento o Johny pediu-nos sair do carro e irmos um bocado a pé devido à insegurança da descida. Fruto de um corta-mato que fizemos dentro da floresta, da lama e da neve, desencontrámo-nos dele e tivemos de voltar para trás à boleia numa carrinha de caixa aberta alta. Nessa curta viagem tive uma bela oportunidade para de experienciar novamente o medo, ao ver os precipícios do meu lado da estrada. :/

A terceira e última parte do caminho começou nessa segunda casa e apenas terminou em Lin Qi. Nesse último troço, saímos ainda do carro algumas vezes devido aos penhascos assustadores e à ausência total de proteções laterais na estrada. Mesmo assim ainda deu para suar um pouco, pelo menos no início do caminho. 😛 A estrada era toda ela de terra batida e a inexistência de placas e indicações, fez com que nos perdêssemos três vezes em cruzamentos. Apesar de tudo e à medida que íamos progredindo (muito lentamente, 10 km/h) o ambiente foi-se desanuviando e deu para apreciar a paisagem que desfilava ao nosso lado: montanhas, verdes vales e o céu azul. No total a viagem durou aproximadamente sete horas, quase tanto como o trekking de subida, e de certo, com muitos mais sustos e percalços do que este.

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Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato VI – A Recompensa

Para ir ver o nascer do sol, acordámos por volta das 6.00. Quando saímos da tenda ainda era de noite e havia muitas estrelas no céu. Caminhámos para o ponto mais alto da montanha e aí aguardámos pelo nascer do astro rei, aproveitando para ver o cavalgar do dia perante a noite, e a transformação do céu negro para azul. 🙂

          

Nessa altura tivemos a nossa recompensa. Diga-se, uma recompensa muito aguardada e algo merecida, uma vez que esperámos durante três dias por aquele momento. E o momento não desiludiu, antes pelo contrário! Foi BELO ver o nascer do sol, a multidão que aguardava expectante, a suave neblina nas montanhas da face Este qual uma delicada pintura chinesa, o céu completamente limpo nas montanhas da face Oeste, os reflexos dourados nos grandes picos brancos e nas outras montanhas de faces negras e cinzentas, e claro, ver o pico da Gongga a brilhar em toda a sua majestade e altivez, com uma visibilidade perfeita, perfeita, perfeita! Indescritível! 😀

     

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Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato V – Nevoeiro e Esperança

Ao terceiro dia, a montanha acordou parcialmente gelada e novamente coberta de um manto de nevoeiro espesso e impenetrável. Nesse momento percebemos que era impossível partir e fazer a descida – pelo menos naquele dia. Em conversa decidimos que no dia seguinte, com ou sem nascer do sol tínhamos de deixar Niubeishan, uma vez que aquela seria a terceira noite e estávamos ali completamente em standby. :/

Durante o dia aproveitei para acabar de pôr o caderno em dia e secar as malfadadas botas que teimavam em gelar.  À  medida que as horas foram passando começaram a chegar pessoas à montanha… mais pessoas… mais pessoas… mais pessoas, parecia uma horda a invadir Niubeishan (牛背山). Curiosamente, à medida que a quantidade de pessoas aumentava o tempo melhorava, e a partir das quatro da tarde as nuvens “abriram” de tal maneira que foi possível voltar a ver a paisagem em nosso redor.  🙂

Crateras e montanhasRumei então a uma zona da montanha que ainda não conhecia e na medida do possível comecei a tirar algumas fotografias, uma vez que por esta altura já andava em contenção de bateria. Foi uma boa surpresa quando encontrei Johny e a “amiga”, um casal que conhecêramos no dia anterior. Aproveitei para passar o resto da tarde com eles e para aprender mais sobre fotografia com o Johny, quando a tarde acabou tinha as mãos completamente geladas. 

Iluminações     

O fim do dia foi um espectáculo extraordinário: as múltiplas nuvens, as cores do pôr do sol, as montanhas, a cor do céu… de tal modo que quando a noite caiu vimos pela primeira vez um céu estreladíssimo. A esperança aumentou exponencialmente para o próximo dia. O dia do tudo ou nada!

      

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Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato IV – Nevoeiro, Neve e Bondade

Depois do pôr do sol e da sinfonia celestial, o novo dia nasceu nublado e cheio de nevoeiro, e como o Xiaoling fazia questão de ver o nascer do astro rei em Niubeishan (牛背山), decidimos ficar mais um dia. Sem visibilidade e com a temperatura exterior muito baixa, o frio empurrou-nos literalmente para dentro das tendas. Durante a estadia aproveitei para continuar a atualizar o “diário”, a aquecer os pés e as palmilhas das botas – porque tinha o interior das mesmas húmidas e completamente geladas – e aprender mais um pouco de mandarim. 🙂

Se as expetativas para que houvesse nascer do sol no dia seguinte já estavam baixas, ao final do dia desceram para valores negativos, uma vez que começou a nevar intensamente. O momento alto e memorável do dia surgiu então ao serão pela mão do nosso “gerente hoteleiro”, que para além de nos ter oferecido o jantar, ofereceu-me um maço de tabaco, um isqueiro e bebidas. A bondade destas pessoas é incrível e não pude deixar de me sentir comovido e reconfortado com tanta humanidade e calor. 😀

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Niubeishan no Anfiteatro das Montanhas

Ato III – A Tenda e o Anfiteatro Natural 

Depois de colocar a mochila na tenda e escrever com uma caneta de feltro o meu “feito”, comecei a observar o espaço em redor e reparei que aqui o turismo ainda é bastante rudimentar e primitivo. A estrutura base da montanha é a tenda e tudo gira à volta dela. Tendas “gigantes” a servir de dormitórios, tendas a servir de cozinha, tendas a servir de refeitórios, tendas a servir de latrinas, tendas a servir de central eléctrica… 🙂 Geralmente o dono de uma cozinha é simultaneamente dono de um refeitório e de um dormitório, desta forma podem existir conjuntos que se constituem como unidades separadas, funcionando cada uma dessas unidades como um hotel. 😉

       

Quanto às pessoas que aqui circulam, vêem-se alguns jovens, mas a maioria são homens adultos que sendo ou não profissionais da fotografia o parecem, tal a quantidade e qualidade do material que transportam às costas, nas mãos ou ao pescoço. 😛 O ambiente geral é fascinante, devido à confraternização entre as pessoas e os “fotógrafos”, não se sentindo um ambiente competitivo, mas de partilha. 🙂

      

Passados uns momentos de deambulação na montanha percebe-se o porquê de toda perafernália fotográfica. Esta montanha não tem um pico definido, ou se tem, este é de tal modo largo que mais parece um planalto. Deste modo, ao andarmos pela montanha percebemos que estamos no centro de um anfiteatro totalmente rodeado a 360o de montanhas. 😀 Camada sobre camada, sobre camada, vemos picos, desde os mais próximos – castanhos escuros – aos mais longínquos – brancos… enfim, ESPECTACULAR! 😀 Aqui, se a meteorologia ajudar, pode vislumbrar-se o Paraíso, tal como o momento em que no final do dia vi uma cascata de nuvens a escorrer por entre os picos mais baixos. Belo! Absurdo! Surreal! Uma sinfonia comovente, à qual só faltava mesmo o som. 😀