Antes de ir comprar o telemóvel, muni-me de “artilharia pesada” e preparei-me para o “combate”, trocado por miúdos, pedi à rapariga do hostel para me escrever num papel (em caracteres, pois claro): a) “Este cartão tem de ser detetado pelo telemóvel”; b) “Venda-me o telemóvel, mais barato que tiver na loja”. Com o papel mágico, comecei a minha peregrinação por todas as “capelinhas” de Xing Ping, antes de decidir que “vela” comprar. No final a escolha recaiu sobre um dual-SIM laranja e a cores, uma autêntica pérola do Oriente! 😛 Ou como me disse a rececionista do hostel: “Esse é um telemóvel para velhos”. Sim minha querida, sem dúvida, mas o importante é que este assunto está encerrado e eu tenho novamente acesso a um relógio, a um despertador e a algo que possa ser utilizado numa eventual emergência. Mission accomplished! 🙂
Mês: Janeiro 2014
Percalços Matinais
Acordei às seis da manhã com o objetivo de fazer um trekking até Shawan – três horas num sentido – porém para o iniciar havia que cruzar o rio e devido à inexistência de barcos – pelo menos àquela hora – e de informações manhosas – novamente? onde eu que já vi este filme? Ah! Isso mesmo no dia anterior – andei uma hora para trás e para a frente. Irritante!
Para aliviar a irritação que sentia, decidi subir a colina Laozhai e em boa hora o fiz pois a luz matinal estava de facto bela. 🙂 A colina é bastante íngreme mas o problema principal é mesmo a falta de aderência dos degraus e a sua antiguidade, por isso… cuidados redobrados! De qualquer modo, a chegada ao topo da colina compensa o risco – que não é assim tão grande – pois a paisagem bem “aberta” sobre o rio e a vila é de facto majestosa e memorável. 😀
Quando regressei à vila, vi que finalmente o barco já andava a cruzar o rio e finalmente lá o consegui atravessar, não sem antes o “capitão” me tentar cobrar um preço inflacionado e eu me rir à medida que lhe entregava o valor real. Claro que fruto do percalço com o barco, percebi que já não tinha tempo para ir até Shawan e decidi por isso ir até Tungjiao Tunnery – três horas em ambos os sentidos. Claro que falar é mais fácil do que fazer e por entre trilhos, pomares e campos de cultivo consegui perder-me. Andando junto ao rio, fui até onde me foi permitido pelo terreno. Aí o rio invadiu a terra e eu fui automaticamente travado, mas antes desse momento, ainda tive oportunidade de ver uma cascata, desbravar caminho por entre a floresta e ver um templo parcialmente construído numa caverna. 🙂 Fruto deste novo percalço percebi que não tinha tempo para mais improvisos e regressei a Xing Ping, com um novo objetivo em mente…
Xing Ping e o Campo
Na chegada à pequena vila de Xing Ping dirigi-me ao hostel e aí recebi um briefing sobre o que podia fazer na mesma e nos seus arredores. Depois de um pequeno almoço à base de dumplings, aluguei uma bicicleta montanha e parti rumo à descoberta das pequenas aldeias e campos de cultivo que rodeiam a vila.
Durante o trajeto e devido à existência de múltiplos trilhos, tive que parar várias vezes e “perguntar” – apontar para o mapa – se estava na direcção certa e fruto das estradas de terra, lama e esburacadas qual um queijo suíço, das múltiplas plantações, dos camponeses com quem me fui cruzando e da paisagem coberta de verde, senti-me completamente embrenhado na China profunda, ou pelo menos na China rural. 🙂
Quando regressei a Xing Ping entreguei a bicicleta e como ainda era cedo (16.00) resolvi fazer um pequeno trekking até à vila dos pescadores. Para encontrar o início do trilho ainda demorei algum tempo, pois para além da pouca clareza do caminho, na altura de pedir informações houve muitas opiniões contraditórias, um pandemónio! Passada meia hora, lá dei com o trilho e a partir daí foi sempre a subir, com cuidado – aliás muito cuidado – pois as rochas eram extremamente escorregadias, por entre uma vegetação verdejante e uma paisagem envolvente bela. 🙂 Por essa altura reparei que o telemóvel estava com problemas e resolvi desligá-lo, por um bocado.
Quando cheguei ao topo, o céu estava azul e eu desci um pouco a colina para ver como era a paisagem do outro lado: a larga curva do rio, a água a refletir os raios de sol, as nuvens, a aldeia com os seus barcos nas margens e belas as colinas de pedra, cobertas de vegetação. 🙂 No caminho de regresso confirmei que de facto o telemóvel não se ligava e fiquei irritado com a situação – gastar mais dinheiro, sem “necessidade” aparente – mas lá relativizei a questão e percebi que a única coisa que havia a fazer era resolver o “problema”. Passado esse momento de frustração momentânea, voltei a apreciar a paisagem mas sempre concentradíssimo, para garantir que não haveria nenhum acidente na descida até Xing Ping, a vila do rio, a vila das verdes colinas de pedra, a vila do… campo. 😀
Logo no início da viagem para Yangshuo, conheci um rapaz sueco com quem estive a falar durante uma hora. Depois disso adormeci, mas num estado de semi-consciência senti o autocarro a oscilar em estradas secundárias, a acelerar por entre camiões, arrancar qual um carro de rally e a parar longamente devido a engarrafamentos e obras na estrada. A meio da noite e sem qualquer aviso prévio, tivemos de mudar de autocarro e depois desse momento made in China só voltei a acordar quando o dia já rompia por entre as trevas, e fruto da bela paisagem que me rodeava, comecei a deleitar-me com a visão de montes/colinas verdes que brotavam do solo, quais árvores de rocha. 🙂 Como curiosidade, refiro que quando abri os olhos pensei que era noite cerrada, porém passados poucos momentos e quando vi os primeiros raios matinais, percebi que acordara num túnel. 😛 Assim que cheguei a Yangshuo parti para Xing Ping e a viagem foi efetuada numa estrada de terra batida, cheia de buracos, camponeses, campos e montes verdes e água, muita água… Xing Ping? Welcome to the countryside, my friend!
Guangzhou. Calor e Tempestades
Nos dias que passei na terceira maior cidade chinesa, esclareci as minhas dúvidas relativamente à rota a tomar após deixar a cidade; visitei parques, jardins e tive dois encontros maravilhosos com as suas distintas faces (a Guangzhou clássica e a Guangzhou contemporânea); fui entrevistado via skype – ou foi mais uma conversa de amigos!? 🙂 ; bebi pela primeira uma refrescante e deliciosa água de coco 🙂 ; tirei múltiplas fotografias; fui abraçado “ternamente” pelo seu abafadíssimo calor e abençoado algumas vezes, por chuvas absolutamente torrenciais e por céus rasgados e iluminados por relâmpagos gigantes. 😉
Quando saí do hostel dirigi-me para a estação de comboios, Hung Hon e antes de sair da cidade aproveitei para comprar comida – “despachando” desse modo os dólares de HK que ainda me restavam – e ver o meu passaporte ser controlado mais uma vez. Durante a viagem aproveitei para comer e organizar algumas coisas pendentes, senti-me cansado e a partir de certo momento observei a chuva que caía pesadamente. Já em Guangzhou, o meu passaporte foi novamente controlado, desta feita pelas autoridades chinesas e nesta segunda entrada? No problem… Hello China! See you again… 🙂
Fui deixado no terminal à 1.00 onde tive de esperar pelas 2.30 pois o barco da 1.30 apenas tinha disponíveis, lugares de super class – bastante mais dispendiosos que os lugares regulares – e aguardei… aguardei… aguardei pela entrada no barco e finalmente pude fechar os olhos pelo menos durante o tempo da viagem. Em HK, saí do terminal às 3.40 e como não havia autocarros disponíveis pelo menos durante as próximas duas horas, andei… andei… andei pelas ruas quase desertas da cidade e às 4.20 cheguei finalmente ao hostel, suado e a necessitar de um banho fresco…
Reencontrei-me com JRD no final da rua da Tribuna e à distância reparei que trazia companhia – um jornalista do seu jornal. Feitas as apresentações, seguimos pela praça do Senado e na travessa de São Domingos encontrámos o nosso poiso, o restaurante Boa Mesa. Aí tivemos um excelente jantar – uma mesa portuguesa, concerteza – e o repasto consistiu em bacalhau à brás, pão quente, azeitonas, cervejas e café e… uma conversa que se veio a revelar “mitológica”! 😀 Durante o jantar, percebi finalmente que a vinda do jornalista tinha como objetivo, entrevistar-me e na praça do Senado – quarta vez nesse dia – tirámos fotografias e continuámos a entrevista, ou seria uma conversa de amigos!? 🙂
Daí seguimos para o Tribuna de Macau, onde continuei a conversar com JRD durante horas e com ele continuei a aprender e a analisar a China e Macau de uma perspetiva mais rica e profunda. 😀 Na despedida da redação recebi dois derradeiros presentes, um livro com ditos de Confúcio e um passeio noturno até ao outro lado de Macau – Taipa, Coloane e Cotai – nova zona da cidade onde construíram os grandes casinos que a transformaram definitivamente e a puseram no topo mundial do jogo – e na viagem de regresso à “velha” Macau fui deixado no porto dos “ferries”, com a “barriga” a rebentar de um dia tão cheio. 😀
Encontro em Macau
Na Tribuna de Macau fui recebido calorosamente pelo JRD com quem estive cerca de quarenta minutos à conversa e combinámos reencontrar-nos às 20.00 para jantar. 🙂 Desse modo e como tinha tempo continuei a visitar a cidade.
Perto da biblioteca Sir Robert Ho Tung encontrei uma verdadeira praça Portuguesa, com direito a quiosque verde e tudo. 😉 Enveredei então pela rua do Gamboa onde encontrei o Seminário de São José e a igreja de São Lourenço e depois segui pela rua do Padre António até à agradabilíssima praça do Lilau, subi até à igreja de Nossa Senhora da Penha e do seu miradouro pude ver a torre de Macau e a ponte Sai Von. Daí desci até ao templo da Barra (ou A-Má) e na rua batizada com o mesmo nome observei o bonito Quartel dos Mouros – datado de 1874. 🙂
Voltei à praça Lilau donde parti em direção aos lagos Nam Vam e aí pude observar o skyline – ou parte dele – de Macau. Segui até encontrar a avenida da Praia Grande e na avenida do Comércio de Macau entrei no meu primeiro casino, o Grand Emperor onde pude observar o luxo e o clima que rodeia as mesas de jogo, principalmente Bácara. Na avenida Dr. Mário Soares encontrei a estátua de homenagem a Jorge Álvares – primeiro português a pisar Macau – e já na praça do Senado aguardei pela hora marcada ao mesmo tempo que vi a luz do dia a metamorfosear-se… 🙂
Macau. Cheiro a Portugal
O ferry para Macau, ou melhor dizendo o barco rápido demorou uma hora redondinha a efetuar a viagem e durante a mesma, fruto da elevada quantidade de salpicos, não me foi possível ver nada. Antes de colocar o pé, num território que já foi português o meu passaporte teve de ser controlado, à semelhança do que ocorreu em HK, antes de embarcar.
Na chegada, o dia estava agradável e fui recebido com sol, céu azul e calor – felizmente mais suportável do que em HK 🙂 – e a primeira visão “portuguesa” que tive foi descortinar um arranha-céus dourado no horizonte e batizado de “Grand Lisboa”. Segui pela cidade e as primeiras coisas que me despertaram a atenção foi observar que os carros conduzem pela esquerda à semelhança de HK e as ruas têm nomes em português.
O primeiro local que visitei foi a colina da Guia e a sua fortaleza, cujo interior alberga uma bela capela – construída entre 1622 e 1638 – e o farol – datado de 1865 – e à medida que percorria este local, lembrei-me dos meus heróis juvenis de Uma Aventura e que puseram a minha mente a viajar por Macau, muitos anos antes de aqui chegar fisicamente. 🙂
Da colina até à praça Tap Seac foi um pulinho e aí tive pela primeira vez contacto com a bela calçada portuguesa e com um grupo de pequenos escuteiros. 🙂 Antes de encontrar o cemitério, passei pela magnífica rua de São Roque, onde se podem encontrar charmosos edifícios de traço português e as bonitas igrejas de São Roque e São Lázaro – que estavam fechadas – e pelo “jardim” Vasco da Gama. Quando cheguei ao cemitério, as suas paredes imaculadamente brancas estavam a ser pintadas de verde água e não fora o aparecimento de caracteres chineses e retratos com olhos e feições asiáticas nas campas iria jurar que estava em Portugal. 🙂
Daí segui até ao Parque Luís de Camões, onde encontrei o “Luís” acompanhado dos seus primeiros versos de Os Lusíadas; vistas da cidade e velhotes a jogar às cartas ou sentados a conversar e a bonita casa Jardim onde se localiza a delegação da Fundação do Oriente de Macau. A caminho das ruínas de São Paulo, passei pela igreja de Santo António – construída antes de 1560 e reconstruída em 1875 e que assinala o local onde os Jesuítas se instalaram na cidade – e pelo pequeno templo de Na Tcha – 1888. Quando cheguei às ruínas, a sua escadaria recebeu-me de “braços abertos” e rodeou-me de hordas de turistas. Sem me demorar longamente, segui para o forte do Monte -construído entre 1617 e 1626 – onde pude voltar a contemplar Macau do alto e visitar o interessante e pedagógico museu da cidade. 🙂 Prossegui pelas ruas de São Paulo super-turística e atulhada de pessoas – da Palha e São Domingos até à catedral, onde fiz a minha chamada para o JRD, diretor do jornal, e combinei passar pela redação, percorrendo antes a palpitante e fascinante praça do Senado. 🙂







































