Na estação de comboios de Xi ´an e antes de partir para Chengdu, havia gente, gente, gente… muita gente. Multidões! E estava quente, quente, quente…muito quente. Um calor dos diabos! E entretanto continuo sem perceber porque é que os chineses acampam “à porta” das estações de comboios.
O Dia da Cinza
Conforme o combinado no dia anterior, às 11.00 encontrei-me com um dos rapazes que conhecera em Huashan no Portão Sul da muralha. O dia era cinza e prata, pois uma nuvem de pó assentou sobre a cidade.
Fomos andando pela cidade até ao portão Este e aí comprámos os bilhetes e começamos a percorrer a fortificação, vá, meia fortificação porque quando comparada com a de Pingyao a muralha de Xi´an tem mais do dobro da extensão! À medida que fomos andando, tirámos fotografias e conversámos e para além de alguns factos sobre a China, aprendi que o Cristiano Ronaldo foi rebatizado e se chama Luo C. 🙂
Quando demos por findo o passeio – estávamos no portão Oeste – fomos almoçar e consegui pagar-lhe a refeição! Uhuhuh!!! Um feito inolvidável, uma vez que há sempre muita resistência por parte dos chineses em que lhe paguemos algo. 😉 Ah, e durante a refeição, tomámos um refresco típico de Xi´an, o Ice Peak.
Antes de nos despedirmos, escreveu-me duas ou três frases em caracteres chineses que me ajudariam a comprar qualquer bilhete, fosse ele de comboio ou autocarro e outra frase em que pedia aos motoristas de autocarro para que parassem em determinado local. Basicamente, esteve a escrever para a minha futura “sobrevivência” no país. 😉
Quando cheguei ao hostel, depois do regresso de Huashan e do estrondoso Hot Pot, conheci Eduardo, um rapaz Colombiano. E o que sucedeu? Bem começamos a conversar, a conversar, a conversar… e estivemos algumas horas a fazê-lo. Falámos sobre viagens e diferentes experiências, América do Sul, segurança, economia e das nossas vidas. Expusemos as nossas teorias de como o sol e a temperatura (ou aproximação à linha do Equador) influenciam os povos e os países do nosso planeta e a sua produtividade, riqueza, corrupção, alegria de viver e a festa… Acabámos a trocar contactos e comigo a oferecer-lhe o excelente livro dos mapas de Pequim que recebera de Ryan, experimentando novamente e de um modo intenso, a importância da partilha em viagem. 😀
Hot Pot
Quando chegámos a Xi´an, fui levado pelos meus dois amigos chineses ao meu primeiro Hot Pot na China. Mas não se pense que foi um Hot Pot qualquer, não! Fomos a um com um serviço Sete Estrelas! 😀 Antes do jantar e enquanto esperávamos foram servidos aperitivos de borla, na casa de banho havia um empregado para nos abrir a torneira, pôr-nos a espuma nas mãos e passar o papel para as secar!? Havia uma pequena creche, consolas para os míudos; manicure para as senhoras e serviço de massagens (sem encargos), panos para limpar óculos, toalhas quentes para as mãos (várias vezes durante a refeição), aventais para as pessoas não se sujarem. Abismado por todo o sem fim de comodidades e luxos fornecidas aos clientes, o mais importante seria mesmo a comida! Comida de excelente qualidade, fresquíssima e muito saborosa.
Como se toda esta descrição não fosse suficiente para um jantar memóravel, no final e irredutivelmente ainda me pagaram o jantar! Um resumo perfeito e do mais alto calibre, do que significa ser-se anfitreão nas terras do Império do Meio. 😀
Huashan a Primeira Montanha
Ato III – O Nascer do Dia, os Chineses e a Ratoeira Dourada
O Nascer do Dia
Acordei às 5.30, ainda de noite com o objetivo de ver nascer o sol e às 6.05 já estava a caminho do Pico Este (2096 m), o qual atingi às 6.20. Durante cinco/dez minutos observei o “terreno” e às 6.30 já estava instalado e pronto para o acontecimento. O sol nasceu algures entre as 6.50 e as 7.00, porém consequência das nuvens, para os espectadores de Huashan, apenas às 7.05 o astro rei se revelou. A partir desse momento e com o passar dos minutos uma luz dourada invadiu progressivamente a face oriental dos Picos Este e Sul, tornando a montanha num local mágico. Durante uma hora andei a passear no Pico Este e nesse tempo fotografei, vi um casal de “doidos” andar junto à beira de penhascos durante 5 minutos (!) e estive no vai não vai para ir ao pavilhão Xia Qi Ting, o qual só é acessível se passarmos um penhasco, com uma corda de rappel.
Os chineses
Às 8.00, uma vez que a temperatura estava a subir muito rapidamente parei para um mini-striptease e para tomar o pequeno-almoço. Nesse momento conheci dois rapazes chineses de Guangzhou, que escalaram a montanha durante a noite e iriam seguir para Xi´an nessa tarde – tal como eu. A partir dai ficámos juntos o resto do dia: fomos até ao Pico Sul; mostrei-lhes o exterior das tendas onde dormira, voltei a encontrar as nobres gentes do dia anterior e tirei uma fotografia com/e ao “avô” – que já tinha as minhas luvas postas 😀 e eles foram meus intérpretes num agradecimento com mais palavras; visitámos o escarpado Pico Oeste e começámos a descer a montanha (10.40). Sem nos apercebermos, durante a descida (11.30) fomos levados a seguir o trilho que conduz ao portão Este e a uma ratoeira dourada! Às 14.00 estávamos no portão Este.
A Ratoeira Dourada
A ratoeira dourada consiste em conduzir as pessoas (durante a descida), para o portão Este, em vez de as conduzir ao portão Oeste. Esta diferença à primeira vista insignificante, conduz as pessoas a um trilho – trilho dos soldados – desinteressante e monótono em que o objectivo é apenas descer degraus! Porém a questão principal nem é essa e se fosse, já era grave! Uma vez que impede as pessoas de ver a verdadeira beleza da montanha durante a descida e no caso de alguns infelizes também na subida. O cerne da questão é que o portão Este fica a oito quilómetros do centro da pequena cidade de Huayin (华阴市), da estação de autocarros, da estação de comboios… enfim fica longe de tudo! E nesse momento, se as pessoas não tiverem carro – a grande maioria – é obrigada a apanhar um mini autocarro para regressar. Ou seja, sem o desejarem as pessoas são conduzidas a uma ratoeira da qual não conseguem escapar! 😦
Podíamos pensar, que ninguém é realmente obrigado a apanhar esse mini autocarro. Errado! A estrada que conduz ao centro de Huayin (华阴市) não tem bermas para peões e está cheia de curvas e contra-curvas, tornando-se um verdadeiro perigo para eventuais caminhadas! Toda esta questão, que eu considero abusiva por parte do parque natural, ganha requintes de ESCÂNDALO, quando no autocarro – operado por uma empresa independente – de regresso a Xi´an (西安) se pode ler um ALERTA – em mandarim – que as pessoas que apresentarem o bilhete de entrada no parque natural antes de entrar nesse mini autocarro – todas as pessoas o têm – não teriam de pagar o bilhete do mesmo. Porém esta informação não existe em nenhum lugar, a não ser… já no interior de um autocarro que nos leva de regresso à grande urbe. Ou seja, o parque natural e a empresa de autocarros andam a encher os bolsos à conta das pessoas, por sonegação de informação. É legal? É…mas que não passa de um mais um esquema made in China, disso não restam dúvidas!
Huashan a Primeira Montanha
Ato II – A Nobreza das Pobres Gentes
Quando entrei na tenda, estava um radiador em forma de parabólica ligado e dois homens descalços a aquecer os pés. O meu anfitrião pronunciou algumas palavras para os restantes e entretanto apontaram-me um lugar para me sentar e pousar a mochila, enquanto vários pares de olhos me olhavam com curiosidade. Dentro da tenda o espaço era rectangular e alto, a temperatura era agradável (fruto do radiador e do calor humano) e havia algum fumo. Para além disso, fora construída uma plataforma elevada em madeira e contraplacados em forma de U invertido que servia para manter as pessoas afastadas do solo enlameado e gelado. Esta plataforma estava cheia de edredons, sacos de viagem, ferramentas e pessoas sentadas ou deitadas a esfumaçar, a jogar às cartas ou pura e simplesmente silenciosas. Existia ainda, nesta plataforma uma subdivisão feita com outros painéis e panos de tenda, tal e qual uma segunda mini tenda.
Enquanto estava sentado fui dizendo várias vezes xìe xìe (obrigado) e apontei para mim e disse Putaoya (Portugal), entretanto já tinha tirado do bolso do softshel as notas que tinha comigo (cerca de 80Y) e passei-as para as mãos de um deles, que as passou para as mãos de outro e sempre a acenarem que não com a cabeça, foram passando as notas de mão em mão até elas me serem todas entregues. Nesta altura senti-me comovido com a nobreza das pobres gentes.
Ofereceram-me então uma garrafa da qual bebi uns goles para aquecer a garganta e para matar o bicho e tirei da mochila a comida para o jantar. Depois de a oferecer aos presentes (ninguém aceitou) comecei a comer com satisfação e apetite. Terminado o repasto, comecei a rearrumar a mochila e a tirar peças de roupa à vez: gorros, luvas, meias, polar, camisola e calças térmicas que fui mostrando às pessoas (sabendo que eram gente pobre) para ver se alguém aceitava alguma coisa. De tudo o que mostrei apenas aceitaram umas luvas polares, nada mais quiseram! Toda esta situação, comoveu-me. A generosidade, a simplicidade, a honestidade destas pessoas. Após a mostra de roupa ofereceram-me cigarros, mais álcool e fizeram-me uma cama com roupa que lá tinham, resumindo… Deram-me tudo o que tinham, sem esperar nada em troca e foram o espelho perfeito da bondade e da nobreza de carácter. 😀
Antes de nos deitarmos para dormir cerca das 21.30, ainda deu para: perceber o motivo de existência da mini-tenda (havia um casal entre os presentes); ver as luvas a serem entregues ao trabalhador mais velhinho (meio-dente e que fumava cachimbo); ver os passos de dança de um chinês mais extrovertido, ao som de um telemóvel 🙂 ; observar jogos de cartas; fumaradas; notar que as várias pessoas utilizavam o mesmo telemóvel (possivelmente para contactarem com a família); entender que aquelas pessoas eram trabalhadores da construção civil.
Adormeci pensado na minha felicidade e boa sorte. Adormeci a pensar que mesmo que a vida seja bastante dura, apesar da necessidade, da privação, das condições em que cada um trava a sua luta diária, da pobreza… o carácter, o bom carácter pode estar sempre bem presente e vivo na vida das pessoas… é ele que nos torna verdadeiramente nobres. 😀
Ato I – A Ascensão e a Procura
A ascensão da montanha iniciou-se por volta do meio dia e os primeiros quatro quilómetros foram bastante simples e sem dificuldades de maior. Destacando-se os templos e altares taoístas em que fui entrado e os malabarismos de um chinês no topo de um rochedo – há gente muuuuuuuito marada! Após esses momentos de passeio e lazer e a partir do momento em que apareceram os primeiros cadeados com fitas vermelhas – representação simbólica dos desejos das pessoas – presos nas correntes laterais – correntes essas que nos auxiliam na ascensão e nos separam da zona dos penhascos – começaram as dificuldades em Huashan.
Às 14.00 estava a almoçar na companhia de uma árvore milenar nas traseiras de um templo taoísta 🙂 e às 14.35 a subida complicou-se exponencialmente com seções de inclinações absolutamente diabólicas – Thousand foot Precipice e Hundred foot Crevice. Às 16.00 estava oficialmente no topo do Pico Norte – podia ter chegado antes, mas decidi percorrer uns trilhos alternativos para conhecer mais facetas da montanha – e nessa altura posso dizer que estava verdadeiramente FELIZ por ter chegado ao primeiro pico de Huashan e por ter a oportunidade de ver algo belo depois de o ter conquistado.
Reflexão: Os montanhistas, alpinistas e praticantes de trekking devem experienciar algo semelhante e quanto maior o esforço ou a provação, maior esse sentimento.
O Pico Norte tem uma altitude de 1614 m e é o anfiteatro de eleição para os restantes quatro picos. Sim! Huashan é uma montanha de cinco picos: Norte, Sul, Este, Oeste e Central. O Pico Norte foi o primeiro a ser conquistado e aí acabei de almoçar aproveitando para descansar um pouco antes de recomeçar a ascensão, o que aconteceu por volta da hora coca-cola light. Nesta altura, porque o tempo estava super-agradável e porque via a quantidade de roupa quente que ainda tinha na mochila, comecei a pensar seriamente em dormir ao relento, nalgum lugar abrigado e o mais próximo possível do Pico Este (local de excelência para ver o nascer do sol na montanha). 🙂
Às 17.00 estava na base do Jin Sue Guan, a seção que liga o Pico Norte à entrada para os restantes picos principais e posso afirmar que este trecho não é nenhuma pêra doce e que puxa pelo nosso corpo e mente. Cinquenta minutos depois estava no Pico Central (2037 m) e vinte minutos volvidos, cerca das 18.10 atingi o Pico Oeste (2082 m), do qual avistava a face do Pico Sul iluminada pela bela luz dourada do pôr do sol. 😀 Uns momentos antes desse belo acontecimento encontrei um americano e um neozelandês com que estive uns minutos à conversa e comecei a sentir-me desanimado relativamente à possibilidade de dormir ao relento (falaram do vento, do frio – temperaturas que podiam atingir os graus negativos… 😦 ) e comecei a olhar ainda com mais atenção para possíveis abrigos, notando que em alguns locais ainda existia neve.
Às 18.37 já estava a caminho do Pico Sul, o mais elevado da montanha (2155 m) o qual atingi já ao cair da noite, só para tirar a fotografia da praxe (no dia seguinte podia voltar mais calmamente). Quando comecei a descer do Pico Sul em direção ao Pico Este já as luzes dos trilhos da montanha estavam ligadas e iluminavam na medida do possível os degraus. Entretanto, continuava à procura de um abrigo, equacionando várias possibilidades, entre elas ficar num templo que estava a ser reconstruído…quando a meio da descida me deparei com duas grandes tendas.
Instantaneamente parei e comecei a vasculhar a mochila à procura de um papel (escrito em caracteres) que tinha a pergunta: “Quanto $ pela estadia?”. Nesse momento, saiu um homem da tenda e eu fiz-lhe sinal para esperar (enquanto continuava a minha procura pelo papel). O homem ficou completamente imóvel a olhar para mim, enquanto eu tirava papéis, papéis, papéis, papéis… mais pápeis e finalmente passados quatro minutos interminavéis lá achei o tal papel. 🙂 Ao mostrar-lho ele fez-me sinal para entrar com ele para dentro da tenda…
Na partida para Huashan (a minha primeira montanha na China e uma das cinco montanhas sagradas do Taoísmo) a primeira mini-aventura ocorreu logo na partida, quando em plena estação de autocarros e com o bilhete já na mão, andei qual barata tonta a mostrá-lo a revisores e motoristas para me indicarem qual o autocarro a apanhar, uma vez que existiam apenas caracteres chineses e não existiam indicações legíveis para leigos do chinês, nomeadamente número do autocarro e local da partida. 😛
A viagem durou sensivelmente uma hora e quarenta minutos e uma vez que Huashan não era a paragem terminal, tive que ir super-atento para perceber o momento exato em que tinha que sair do autocarro pois não há indicações do sítio onde estamos, apenas se ouve a voz do motorista a anunciar o nome do local e digamos que para quem não percebe chinês, nem sempre é tarefa fácil. 😛
No Quarteirão Islâmico
Andava a deambular pelo centro da cidade com o intuito de ir ao quarteirão islâmico, mas como não sabia onde se localizava, limitei-me a andar e a observar o que a cidade me estava a oferecer (principalmente, muito movimento), quando… nas imediações da Torre do Tambor e por mero acaso encontrei o que procurava: o afamado quarteirão islâmico de Xi´an. 🙂
Imediatamente enveredei por umas ruelas, deambulando e sentindo o ambiente. Luzes a piscar, multidões, comida… muita comida, cheiros espalhados pelo ar, frutos secos, quinquelharia, roupa, óleos e incensos… Enfim, uma atmosfera completamente preenchida de sensações e bastante diferente das ruas chinesas tradicionais, como se de repente entrássemos noutro país. Um país das “Arábias” e com cheiro a Mil e Uma Noites. 😉
Ao sair da pagoda percorri parcialmete a avenida Xanta Nanlu em direção a sul e observei que esta zona foi completamente restaurada e irá servir o novo turismo chinês: estátuas e monumentos a vangloriar os antigos heróis e poetas mas com versões bastante exageradas e romantizadas, centros comerciais, lojas, restaurantes, bares e cafés luxuosos. Diao Xiao Peng abriu o país ao capitalismo e agora, com o “Boom Chinês”, há que o servir em doses generosas a quem tiver dinheiro para o consumir.
Nas imediações, ao consultar o mapa, vi umas manchas verdes com enormes lagos e pensei que se tratava de um parque gigantesco. Poderia ser agradável passear por lá um bocado. Porém, qual não foi o meu espanto, quando em vez de um parque público me deparei com o “PARAÍSO DE TANG” que para mim foi equivalente a encontrar o “Inferno de Tang” – bandeirinhas, flores de plástico, templos e torres modernas disfarçadas de antigas, tudo a brilhar e com um “cheiro” asséptico e plastificado que me fez inverter a marcha e voltar a “correr” para o centro poluído e caótico da cidade. Ao menos nesse ainda há realidade. 😉
Uma nota final sobre a bondade dos desconhecidos: Na paragem de autocarro do “Inferno de Tang” uns chineses ajudaram-me a voltar ao centro da cidade e pagaram-me o bilhete de autocarro (de nada serviu eu querer devolver-lhes o dinheiro), isto apesar de não falarem uma única palavra de inglês. 😀
















